Rússia tenta bloquear WhatsApp para empurrar app estatal de vigilância
O WhatsApp afirma que o governo russo tentou bloquear completamente o aplicativo no país nesta quarta-feira (11.fev.2026), para forçar usuários a migrar ao Max, plataforma estatal sem criptografia. A medida atinge mais de 100 milhões de pessoas e aprofunda o controle do Kremlin sobre a comunicação digital.
Kremlin aperta o cerco às mensagens privadas
O comunicado do WhatsApp, divulgado na noite de quarta-feira, descreve uma ofensiva direta do governo russo contra a comunicação protegida por criptografia de ponta a ponta. A empresa, controlada pela Meta, diz que Moscou “tentou bloquear completamente” o serviço no território russo e relaciona a pressão à promoção do Max, um “aplicativo de vigilância estatal”.
Segundo o texto, mais de 100 milhões de usuários podem perder acesso a uma das poucas ferramentas de conversa privada ainda amplamente disponíveis no país. “Tentar isolar mais de 100 milhões de usuários de uma comunicação privada e segura é um retrocesso e só pode levar a menos segurança para as pessoas na Rússia”, afirma a nota. A plataforma acrescenta que “continua fazendo tudo o que pode” para manter as conversas ativas, sem detalhar quais medidas técnicas adota para contornar bloqueios.
A investida ocorre em um ambiente de escalada constante contra serviços digitais considerados fora do controle do Estado. Desde que a Meta foi classificada como “organização extremista” em 2022, redes como Instagram e Facebook estão formalmente proibidas no país e hoje só funcionam, de forma limitada, por meio de redes virtuais privadas. O WhatsApp permanecia como exceção, tolerado enquanto o governo reforçava exigências de armazenamento local de dados e ampliava instrumentos de vigilância.
Autoridades russas cobram de aplicativos estrangeiros o cumprimento de uma lei que obriga o armazenamento de dados de usuários em servidores dentro do país. WhatsApp e Telegram se recusam a seguir essa regra, alegando riscos à privacidade e à segurança. A agência reguladora de comunicações, Roskomnadzor, emite sucessivos alertas e ameaça sanções mais duras. No início de 2026, a agência estatal Tass noticia que o bloqueio permanente do WhatsApp é esperado ainda este ano.
Max vira peça central de projeto de controle digital
O Max surge como o eixo desse novo desenho digital russo. Apresentado pelo governo como um “superaplicativo” nos moldes do WeChat chinês, ele combina mensagens, pagamentos, serviços públicos e acesso a políticas sociais em uma única interface. Diferente do WhatsApp, porém, não oferece criptografia ponta a ponta nas conversas, o que permite monitoramento amplo pelo Estado.
Desde 2025, todos os aparelhos novos vendidos no país precisam sair de fábrica com o Max pré-instalado. Funcionários públicos, professores e estudantes são obrigados a usá-lo para se comunicar com repartições, escolas e universidades. Na prática, o governo transforma o aplicativo em porta de entrada para serviços essenciais, de matrícula escolar a agendamentos médicos, e cria um incentivo estrutural para que a população abandone plataformas fora de seu alcance direto.
Integrantes do governo defendem medidas mais radicais contra empresas estrangeiras. Andrei Svintsov, funcionário do alto escalão, chama de “absolutamente justificadas” as ações para banir o WhatsApp, citando a designação da Meta como organização extremista. A classificação, adotada em 2022, já havia servido de base para tirar do ar Facebook e Instagram e agora embasa a ofensiva final contra o mensageiro mais popular do país.
O cerco não se limita à Meta. O Telegram, criado pelo empresário russo Pavel Durov, enfrenta restrições crescentes e bloqueios intermitentes. O serviço é estimado como tão popular quanto o WhatsApp na Rússia, mas enfrenta acusações de falta de transparência e de resistência a ordens de compartilhamento de dados. Durov afirma que o Estado restringe o alcance do Telegram para “forçar a população a usar seu próprio aplicativo com fins de vigilância e censura política”. “Restringir a liberdade dos cidadãos nunca é a resposta certa”, escreve ele, ao lembrar que o Irã tentou estratégia semelhante, sem conseguir retirar completamente o Telegram do cotidiano da população.
O Kremlin, procurado pela BBC para comentar as alegações do WhatsApp, não responde até a publicação desta reportagem. A ausência de explicações oficiais contrasta com o volume de sinais emitidos por agências reguladoras e veículos estatais, que tratam o apagão do aplicativo como questão de tempo e defendem que a migração em massa para o Max é parte de um projeto de soberania digital.
Liberdade digital sob pressão e incerteza pela frente
A tentativa de bloquear o WhatsApp altera de forma imediata a experiência digital de milhões de russos. Famílias que vivem em cidades diferentes, trabalhadores que dependem de grupos para organizar turnos, pequenos negócios que vendem por mensagens e diásporas que mantêm contato com parentes em outros países veem sua rotina ameaçada por uma decisão tomada de cima para baixo. Sem o aplicativo, muitos terão de escolher entre submeter a comunicação pessoal ao olhar do Estado ou aprender a usar ferramentas mais complexas, como redes privadas e serviços menos conhecidos.
Organizações que defendem direitos digitais apontam um retrocesso profundo na proteção à privacidade e à liberdade de expressão. Ao retirar do jogo um serviço criptografado de massa e empurrar usuários para um sistema centralizado, o Estado amplia seu poder de vigiar, mapear redes de contato e punir dissidências. A aposta em um superaplicativo sem criptografia também aumenta o risco de vazamentos, abusos internos e uso político de dados sensíveis, que passam a se concentrar em uma única infraestrutura.
O impacto extrapola as fronteiras russas. Empresas de tecnologia acompanham a disputa como um teste de até onde governos autoritários podem ir na exigência de controle sobre dados e códigos. Plataformas que se recusam a instalar servidores locais ou a enfraquecer a criptografia passam a lidar com a possibilidade concreta de banimentos duradouros em mercados grandes. Ao mesmo tempo, a reação dos usuários russos, que podem recorrer a VPNs e soluções alternativas, tende a influenciar o cálculo político em Moscou, como já ocorreu no Irã com o Telegram.
A pressão sobre WhatsApp e Telegram também envia um recado a outras companhias globais: a permanência na Rússia depende de concessões profundas em matéria de privacidade. Até agora, as duas plataformas resistem a armazenar dados dentro do país e evitam abrir brechas nos sistemas de criptografia. O resultado é um confronto direto, com custo elevado para usuários que dependem desses canais para obter informação não filtrada e dialogar fora do alcance da propaganda oficial.
Nos próximos meses, o governo russo deve testar a eficácia técnica do bloqueio, enquanto empresas e usuários buscam caminhos para driblá-lo. A definição de como, e por quanto tempo, o WhatsApp continuará acessível na Rússia vai indicar não apenas os limites da engenharia de rede do Kremlin, mas também até onde a população está disposta a ir para preservar algum espaço de comunicação privada. A disputa, agora materializada em um ícone de tela, ajuda a mostrar como a liberdade digital se torna um dos campos centrais de conflito político no século 21.
