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Eleições em Bangladesh expõem perda de força da geração da revolução

Bangladesh elege nesta quinta-feira (12) seu primeiro Parlamento desde o levante estudantil de 2024, mas os jovens que derrubam Sheikh Hasina chegam enfraquecidos à disputa. Divisões internas, alianças controversas e a volta de velhas siglas tradicionais reposicionam o centro de gravidade da eleição mais decisiva em décadas.

Da praça ao bastidor: como a revolução perde o fôlego

Dois anos depois de liderarem protestos que derrubam a primeira-ministra mais longeva do país, os filhos da revolução estudantil descobrem que governar é bem diferente de ocupar ruas em Daca. Cerca de 127 milhões de bangladeshianos estão aptos a votar, mas a geração Z que inspira manifestações mundo afora vê seu protagonismo diluir na véspera da eleição.

O Partido Nacional dos Cidadãos (PNC), criado por líderes estudantis que emergem dos protestos contra o sistema de cotas no serviço público, chega ao pleito fragmentado. A sigla nasce com a promessa de renovar a política após a queda de Hasina, em agosto de 2024, quando a repressão deixa cerca de 1.400 mortos, segundo a ONU, e força a então premiê a fugir de helicóptero para a Índia.

Parte dos nomes mais visíveis da revolta assume cargos no governo interino comandado pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus. O movimento parece, naquele momento, o início de uma transição geracional no poder. A aposta é que esses quadros se consolidem como uma nova elite política à frente de um país exaurido por anos de repressão, prisões em massa e eleições contestadas.

A expectativa começa a ruir em setembro passado, quando o braço estudantil do Jamaat-e-Islami, partido islamista historicamente marginalizado da política formal, conquista com folga as eleições estudantis nas principais universidades do país. Pela primeira vez desde 1971, a prestigiosa Universidade de Daca passa a ser controlada por um grupo islamista. O recado das urnas estudantis é claro: o humor político entre jovens muda de direção.

Sob pressão, o PNC decide em dezembro formar uma aliança multipartidária com o Jamaat. A jogada pretende conter a perda de terreno e garantir alguma capilaridade eleitoral diante de máquinas partidárias mais antigas. O acordo, porém, cobra um preço alto: o Jamaat impõe que o PNC lance apenas 30 candidatos, dos quais só dois são mulheres, enquanto o próprio partido islamista apresenta mais de 200 nomes, todos homens.

Velhas siglas, novas alianças e uma Constituição em jogo

O cenário atual é moldado por uma série de decisões tomadas às pressas depois da queda de Hasina. Poucos dias após a fuga da líder da Liga Awami — agora no exílio na Índia, protegida de uma sentença de morte à revelia por crimes ligados à repressão —, o governo interino de Yunus bane o partido mais antigo do país da vida política. A Comissão Eleitoral cancela o registro da sigla, que tinha cerca de 30% do voto popular, e exclui também seus aliados.

Com o vazio deixado pela Liga Awami, o campo se abre para o Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB), agora liderado por Tarique Rahman, 60, herdeiro de uma das principais dinastias políticas do país. De volta após 17 anos de exílio em Londres, ele reposiciona o PNB como uma força liberal democrática e assume o protagonismo institucional na disputa deste ano.

A eleição ocorre sob regras simples, mas de efeitos potencialmente profundos. O país adota o sistema de maioria simples distrito a distrito: são 300 cadeiras no Parlamento, e basta obter mais votos que os adversários em cada região para ser eleito, mesmo sem chegar a 50% dos votos. A legenda que alcançar maioria forma o governo.

Além de escolher o próximo primeiro-ministro, os eleitores também decidem, por referendo, se implementam a Declaração Nacional de Julho, um pacote de 84 mudanças constitucionais. A proposta cria um Parlamento bicameral, com uma Câmara Alta e outra Baixa, e busca reduzir a concentração de poder no Executivo, apontada como uma das raízes da instabilidade que marca as três últimas eleições gerais, todas contestadas.

Uma vitória do “Sim” obriga legalmente o novo governo a seguir esse roteiro de reformas, ampliando freios e contrapesos e limitando a possibilidade de um novo domínio prolongado de uma só sigla. Uma vitória do “Não” adia a prometida refundação institucional e reforça a percepção de que o país segue preso ao ciclo de personalismos e confrontos.

A Comissão Eleitoral tenta responder às desconfianças com uma combinação de tecnologia e simbolismo. Pela primeira vez, bangladeshianos no exterior podem votar pelo correio. Foram emitidas mais de 800 mil cédulas, que precisam chegar às urnas locais até a tarde desta quinta. Para reduzir risco de fraude, as autoridades anunciam reconhecimento facial e rastreio por aplicativo móvel.

As urnas físicas e digitais, porém, não são o único campo de disputa. Plataformas como TikTok, Facebook e YouTube se transformam no principal palco da campanha, em um país em que mais de 40% do eleitorado tem entre 18 e 37 anos. Vídeos curtos e montagens com uso intensivo de inteligência artificial inundam os feeds. Especialistas em desinformação alertam para o risco de narrativas fabricadas mudarem a percepção dos eleitores de forma irreversível.

Geração Z entre frustração, risco de violência e disputa regional

A perda de centralidade do PNC decepciona parte da juventude que toma as ruas em 2024 contra o sistema de cotas, a alta de preços e a brutalidade policial. Muitos veem na aliança com o Jamaat a renúncia a bandeiras de pluralismo e igualdade de gênero que mobilizam os protestos. Dentro do próprio partido, dirigentes admitem, em conversas reservadas, que a decisão fere a imagem de renovação que marca o movimento estudantil.

Nos bairros populares de Daca, o debate é menos ideológico e mais concreto. Famílias lidam com inflação alta, falta de empregos qualificados e medo de novos confrontos. O Banco Mundial aponta, em novembro de 2025, aumento da pobreza e queda no número de vagas, sobretudo para mulheres. Em um país em que centenas de armas saqueadas durante o levante de julho seguem desaparecidas, qualquer disputa de rua pode se transformar rapidamente em confronto armado.

Relatos de intimidação de eleitores, assédio a militantes e mortes de ativistas se multiplicam nas últimas semanas. Organizações de direitos humanos denunciam o risco de repetição de padrões de violência que marcaram as gestões anteriores. Para muitos, a questão central não é só quem vence, mas se o próximo governo será capaz de interromper o ciclo de repressão, prisões em massa e desaparecimentos forçados.

O resultado também pesa além das fronteiras. Com a segunda maior economia do Sul da Ásia, Bangladesh é peça-chave em disputas entre potências regionais e globais. A relação com a Índia, já tensa pela presença de Hasina em território indiano, pode azedar ainda mais ou ser reequilibrada, a depender de quem assumir o poder. Os laços com o Paquistão, ainda marcados pela guerra de independência de 1971, mostram sinais recentes de distensão que podem avançar ou regredir.

China e Estados Unidos observam de perto. Para Pequim, Bangladesh é um elo importante da Iniciativa Cinturão e Rota e uma porta de entrada para o Sul da Ásia. Washington vê o país como espaço estratégico para conter a influência chinesa e garantir estabilidade em rotas comerciais vitais. Nenhuma das duas potências está disposta a assistir passivamente a um novo ciclo de caos político em Daca.

O dia seguinte da revolução

O dia 12 de fevereiro encerra uma espera de dois anos por um governo eleito depois da queda de Hasina, mas abre outra contagem regressiva: a do teste de maturidade democrática. Caberá à Comissão Eleitoral mostrar se consegue garantir segurança nas seções, apurar com transparência votos presenciais e por correio e resistir à pressão de partidos que, historicamente, contestam resultados quando derrotados.

Para a geração que desafia balas de munição real em 2024, a frustração de hoje não apaga o peso político do levante. O espaço que esses jovens vão ocupar no novo arranjo institucional, porém, ainda é uma incógnita. O futuro governo terá de decidir se eles serão tratados como força residual, mão de obra de campanha ou parceiros na reinvenção de um sistema que falha repetidas vezes. A resposta começa a ser desenhada nas urnas desta quinta, mas deve levar anos para se materializar nas ruas de Daca.

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