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Professor brasileiro salva 15 alunos em tiroteio em escola no Canadá

O professor brasileiro Jarbas Noronha salva 15 alunos durante o tiroteio em massa na Escola Secundária de Tumbler Ridge, na Colúmbia Britânica, em 10 de fevereiro de 2026. Ele ergue uma barricada com bancadas de metal e organiza uma rota de fuga enquanto uma atiradora percorre os corredores da escola e mata seis pessoas.

Oficina cercada, tiros no corredor e uma decisão em segundos

A oficina de mecânica automotiva fica no fim de um corredor estreito, na parte mais afastada da Escola Secundária de Tumbler Ridge. Na tarde de terça-feira, às 14h20, horário local, o barulho das máquinas e da ventilação abafa os primeiros disparos. Jarbas Noronha, 58, paulista de Monteiro Lobato, está no meio de uma aula prática quando um aluno volta apressado do estacionamento e fala em tiros no pátio.

O alarme de lockdown dispara em seguida, a diretora confirma que há um atirador ativo no prédio e a rotina da pequena cidade de 2 mil habitantes, aos pés das Montanhas Rochosas, desmorona em minutos. Tumbler Ridge, acostumada a ser ponto de passagem de caminhoneiros e turistas, vira cenário de um dos maiores massacres já registrados no Canadá. Seis pessoas morrem dentro da escola, entre elas uma professora de 39 anos, três meninas de 12 e dois estudantes de 12 e 13 anos. Outras 25 ficam feridas, duas em estado crítico.

Dentro da oficina, Jarbas conta rapidamente os alunos. São 15 adolescentes, cercados por carros, ferramentas e bancadas de metal. A porta comum para o corredor parece frágil demais diante de um fuzil. O professor decide transformar o próprio ambiente de trabalho em barreira. “Juntos, adicionamos algumas bancadas de metal contra a porta, como se fossem barricadas, para ganhar tempo e preparamos um plano de fuga, caso alguém tentasse invadir a oficina”, relata ao Correio.

O grupo empurra mesas, prende suportes, cria uma barreira improvisada. As portas de garagem, que normalmente servem para entrada de carros, viram rota de emergência. Se a atiradora chegar até ali, a ordem é simples: correr para o pátio, atravessar o estacionamento e se reagrupar em um ponto combinado. Naquele momento, ninguém sabe quantos agressores estão soltos, nem em que parte do prédio os disparos se concentram.

Cidade em choque, luto nacional e um professor que recusa o rótulo de herói

O ataque acontece em uma escola pequena, com 175 estudantes, em uma província que costuma aparecer nas páginas policiais por acidentes em estradas geladas, não por massacres em salas de aula. O choque se espalha rapidamente. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, vai à televisão, visivelmente emocionado. “A nação está de luto”, afirma. Ele decreta luto oficial de sete dias e manda hastear as bandeiras do país a meio mastro.

A polícia identifica a atiradora como Jesse van Rootselaar, mulher trans de 18 anos, moradora da cidade. Antes de ir à escola, ela mata a mãe e o irmão em uma casa próxima, onde os corpos são encontrados mais tarde. Armada com um fuzil e uma pistola modificada, Jesse entra no prédio e avança por corredores e salas até se suicidar. A polícia revela que esteve diversas vezes na residência da jovem, ao longo dos últimos anos, por episódios ligados a problemas de saúde mental. Ela chegou a ser detida para avaliação, sob a Lei de Saúde Mental canadense.

A tragédia reacende um debate sensível no país, que tenta evitar a associação automática entre violência e identidade de gênero e, ao mesmo tempo, encara a pergunta sobre como uma jovem com histórico psiquiátrico acessa armas letais. Em Tumbler Ridge, a discussão parece distante nas primeiras horas. Pais correm até a escola, muitos ainda sem notícias dos filhos. Linhas telefônicas travam. O hospital local organiza às pressas uma triagem para feridos e para famílias em choque.

Shane Quist, pai de Darian, 17, estudante da escola, passa a tarde ao telefone com o filho, trancado em outra sala. “Minha esposa falou ao telefone com nosso filho o tempo todo, enquanto ele estava confinado com colegas. Ela descobriu que algo acontecia pois trabalha no hospital da cidade”, conta. “Darian não ouviu nem viu muita coisa, pois a sala de aula onde ele se trancou era do lado oposto da escola. Não creio que ele tenha processado de verdade o que ocorreu.”

Jarbas vive em Tumbler Ridge desde 2022 e leciona na escola há um ano e meio. Chega ao Canadá para dar aulas de mecânica automotiva e ciências aplicadas, não para enfrentar um atirador. Ao ser chamado de herói por colegas e pais de alunos, ele recua. “Sou um professor. Meus alunos são minha responsabilidade durante minha aula. Só isso”, diz. “Sinto por eles. Não merecem esse tipo de trauma em um lugar que deveria ser um porto seguro para eles.”

Sobreviventes de outros massacres acompanham a tragédia à distância. Nathalie Provost, deputada canadense e sobrevivente do ataque à Escola Politécnica de Montreal em 1989, quando 14 mulheres são assassinadas, presta solidariedade à comunidade de Tumbler Ridge. “Essa tragédia destrói brutalmente o senso de segurança que deveria envolver os locais de aprendizado e de crescimento, e marca a perda da inocência para muitos jovens”, afirma.

Pressão por mudanças em segurança, saúde mental e rotina das escolas

O ataque em Tumbler Ridge entra imediatamente na lista dos piores episódios de violência armada em escolas canadenses. O país registra menos tiroteios em massa do que os Estados Unidos, mas vê um aumento de casos na última década, em meio a maior circulação de armas e a alertas sobre falhas na rede de atenção em saúde mental. A morte de seis pessoas dentro de uma escola de ensino médio, em uma cidade de 2 mil habitantes, expõe a sensação de vulnerabilidade mesmo em comunidades pequenas e isoladas.

No curto prazo, o governo federal mobiliza equipes de apoio psicológico para atender estudantes, professores e famílias. A província da Colúmbia Britânica anuncia reforço imediato nos protocolos de segurança em escolas, com revisão das rotas de fuga, portas de acesso e procedimentos de lockdown. Diretores relatam que treinamentos para situações de atirador ativo, antes vistos como mera formalidade, passam a ser encarados como questão de sobrevivência.

A rotina de educadores também muda. Professores, como Jarbas, se veem pressionados a agir como primeiros respondedores em crises extremas, sem formação específica para isso. O episódio ajuda a alimentar um debate sobre a necessidade de treinar docentes e funcionários para cenários de violência, mas também levanta o risco de transferir ao professor um papel que deveria caber ao Estado e às forças de segurança.

Entre famílias, o impacto é imediato. Pais que escolhem Tumbler Ridge justamente pela imagem de cidade tranquila questionam agora a permanência na região. Outros preferem ficar, confiando na rede de apoio local. “Sei que a cidade se unirá e se ajudará mutuamente. Vimos isso antes, no verão passado, quando um prédio de apartamentos sofreu um incêndio”, diz Shane Quist. “Não tenho dúvidas de que superaremos isso como uma comunidade.”

Reconstrução emocional e incerteza sobre o que virá

O luto oficial de sete dias é apenas o início de um processo mais longo. Especialistas em trauma alertam que os efeitos psicológicos de um tiroteio em ambiente escolar se estendem por anos, com aumento de casos de ansiedade, depressão e evasão escolar. Em Tumbler Ridge, diretores discutem se retomam as aulas rapidamente, em nome da rotina, ou se alongam a pausa para permitir que estudantes e professores respirem.

No plano nacional, o governo Carney enfrenta pressão para detalhar mudanças concretas em leis de armas, mecanismos de monitoramento de pessoas em crise e recursos para saúde mental. Parlamentares prometem audiências públicas e projetos de lei, enquanto grupos de direitos civis pedem cuidado para que o caso não alimente violência e preconceito contra pessoas trans.

Na oficina de mecânica que se transforma em abrigo improvisado, Jarbas Noronha tenta retomar o cotidiano. Ferramentas voltam às bancadas, carros voltam aos elevadores hidráulicos. A lembrança da tarde de 10 de fevereiro, porém, permanece colada às paredes, aos olhos dos estudantes, ao som silencioso da porta onde, por alguns minutos, uma barricada de metal separa 15 adolescentes de um dos piores massacres da história recente do Canadá. A cidade ainda não sabe como será a próxima volta às aulas, mas sabe que, desta vez, ninguém entra naquele prédio sem olhar duas vezes para as saídas de emergência.

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