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Papa Leão XIV reza por doentes e profissionais de saúde no Vaticano

O papa Leão XIV acende uma vela diante da imagem de Nossa Senhora de Lourdes e reza pelos enfermos e profissionais de saúde nesta quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026, nos Jardins do Vaticano. A cerimônia marca o Dia Mundial do Doente e reforça a mensagem de solidariedade da Igreja a quem sofre.

Um gesto simbólico em um dia de dor e esperança

A manhã é clara na Gruta de Lourdes, espaço de silêncio e recolhimento escondido entre os jardins do Vaticano, quando o pontífice chega para o encontro. Um grupo de enfermos, alguns em cadeiras de rodas, outros apoiados em familiares e cuidadores, aguarda o momento em que o Papa se aproxima da imagem mariana. Sem discurso longo, ele escolhe um gesto simples e antigo: acende uma vela e permanece em oração diante de Nossa Senhora de Lourdes.

O Dia Mundial do Doente, celebrado todos os anos em 11 de fevereiro desde 1992, ganha ali um contorno concreto. O Papa explica o sentido do encontro ao saudar os presentes: “É um dia muito bonito que nos faz recordar a proximidade de Maria, nossa mãe, que sempre nos acompanha e nos ensina tanto: o significado do sofrimento, o amor, o entregar a vida nas mãos do Senhor”. A frase, dita em voz firme e pausada, ecoa entre os que acompanham a cerimônia a poucos metros de distância.

O gesto foi anunciado ainda na Audiência Geral, minutos antes, na Sala Paulo VI, onde o pontífice já havia pedido atenção especial aos doentes. Naquele momento, ele antecipou a intenção de rezar “por todos os doentes, dos quais hoje, Dia Mundial do Doente, nos lembramos com particular carinho”. Ao deixar o salão, segue para a gruta, onde o cenário é mais íntimo, com distância pequena entre o líder da Igreja e os enfermos.

Diante da imagem, Leão XIV retoma a palavra e fala diretamente aos que sofrem: “Hoje, neste Dia Mundial do Doente, queremos rezar em comunhão com todos aqueles que sofrem no mundo. Rezamos por vocês. Agradeço sinceramente o esforço de vir e nos acompanhar neste momento de oração, aqui diante de nossa mãe, Maria, em sua memória litúrgica, Nossa Senhora de Lourdes”. Não há improviso teatral, mas um tom pastoral que busca consolo para quem enfrenta dores prolongadas, tratamentos caros ou a solidão de longas internações.

Reconhecimento aos que cuidam e impacto para além do Vaticano

O momento mais denso da breve cerimônia acontece quando o Papa pede uma bênção específica para quem vive a doença e para quem a enfrenta todos os dias nos hospitais, clínicas e postos de saúde. “Pedimos também a bênção do Senhor para vocês, para todos os doentes neste dia e sempre, e para todos aqueles que acompanham as ciências médicas, os doutores, os enfermeiros e as muitas pessoas que estão perto de nós, especialmente nos momentos mais difíceis”, afirma, antes de conduzir a oração da Ave Maria em conjunto com os presentes.

A menção aos profissionais de saúde não é genérica. Quase seis anos depois do início da pandemia de Covid-19, o sistema de saúde em vários países ainda lida com filas, sequelas e déficit de pessoal. Organismos internacionais apontam carência de milhões de profissionais, entre médicos, enfermeiros e técnicos, sobretudo em países de baixa renda. Ao incluir “os que acompanham as ciências médicas” em sua oração, Leão XIV reconhece esse esforço e o desgaste acumulado por plantões prolongados, pressão emocional e estruturas frequentemente precárias.

A data de 11 de fevereiro, que coincide com a memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, foi escolhida justamente pela ligação com a doença e a busca de cura. A pequena cidade francesa, conhecida desde o século XIX pelos relatos de aparições marianas e peregrinações de enfermos, se torna referência simbólica para quem enfrenta fragilidades do corpo e da mente. Ao levar essa devoção para os Jardins do Vaticano, o Papa usa a imagem de Lourdes como ponte entre quem pode viajar até o santuário e quem permanece limitado por internações, distância ou pobreza.

O gesto de acender uma vela e rezar a Ave Maria pode parecer mínimo diante de sistemas de saúde sobrecarregados, gastos bilionários e disputas de orçamento. Dentro da lógica da Igreja, porém, essa simplicidade tem peso pastoral e político. O pontífice não anuncia novos documentos nem reformas estruturais, mas envia uma mensagem clara aos bispos, paróquias e comunidades: o Dia Mundial do Doente não é apenas uma data de calendário, é um convite à presença concreta junto aos que sofrem.

Em muitos países, dioceses e paróquias organizam neste dia missas de unção dos enfermos, visitas a hospitais e campanhas de doação de sangue ou de apoio psicológico. O gesto do Papa em Roma tende a reforçar iniciativas locais e a inspirar novas ações em nível ecumênico. Líderes de outras religiões, que também lidam diariamente com o sofrimento humano, encontram no gesto uma referência para atos similares de proximidade com pacientes e equipes médicas, independentemente de credo.

Solidariedade em rede e desafios à frente

A oração na Gruta de Lourdes não encerra o tema. Ao dedicar um espaço específico da agenda a enfermos e profissionais de saúde, Leão XIV sinaliza que a Igreja pretende manter o assunto em evidência. Organizações católicas que administram hospitais, ambulatórios e serviços de acolhimento a doentes crônicos tendem a usar a data como ponto de partida para campanhas anuais, com metas concretas de atendimento, ampliação de leitos ou formação de novos cuidadores.

Comunidades de base e pastorais ligadas à saúde ganham, com esse gesto, um reforço simbólico importante. Em regiões onde o Estado não chega, paróquias e instituições religiosas assumem parte do atendimento básico, da distribuição de remédios à escuta para famílias em luto. Uma palavra pública do Papa, em dia e local precisos, amplia a legitimidade dessas ações e pode atrair recursos, voluntários e parcerias com entidades não confessionais.

O desafio, a partir de agora, está em transformar o símbolo em prática contínua. O Dia Mundial do Doente já tem 34 anos de história em 2026, mas ainda enfrenta o risco de se diluir em frases protocolares e homenagens formais. A cena do Papa acendendo uma vela diante de Nossa Senhora de Lourdes, cercado por enfermos reais, pressiona a própria Igreja a manter a coerência entre discurso e ação nos próximos meses.

Enquanto o grupo deixa a Gruta de Lourdes, alguns fiéis permanecem em silêncio, outros seguem a oração em voz baixa, segurando terços ou fotos de parentes internados. A vela acesa pelo pontífice continua queimando diante da imagem mariana, consumindo-se lentamente. A pergunta que se impõe, para dentro e fora da Igreja, é se a chama da solidariedade com doentes e cuidadores conseguirá permanecer acesa quando as câmeras forem desligadas e o calendário avançar para o próximo compromisso.

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