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Coreia do Norte expõe filha de Kim Jong-un e testa sucessão dinástica

A inteligência sul-coreana vê na escalada de aparições públicas de Kim Ju Ae, filha de Kim Jong-un, um movimento calculado de preparação para a sucessão na Coreia do Norte. O monitoramento ganha força nesta quinta-feira (12), à medida que Pyongyang combina o culto à herdeira com o avanço de projetos militares estratégicos.

Sucessão entra em cena em meio a submarino nuclear e mísseis

A Agência Nacional de Inteligência da Coreia do Sul (NIS, na sigla em inglês) acompanha com atenção cada imagem que sai da televisão estatal norte-coreana. De pouco mais de um ano para cá, Kim Ju Ae, que analistas estimam estar no início da adolescência, deixa o anonimato e passa a ocupar lugar fixo ao lado do pai em desfiles, lançamentos de mísseis e visitas a bases militares.

Parlamentares sul-coreanos informados pela NIS afirmam que Pyongyang prepara uma nova etapa dessa coreografia política. O serviço secreto quer saber se Ju Ae aparecerá na próxima reunião do Partido dos Trabalhadores, órgão que concentra o poder na Coreia do Norte, e como será apresentada. A dúvida central é se o regime lhe dará, pela primeira vez, um título formal, o que seria um passo decisivo rumo à confirmação de sua condição de herdeira.

Os sinais surgem em paralelo a avanços do programa militar norte-coreano. Deputados em Seul relatam que Kim Jong-un supervisiona o desenvolvimento de um submarino de cerca de 8.700 toneladas, considerado de grande porte, com capacidade estimada para carregar até dez mísseis balísticos lançados por submarino. Fontes da inteligência dizem que o projeto pode usar um reator nuclear, o que ampliaria o alcance e a capacidade de dissuasão do país.

Na leitura de analistas ouvidos por parlamentares, a escolha do palco não é casual. A imagem de uma sucessora jovem, em casacos elegantes e sempre a poucos passos do pai, é associada a lançadores de mísseis, bases navais e laboratórios de armamento. Essa combinação, avaliam, projeta continuidade do programa nuclear e da política de confronto, mesmo em um cenário de transição de poder.

Continuísmo dinástico e ruptura simbólica de gênero

A família Kim governa a Coreia do Norte desde 1948. Kim Il-sung, fundador do regime, foi sucedido pelo filho Kim Jong-il, que por sua vez preparou Kim Jong-un durante anos, com cargos no partido e aparições públicas graduais. A eventual ascensão de Kim Ju Ae abriria um capítulo inédito nessa linhagem: pela primeira vez, uma mulher assumiria o comando máximo de um dos regimes mais fechados do mundo.

Para a NIS, a exposição calculada da adolescente é um teste interno e externo. Em reunião a portas fechadas com parlamentares, relatada por veículos sul-coreanos, integrantes da agência afirmam que vão “acompanhar detalhadamente” a presença de Ju Ae no conclave do Partido dos Trabalhadores. A atenção se concentra na forma de apresentação: se será tratada apenas como “amada filha” ou se receberá menções mais institucionalizadas, como “sucessora” ou “respeitada camarada”.

Especialistas em Coreia do Norte lembram que a mídia estatal do país raramente age sem coordenação direta do núcleo de poder. Cada enquadramento, aplauso ou assento reservado em cerimônias indica posição na hierarquia. Nas últimas aparições, Ju Ae surge próxima a generais de alto escalão, cumprimenta cientistas e observa testes de lançadores de mísseis ao lado do pai, em cenas que reforçam a mensagem de que ela participa do círculo de decisões estratégicas.

A mudança tem peso simbólico num regime rigidamente patriarcal. A elite militar e o aparelho do partido seguem dominados por homens, quase sempre de idade avançada. Analistas ressaltam, porém, que a eventual promoção de uma líder mulher não representa abertura política ou social, mas um cálculo de sobrevivência da dinastia. “A prioridade do regime é preservar a família Kim, não reformar a estrutura de poder”, resume um pesquisador citado por parlamentares sul-coreanos.

A combinação entre sucessão e reforço militar também mira o exterior. Em meio a sanções internacionais, Pyongyang tenta mostrar que não negocia seu arsenal nem seu projeto de poder. A imagem de continuidade personificada na filha sinaliza a aliados e adversários que qualquer acordo futuro terá de considerar uma liderança estável por mais uma geração.

Pressão regional, programa nuclear e próximos passos

O avanço do submarino com capacidade para mísseis balísticos preocupa Seul, Washington e Tóquio. Um veículo movido a reator nuclear, se confirmado, permitiria que a Coreia do Norte mantivesse armas ativas em mar aberto por mais tempo, afastadas de eventuais ataques preventivos. Em uma região onde estão concentradas algumas das maiores economias do mundo, a perspectiva de mísseis norte-coreanos lançados do mar aumenta o grau de incerteza estratégica.

Militarmente, a aposta em submarinos e mísseis coincide com a construção da imagem de Ju Ae como futura comandante das Forças Armadas e do partido. A mensagem, segundo diplomatas em Seul, é que não haverá recuo do programa nuclear, mesmo em caso de transição geracional. Países vizinhos calculam suas respostas, reforçando sistemas antimísseis, ampliando exercícios conjuntos e mantendo aberta a via diplomática, ainda que sem diálogo direto no momento.

Para o regime norte-coreano, a preparação prolongada de uma sucessora pretende evitar o vazio de poder que preocupou a região em 2011, quando a morte repentina de Kim Jong-il acelerou a ascensão de Kim Jong-un. Ao antecipar a construção da imagem da filha, o atual líder tenta reduzir disputas internas e garantir que generais e quadros do partido se acostumem com a ideia de uma mulher no topo da hierarquia.

A próxima reunião do Partido dos Trabalhadores, ainda sem data pública, será o principal termômetro desse processo. Diplomatas e serviços de inteligência devem escrutinar a ordem dos assentos, a linguagem dos comunicados oficiais e a presença de Ju Ae em fotos com uniformes militares ou insígnias do partido. Qualquer referência formal à sua posição pode redefinir o cálculo de risco de governos da região e de potências como Estados Unidos e China.

Enquanto a Coreia do Norte testa mísseis e ajusta a cena para sua possível quarta geração no poder, cresce a pergunta que orienta chancelerias e analistas: até que ponto a aposta em uma herdeira adolescente, apoiada em submarinos nucleares e em um arsenal em expansão, garante estabilidade ao regime ou apenas prolonga a incerteza na península coreana?

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