Crise em Cuba se agrava em 2026 sob nova ofensiva dos EUA
Desde o início de 2026, Cuba vive uma piora acelerada da crise econômica e social, aprofundada por novas sanções e restrições impostas pelos Estados Unidos de Donald Trump. A escassez de itens básicos e o aumento do custo de vida mudam o cotidiano da população na ilha e afetam até quem tenta ajudar de fora.
Famílias divididas entre malas e filas
O comerciante brasileiro de origem cubana que desembarca em Havana no começo de 2026 carrega duas malas e uma rotina repetida a cada viagem. Em uma, roupas para poucos dias. Na outra, comprimidos, analgésicos, sabonetes, creme dental, absorventes, fraldas descartáveis. Quase nada é para ele.
Os produtos seguem direto para irmãos, sobrinhos e amigos que continuam na ilha. Ele descreve uma cena que se repete em vários bairros da capital: filas formadas ainda de madrugada em frente a farmácias sem estoque, mercados com prateleiras vazias e longas discussões por causa de pequenos frascos de remédio. “A cada vinda eu acho que não pode piorar, mas piora. Desta vez, em menos de um ano, está tudo mais caro e mais raro”, conta.
A percepção bate com o que se observa nas ruas. Desde janeiro, o preço de passagens de ônibus e táxis coletivos dispara, depois de uma nova crise energética que reduz a circulação de veículos. Em alguns trajetos urbanos, moradores relatam que a tarifa sobe mais de 50% em poucos meses, num país em que o salário médio oficial mal cobre necessidades básicas.
O comerciante relata que, em 2025, gastava o equivalente a 10 dólares por semana com deslocamentos dentro de Havana. Em 2026, com a mesma rotina, calcula desembolsar pelo menos 15 dólares. “Não é só o valor, é o tempo. O ônibus demora, quebra, falta combustível. As pessoas chegam atrasadas ao trabalho, perdem consulta médica”, diz.
Sanções apertam, energia falta e cotidiano desaba
O governo norte-americano de Donald Trump retoma, a partir do fim de 2025, uma linha mais dura contra Havana, amplificando restrições que ganham corpo nos primeiros meses de 2026. Medidas que encarecem o acesso a combustíveis, travam operações financeiras e dificultam a chegada de insumos básicos atingem diretamente a economia frágil da ilha.
O impacto aparece primeiro nas bombas dos postos e nas estações de ônibus. Com menos combustível disponível, linhas são cortadas, horários reduzidos, veículos sucateados retirados de circulação. A conta recai sobre trabalhadores que passam mais tempo em deslocamento, gastam mais com transporte e veem minguar o já apertado orçamento familiar.
A crise energética se espalha pela rede de serviços. Hospitais relatam dificuldade para manter equipamentos funcionando de forma contínua, e quedas de energia afetam armazenamento de medicamentos que exigem refrigeração. Moradores de bairros periféricos falam em apagões quase diários, alguns com mais de quatro horas, que interrompem comércio, aulas e atendimento em postos de saúde.
A pressão externa se soma ao desgaste interno de um modelo econômico em crise prolongada. A produção doméstica de alimentos não acompanha a demanda, e as importações ficam mais caras em meio às restrições. Arroz, óleo de cozinha e carne entram na lista de produtos racionados ou vendidos em quantidades limitadas. Em algumas regiões, famílias dizem depender de remessas mensais de parentes no exterior para complementar a alimentação.
O comerciante brasileiro descreve um padrão que se acentua em 2026. “A mala de 23 quilos que as companhias permitem virou linha de vida. Eu já parei de trazer lembrança. Trago o que não se encontra lá: remédio para pressão, antibiótico, pomada para criança”, afirma. O gesto individual reflete uma rede informal que tenta contornar a falta de acesso a produtos básicos.
Pressão social cresce e tensão regional se acentua
A deterioração econômica amplia a vulnerabilidade social da população cubana. Famílias que antes conseguiam se manter apenas com salários estatais agora recorrem a trabalhos informais, troca de produtos entre vizinhos e apoio constante de parentes que moram fora. O número de casas que dependem de remessas em moeda estrangeira aumenta de forma consistente ao longo de 2026, segundo economistas ouvidos por organizações internacionais.
O encarecimento do transporte atinge em cheio estudantes, trabalhadores de baixa renda e idosos. Muitos relatam que passam a caminhar trechos de até 5 quilômetros por dia para economizar. Escolas registram mais faltas, especialmente em bairros afastados, e profissionais de saúde enfrentam dificuldades para se deslocar entre unidades.
No pano de fundo, o endurecimento da política norte-americana repercute além da ilha. Países da América Latina que mantêm relação próxima com Cuba enxergam a escalada de sanções como um fator de instabilidade regional. A tensão afeta conversas comerciais, iniciativas de cooperação em saúde e educação e o próprio fluxo migratório.
Analistas da região apontam que, com o agravamento da crise, aumentam as tentativas de saída de cubanos rumo a países vizinhos, inclusive na América Central. Governos locais se preparam para possíveis fluxos maiores de migrantes e pressionam por soluções diplomáticas que aliviem o cerco econômico. Até o momento, porém, nenhuma mudança concreta de rota surge em Washington.
Dentro da ilha, a combinação de escassez, inflação e serviços em colapso cria um caldo de insatisfação que preocupa autoridades e vizinhos. Especialistas ouvidos por entidades internacionais avaliam que, mantido o atual ritmo de deterioração, a pressão por mudanças políticas e econômicas tende a crescer, com risco de novos protestos e maior repressão.
Futuro incerto entre sanções e resistência
Os próximos meses colocam Cuba diante de um impasse. Sem sinais de alívio nas sanções e com capacidade limitada de resposta interna, o país enfrenta o desafio de evitar que a crise de 2026 se transforme em colapso mais profundo. A estratégia de sobrevivência passa por acordos pontuais com aliados tradicionais, busca de novos parceiros comerciais e apelo à diáspora, que ajuda com remessas, medicamentos e mantimentos.
O comerciante brasileiro que cruza o Caribe com malas carregadas resume essa sensação de urgência. “Eu volto para o Brasil com a cabeça cheia. Não sei como vai estar na próxima viagem”, diz. A pergunta que ecoa em Havana, e fora dela, é por quanto tempo a ilha consegue suportar o peso combinado de sanções externas, crise energética e desgaste interno sem uma mudança de rumo mais ampla.
