Rompimento de dique no Mondego corta A1 e força retirada em massa em Coimbra
Um dique do rio Mondego rompe ao lado da autoestrada A1, perto de Coimbra, no centro de Portugal, no início de fevereiro de 2026. A cratera abre num trecho já interditado e desencadeia uma operação de emergência que remove cerca de 3 mil moradores de áreas sob risco de inundação.
Cidade medieval cercada pela água e pela desconfiança
A ruptura ocorre após quase duas semanas de tempestades sucessivas, que castigam sobretudo o centro e o sul do país desde o fim de janeiro. O ponto de falha fica junto a um dos pilares que sustentam a principal ligação rodoviária entre Lisboa e Porto, numa zona já fragilizada pela cheia do Mondego. A prefeita de Coimbra, Ana Abrunhosa, confirma que a A1 estava fechada pela polícia quando o pavimento cede.
O cenário em Coimbra, uma das cidades universitárias mais antigas da Europa e Patrimônio Mundial da Unesco, é de ruas cortadas, encostas instáveis e bairros ilhados. “Coimbra e as cidades vizinhas enfrentam sérios problemas devido às inundações, algumas estão isoladas… A situação é extremamente instável”, afirma Abrunhosa à emissora pública RTP. A antiga muralha medieval, que domina parte da paisagem urbana, desaba em um trecho de encosta e bloqueia a estrada logo abaixo, obrigando ao fechamento do mercado municipal.
O primeiro-ministro Luís Montenegro acompanha a resposta de emergência em campo, pressionado por críticas crescentes. Quinze pessoas morrem desde o início da sequência de tempestades, incluindo vítimas indiretas de quedas, choques elétricos e deslizamentos. “Estamos no limite da nossa capacidade de conter as águas”, admite Montenegro a jornalistas, enquanto equipas da Proteção Civil tentam reforçar margens, monitorar barragens e manter acessos básicos.
Rios cheios, diques sob pressão e governo em crise
As cidades ao longo do Mondego vivem em compasso de espera. A chuva diminui por alguns dias, mas um “rio atmosférico” atinge o país nesta semana e muda o quadro em horas. O termo designa um corredor de vapor d’água vindo dos trópicos, que concentra grande volume de umidade numa faixa estreita. Na prática, significa mais chuva forte sobre solos já saturados.
Em Coimbra, o novo episódio de aguaceiros empurra o rio para níveis críticos e coloca diques e infraestruturas sob estresse. O responsável da Proteção Civil Regional, Carlos Tavares, alerta para o risco em cadeia. Segundo ele, a chuva extra pode levar ao transbordamento da barragem da Aguieira, 35 quilômetros a nordeste da cidade, “levantando os diques e causando novas inundações” ao longo do vale.
A APA, Agência Portuguesa do Ambiente, prevê um “período excecional de caudais máximos” no Mondego até sábado, dia 14. Técnicos acompanham em tempo real o comportamento das comportas e dos aterros que protegem áreas urbanas e agrícolas. Municípios rio abaixo reforçam planos de contingência, conscientes de que qualquer falha adicional pode repetir o que acaba de acontecer junto à A1.
A crise meteorológica se mistura a uma crise política. A ministra do Interior, Maria Lúcia Amaral, renuncia após ataques de partidos de oposição e de lideranças locais, que falam em resposta “lenta” e “falhada” à tempestade Kristin, que atinge o país duas semanas antes. A saída abre uma frente de desgaste para o governo Montenegro em pleno pico da emergência climática.
Evacuações em massa, mobilidade em colapso e pressão por obras
A ordem de retirada preventiva chega na noite de terça-feira, dia 10. A Câmara de Coimbra decide remover cerca de 3 mil moradores de zonas de maior risco de inundação, de diques frágeis e encostas encharcadas. A operação segue na quarta-feira, com polícia e proteção civil batendo de porta em porta para convencer quem hesita em sair. Idosos e famílias com crianças são levados em ônibus para abrigos montados em pavilhões esportivos e escolas.
As imagens de famílias com sacolas improvisadas e documentos nas mãos contrastam com o silêncio da A1, acostumada a um fluxo intenso de carros e caminhões entre Lisboa e Porto. O rompimento do dique ao lado do pilar compromete a estabilidade do tabuleiro e deixa uma abertura visível na pista. Técnicos avaliam que a reparação não será rápida. Cada dia de interrupção afeta o transporte de mercadorias, a logística das grandes cadeias de varejo e o deslocamento diário de trabalhadores entre o norte e o sul do país.
No outro lado do rio Tejo, em frente a Lisboa, os sinais de instabilidade do solo levam a novas decisões difíceis. As autoridades esvaziam por completo a pequena vila de Porto Brandão, na margem sul, devido ao risco de deslizamentos. Na vizinha Costa da Caparica, cerca de 30 pessoas deixam as suas casas após um movimento de terras na falésia costeira. As falhas no terreno expõem a vulnerabilidade de uma faixa litorânea que há anos lida com erosão e avanço do mar.
O conjunto de danos toca diferentes setores ao mesmo tempo. Agricultores em regiões inundadas perdem safras inteiras, numa temporada já marcada por prejuízos de milhões de euros na vizinha Espanha após a mesma sequência de tempestades. Pequenos negócios em áreas alagadas fecham as portas sem previsão de reabertura. Nas periferias, famílias de baixa renda encaram a perspectiva de semanas em abrigos, sem saber quando poderão regressar a casas que talvez precisem ser reconstruídas.
Reconstrução, clima extremo e a próxima cheia
O governo português promete acelerar verbas de emergência e linhas de apoio à reconstrução, mas enfrenta a desconfiança de quem se sente abandonado nas cheias anteriores. A discussão sobre adaptação às mudanças climáticas ganha novo peso, com engenheiros e ambientalistas a lembrar que diques e barragens projetados no século passado não dão garantias num cenário de tempestades mais frequentes e intensas.
Em Coimbra, a prioridade imediata é estabilizar encostas, monitorar a muralha histórica que ainda resiste e garantir alojamento digno a quem não pode voltar para casa. A médio prazo, a conta passa por reforço de infraestruturas, revisão de planos de drenagem urbana e obras caras de proteção fluvial. A interrupção da A1, se prolongada, tende a acelerar projetos alternativos de mobilidade e a discussão sobre redundância na principal rota entre Lisboa e Porto.
As próximas horas dependem do comportamento do Mondego e da barragem da Aguieira. Técnicos esperam que o pico de caudal se concentre até sábado, sem novas falhas estruturais. Se o dique rompido junto à A1 se torna símbolo da vulnerabilidade do país diante da água, a forma como Portugal remodelar as suas defesas nos próximos meses dirá se a próxima grande cheia será apenas mais uma catástrofe anunciada ou um teste a um sistema mais preparado.
