Geração Z perde espaço político às vésperas da eleição em Bangladesh
Os jovens que derrubam o governo de Sheikh Hasina em julho de 2024 chegam à eleição de 12 de fevereiro de 2026 fragmentados e em queda de influência. Divisões internas, alianças controversas e repressão estatal afastam a geração Z do centro da disputa pelo poder em Bangladesh.
Da revolta nas ruas ao recuo nas urnas
Há menos de dois anos, estudantes secundaristas e universitários lotam as ruas de Daca e de dezenas de cidades para desafiar o governo mais longevo da história do país. O estopim é a restauração de um sistema de cotas no serviço público, mas a repressão transforma a pauta em um levante nacional contra a primeira-ministra Sheikh Hasina.
Entre julho e agosto de 2024, a polícia usa munição real, prende em massa e tenta calar o movimento sob a Lei de Segurança Digital. A Organização das Nações Unidas calcula cerca de 1.400 mortos, a ampla maioria pelas mãos das forças de segurança. Em 5 de agosto, ao menos 52 pessoas morrem em um único bairro de Daca, no que se torna um dos episódios mais sangrentos da história recente de Bangladesh.
Naquele mesmo dia, Hasina foge de helicóptero para a Índia, onde ainda vive em exílio. Um tribunal de crimes de guerra em Bangladesh a condena à morte à revelia pela repressão de 2024, mas Nova Déli se recusa a extraditá-la. Parte da cúpula da Liga Awami, partido que governa o país por mais de uma década, segue o mesmo caminho; outros dirigentes acabam presos.
O vazio de poder abre espaço para um governo interino liderado por Muhammad Yunus, Nobel da Paz e figura central do microcrédito. Jovens que emergem das barricadas passam a ocupar cadeiras estratégicas na administração provisória. Em poucos meses, nasce o Partido Nacional dos Cidadãos (PNC), sigla que tenta canalizar o capital político da geração Z e transformar o levante em projeto institucional.
A cena política, porém, muda rápido. O novo governo bane a Liga Awami da vida partidária e cancela seu registro na Comissão Eleitoral. O gesto remove um ator central, mas também empurra o sistema para uma nova polarização entre outras forças tradicionais, enquanto o PNC ainda procura se organizar.
Alianças incômodas e avanço islamista
O primeiro choque para o movimento jovem vem em setembro de 2025, nas eleições estudantis das principais universidades do país. O braço estudantil do Jamaat-e-Islami, partido islamista até então afastado da política formal, conquista diretórios com folga, inclusive na prestigiosa Universidade de Daca. É a primeira vez, desde a independência em 1971, que um grupo islamista assume o centro do poder estudantil ali.
O resultado expõe o desgaste interno no PNC e a perda de conexão com parte da base que sustenta os protestos de 2024. Em vez de consolidar uma plataforma autônoma, o partido de jovens é empurrado para uma negociação defensiva. Em dezembro, a legenda anuncia uma aliança multipartidária com o próprio Jamaat.
O acordo limita a presença dos filhos da revolução nas urnas. O Jamaat autoriza o PNC a lançar apenas 30 candidatos ao Parlamento, em um universo de 300 cadeiras. Desses, só duas são mulheres. O Jamaat, por sua vez, registra mais de 200 candidatos, todos homens. Na prática, a sigla islamista assume o protagonismo do bloco, enquanto o PNC vira sócio minoritário da coligação.
O líder do Jamaat-e-Islami, Shafiqur Rahman, promete, em entrevista à BBC News, combater a corrupção e restaurar a independência do Judiciário. As propostas conversam com o cansaço de um eleitorado que convive há anos com escândalos em níveis altos de governo. O PNC repete o discurso anticorrupção e apresenta um manifesto com foco em emprego e direitos para jovens, mas precisa lidar com a contradição de se associar a um partido conservador, visto com desconfiança por parte da juventude urbana secular.
Ao mesmo tempo, o Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB) reorganiza suas bases. Após anos de boicote às eleições nacionais de 2014 e 2024, a sigla volta a disputar o poder como maior partido legalizado, depois do banimento da Liga Awami. Com cerca de 127 milhões de eleitores aptos às urnas em 12 de fevereiro, o PNB tenta se vender como força liberal democrática sob a liderança de Tarique Rahman, que retorna ao país após 17 anos de exílio em Londres.
O peso das dinastias políticas permanece. Assim como Hasina é filha de Sheikh Mujibur Rahman, fundador de Bangladesh, Tarique é filho de Khaleda Zia, primeira mulher a chefiar o governo no país. Entre duas famílias tradicionais, o espaço para uma alternativa genuinamente jovem encolhe, mesmo com mais de 40% do eleitorado na faixa de 18 a 37 anos.
Disputa digital, medo nas ruas e futuro incerto
A erosão do protagonismo da geração Z acontece em um ambiente cada vez mais tenso. O histórico de repressão, prisões em massa e desaparecimentos forçados alimenta o medo de uma nova escalada de violência. Relatos de confrontos, assédio a militantes e intimidação de eleitores se multiplicam em diferentes regiões nas semanas que antecedem a votação.
Organizações de direitos humanos cobram garantias de segurança e responsabilização pelos abusos do passado. Centenas de armas de fogo saqueadas durante o levante de 2024 continuam desaparecidas, o que aumenta o risco de confrontos armados no dia da eleição. Muito da estabilidade imediata depende da capacidade da Comissão Eleitoral de aplicar medidas de proteção e conter milícias partidárias.
Ao mesmo tempo, a batalha principal se desloca para as telas. Plataformas como TikTok, Facebook e YouTube se transformam em trincheiras políticas. Vídeos curtos, clipes emocionais e transmissões ao vivo disputam a atenção de um público conectado. Uma enxurrada de conteúdos gerados por inteligência artificial testa os limites da checagem de fatos, com rumores, falas fabricadas e imagens falsas circulando em velocidade alta.
Para o PNC, que nasce de um movimento extremamente digitalizado, esse deveria ser um campo natural de vantagem. A fragmentação interna, porém, dilui a mensagem. Sem uma narrativa unificada, a legenda juvenil perde espaço para estruturas mais antigas, com máquinas partidárias mais robustas e recursos para impulsionamento em massa.
No centro da disputa está não só o controle de 300 cadeiras no Parlamento, eleito pelo sistema majoritário simples, mas também o desenho institucional do país. No mesmo dia, os eleitores votam em um referendo constitucional sobre a chamada Declaração Nacional de Julho. O texto propõe 84 mudanças, incluindo a criação de um Parlamento bicameral e novos freios ao poder do Executivo.
Uma vitória do “Sim” obriga o próximo governo a implementar as reformas, em um processo que pode redefinir o equilíbrio político em uma Bangladesh marcada por décadas de predominância de poucos partidos e famílias. A ausência de uma frente jovem organizada no comando desse debate reduz a chance de que as demandas da geração Z apareçam de forma consistente no desenho final.
A eleição também carrega implicações regionais. As relações com a Índia ficam mais sensíveis desde que Hasina passa a viver em refúgio no país vizinho, enquanto os laços com o Paquistão mostram sinais de reaproximação parcial. Estados Unidos e China acompanham a disputa atentos à posição de Bangladesh como segunda maior economia do sul da Ásia e peça da nova rota da seda chinesa.
Para a juventude que derruba um governo em 2024 e hoje assiste de longe à construção do novo poder, o risco é ver a própria revolução ser administrada pelos mesmos mecanismos que prometiam derrubar. O resultado das urnas e do referendo dirá se o país abre espaço para uma renovação real ou se os filhos da revolta de julho seguirão como coadjuvantes de uma transição conduzida por partidos tradicionais e novos aliados conservadores.
