Ucraniano é desclassificado na Olimpíada por capacete em homenagem a mortos na guerra
O ucraniano Vladislav Heraskevych é desclassificado em 12 de fevereiro de 2026, nos Jogos Olímpicos de Inverno, por competir com um capacete em homenagem a atletas mortos na guerra. A decisão vem após o atleta se recusar a atender a ordem do Comitê Olímpico Internacional (COI) para retirar ou alterar o equipamento.
Conflito da guerra invade a pista de gelo
O caso estoura em plena fase classificatória do skeleton, prova em que Heraskevych representa a Ucrânia pela terceira vez em Jogos Olímpicos. O capacete azul e amarelo exibe rostos e nomes de esportistas ucranianos mortos desde 2022 no conflito com a Rússia, além da inscrição “Em memória” em inglês. A peça está presente desde os treinos oficiais, mas só vira alvo formal do COI quando o atleta se posiciona na largada com as câmeras da transmissão internacional já abertas.
Delegados do COI acionam a federação internacional da modalidade e o comitê ucraniano minutos antes da bateria decisiva. A orientação é direta: o capacete viola as regras que proíbem manifestações políticas, religiosas ou comerciais em competições. Heraskevych é avisado no corredor de acesso à pista que precisa trocar o equipamento ou cobrir as imagens. Ele ouve, agradece e segue para a largada sem mudar nada.
A cena ganha ainda mais peso porque o atleta de 27 anos é um dos rostos mais conhecidos do esporte ucraniano desde Pequim-2022, quando já utiliza um capacete com o slogan “No war in Ukraine”. Na ocasião, o COI evita punição mais dura e trata o gesto como exceção, em um momento em que a invasão russa à Ucrânia ainda começa. Quatro anos depois, com mais de 100 atletas ucranianos mortos em combate ou em bombardeios, segundo dados do governo de Kiev, a tensão volta ao gelo com força ampliada.
Regras do COI, reação política e impacto no esporte
A desclassificação se ancora no artigo que atualiza a Regra 50 da Carta Olímpica, pilar usado pelo COI para afastar manifestações consideradas políticas das arenas. O texto permite alguns gestos de protesto antes das provas, mas veta símbolos, slogans ou imagens que associem diretamente o esporte a conflitos atuais. Ao interpretar o capacete de Heraskevych como um ato de denúncia da guerra, a entidade conclui que há violação clara.
Fontes ligadas à delegação ucraniana afirmam, sob reserva, que houve tentativa de negociação até o último minuto. Dirigentes sugerem manter os nomes dos colegas mortos, mas retirar as datas e a frase em destaque. O esqueletonista teria recusado, dizendo que o capacete é “parte do luto” e que não aceita “transformar memória em peça neutra”. O COI confirma apenas que houve conversa e fala em decisão “baseada nas regras aprovadas por todos os comitês”.
A resposta política em Kiev é imediata. O presidente Volodymyr Zelensky critica o COI em pronunciamento divulgado em redes sociais e em canais oficiais. “Quando a morte de atletas se torna desconfortável para a plateia global, o problema não é o capacete, é a guerra”, diz. Assessores próximos acusam a entidade de “neutralidade seletiva” e lembram que a Ucrânia pressiona, desde 2023, por restrições mais duras à participação de atletas russos e bielorrussos em grandes eventos.
O caso reacende uma disputa antiga sobre o papel do esporte em conflitos geopolíticos. Em Tóquio-1964, México-1968 ou Moscou-1980, boicotes e gestos individuais transformam Jogos em palco de disputas ideológicas. Ao insistir na ideia de “zona livre de política”, o COI tenta preservar patrocinadores, audiência global e imagem institucional. Especialistas em governança esportiva lembram, porém, que a própria decisão de aceitar ou vetar delegações já carrega escolha política.
A desclassificação também atinge diretamente a campanha da Ucrânia em 2026. Heraskevych chega aos Jogos como esperança real de medalha, apoiado por resultados consistentes na Copa do Mundo da modalidade. A eliminação tira do país um dos poucos favoritos em esportes de gelo e frustra uma delegação que lida com cortes de orçamento, estádios destruídos e treinamentos interrompidos por alertas de bomba desde o início da invasão.
Liberdade de expressão, regras esportivas e próximos capítulos
Entidades de direitos humanos e organizações de atletas começam a se posicionar horas após a prova. Grupos que atuam junto à ONU em Genebra apontam que a lembrança de mortos em conflitos armados se aproxima mais de um ato de memória do que de propaganda política. Advogados que acompanham o caso avaliam que a defesa ucraniana pode tentar enquadrar o gesto como manifestação de luto, algo tradicionalmente tolerado em grandes competições.
No campo esportivo, cresce o temor de efeito cascata. Federações temem que a decisão abra espaço para punições a faixas, braçadeiras ou pequenos símbolos usados para lembrar vítimas de desastres, ataques terroristas ou crises humanitárias. Dirigentes de confederações europeias ouvidos reservadamente admitem desconforto com a rigidez, mas não planejam confronto aberto com o COI em pleno ciclo olímpico.
A Ucrânia sinaliza que não deixará o assunto morrer após o fim dos Jogos. O comitê nacional anuncia que estuda recorrer à Corte Arbitral do Esporte, em Lausanne, questionando a interpretação da regra. Diplomatas ucranianos avaliam incluir o episódio em discussões mais amplas sobre responsabilização da Rússia em fóruns internacionais, usando o caso como exemplo de como a guerra extravasa para o esporte.
O próprio Heraskevych deve se tornar figura ainda mais central nesse embate. O atleta já participa de campanhas de arrecadação para reconstrução de instalações esportivas bombardeadas e visita famílias de colegas mortos em regiões próximas à frente de combate. A desclassificação, em vez de encerrar sua mensagem, tende a ampliar a audiência que ele alcança fora das pistas.
O COI promete revisar, após a edição de 2026, a forma como aplica as normas sobre manifestações em arenas e vilas olímpicas. O debate, porém, dificilmente encontrará consenso rápido. Em um cenário em que guerras, crises climáticas e desigualdades atravessam fronteiras, a tentativa de tratar o esporte como território neutro volta a ser questionada. A principal dúvida, a partir do capacete de Heraskevych, é até onde os Jogos conseguem ignorar as histórias de quem não chega vivo à linha de largada.
