Fim da escala 6×1 pode encarecer trabalho em 7,84%, aponta Ipea
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulga, nesta quarta-feira (11.fev.2026), nota técnica que estima alta de 7,84% no custo do trabalho com o fim da escala 6×1. O estudo indica impacto operacional bem menor, abaixo de 1% para indústria e comércio, o que reforça o peso direto da medida sobre a folha de pagamento.
Ipea entra no centro do debate trabalhista
A escala 6×1, em que o empregado trabalha seis dias seguidos e descansa um, está no centro de disputas entre sindicatos, empresas e governo há anos. A nova nota técnica do Ipea se insere nesse embate ao quantificar, com base em simulações, quanto a eventual mudança de jornada mexe no bolso das companhias e na vida de milhões de trabalhadores.
O documento, elaborado por pesquisadores da instituição, mede o efeito de uma reorganização da jornada que elimine o regime tradicional de seis dias trabalhados para um de descanso. Pelos cálculos, o custo total do trabalho no país avançaria 7,84%, puxado principalmente pelo pagamento adicional de horas, contratações para cobrir a nova escala e reorganização de turnos. O gasto direto com pessoal cresce, mas a estrutura produtiva praticamente não se altera.
Os técnicos do Ipea apontam que o impacto operacional para indústria e comércio, setores com forte uso de mão de obra em regime de escala, fica abaixo de 1%. Isso significa que a capacidade de produzir, vender e atender não sofre alterações relevantes, mesmo com um redesenho da jornada. “O efeito sobre a operação é marginal quando comparado ao aumento do custo da força de trabalho”, afirma a nota.
O estudo reforça a percepção, entre economistas e analistas do mercado de trabalho, de que a discussão sobre o 6×1 é menos sobre eficiência produtiva e mais sobre repartição de custos e benefícios. Ao colocar um número na conta, o Ipea oferece munição para todos os lados: sindicatos destacam o baixo impacto operacional, empresários chamam atenção para a alta imediata na folha.
Custo sobe, rotina produtiva quase não muda
A projeção de alta de 7,84% no custo do trabalho ocorre num cenário de disputa por espaço no orçamento das empresas. Em setores intensivos em mão de obra, como comércio varejista e parte da indústria de transformação, a folha de pagamento já representa parcela relevante dos gastos fixos. Qualquer ajuste na jornada, mesmo sem alterar o faturamento, pressiona margens de lucro e renegociações de contratos.
Ao mesmo tempo, o efeito inferior a 1% sobre o custo operacional indica que produção, logística e atendimento conseguem se ajustar à nova regra com poucos rearranjos. Em linguagem simples, a máquina segue funcionando quase no mesmo ritmo, embora custe mais para operar. Para o Ipea, essa combinação mostra que o fim da escala 6×1 recai de forma concentrada sobre a remuneração e a organização do trabalho, não sobre a capacidade de produzir.
A conclusão é estratégica para o debate sobre reforma trabalhista e políticas públicas ligadas à jornada. Ao separar custo e operação, o estudo indica que a principal resistência à mudança deve vir da pressão sobre o caixa das empresas, e não de um risco concreto de desorganização produtiva em larga escala. Em mesa de negociação, esse dado se traduz em nova correlação de forças entre sindicatos, federações empresariais e governo.
Representantes de trabalhadores veem no diagnóstico um argumento para reforçar pedidos de mais descanso semanal, escalas menos extenuantes e equilíbrio entre vida pessoal e emprego. Do outro lado, empresários tendem a usar o percentual de 7,84% como alerta para possíveis efeitos sobre preços, investimentos e decisões de contratação, sobretudo em períodos de crescimento fraco.
Próximos passos na disputa sobre jornada
A nota técnica do Ipea não altera leis nem impõe regras, mas influencia diretamente o debate político e as mesas de negociação coletiva. Com números concretos sobre a mesa, parlamentares ganham base para projetos que proponham limites mais rígidos à escala 6×1 ou mecanismos de compensação, como incentivos fiscais e transições graduais para as empresas mais afetadas.
No curto prazo, o estudo tende a ser usado por centrais sindicais em campanhas salariais e na discussão de cláusulas de jornada em convenções coletivas. No médio prazo, pode influenciar propostas de revisão da reforma trabalhista e de atualização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em especial nos artigos que tratam de descanso semanal e escalas alternadas. A partir de agora, a disputa deixa de ser apenas ideológica e passa a se apoiar em percentuais claros de custo e impacto, mas a pergunta central continua em aberto: quanto o país está disposto a pagar por mais descanso na rotina de trabalho?
