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Justiça expede prisão de suspeito de estuprar e matar jovem em Juatuba

A Justiça de Minas Gerais expede mandado de prisão contra Ítalo Jefferson, 43, suspeito de estuprar e matar a jovem Vanessa Lara de Oliveira, 23, em Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O crime ocorre menos de dois meses após ele deixar a prisão, reacendendo o debate sobre falhas na progressão de regime e na proteção de mulheres vulneráveis.

Crime após saída da prisão choca cidade da Grande BH

O corpo de Vanessa é encontrado na tarde de terça-feira, 10 de fevereiro de 2026, após um dia de buscas da família e da polícia. A jovem desaparece na segunda-feira, 9, depois de ser vista pela última vez no Sistema Nacional de Emprego (Sine) de Juatuba, onde prestava serviço para uma empresa terceirizada. Aos 23 anos, trabalhava para pagar a faculdade de psicologia, segundo parentes.

Moradores relatam que a notícia da morte se espalha rápido pela cidade e provoca indignação. O principal suspeito, Ítalo Jefferson, é velho conhecido da região e, segundo relatos, abordava e assediava mulheres em via pública. A sensação de que a tragédia poderia ter sido evitada domina conversas em ruas, grupos de mensagem e repartições públicas.

Histórico criminal e decisão que abriu caminho para a liberdade

Ítalo Jefferson acumula um histórico criminal que soma 38 anos, 10 meses e 29 dias de reclusão, por crimes de roubo, estupro, atentado violento ao pudor, furto, tráfico de drogas e resistência. De acordo com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), ele já cumpriu 23 anos, 11 meses e 19 dias dessas penas, impostas em diferentes processos concluídos entre 2002 e 2020. Até o fim de 2025, ele estava em regime fechado na Comarca de Patrocínio, no Alto Paranaíba.

Em setembro de 2025, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) altera o rumo do caso e reduz o tempo que restava de prisão. O tribunal desclassifica o crime de tráfico de drogas para uso, o que extingue uma pena de oito anos que pesava contra o réu. Em dezembro, o Juízo da Comarca de Patrocínio recalcula a soma das condenações, concede progressão para o regime semiaberto domiciliar e expede o alvará de soltura, cumprido em 20 de dezembro de 2025.

Em janeiro de 2026, o processo de execução penal é transferido para a Comarca de Juatuba, depois que Ítalo informa endereço na cidade. Menos de dois meses após a saída do presídio, ele se torna o principal suspeito do estupro e assassinato de Vanessa. Diante da nova acusação, a Justiça determina a regressão cautelar para o regime fechado e manda expedir o mandado de prisão.

Confissão por telefone e fuga para Belo Horizonte

A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) recebe as primeiras informações sobre o suspeito ainda na tarde de terça. Pessoas que acompanham o trabalho da perícia no local onde o corpo é encontrado indicam quem seria o autor do crime e onde moram seus familiares. Os policiais seguem até o endereço apontado e encontram o primo, o cunhado e a mãe de Ítalo.

Segundo o registro da ocorrência, os parentes contam que ele chega em casa na segunda-feira, 9, com arranhões, sujo de barro e com a roupa manchada de sangue. Questionado pela família, Ítalo afirma que usou drogas com uma mulher e que os dois brigaram. Depois, toma banho, pede R$ 200 à mãe e diz que vai para o Centro de Belo Horizonte para “morar na rua”.

Enquanto os policiais ainda estão na residência, o telefone toca. Do outro lado da linha, segundo a PMMG, está o próprio Ítalo. Ele admite o crime e diz que se encontra na região central da capital mineira. “Ele ligou e confessou a autoria do crime”, registra o boletim policial. A ligação cai em seguida, e o suspeito não volta a atender.

A família entrega à polícia o short que ele usava na segunda-feira, com manchas de sangue. A peça é encaminhada para perícia, que deve confrontar o material biológico com vestígios colhidos no corpo e na cena do crime. Até o momento, o suspeito não é localizado e segue sendo procurado em Belo Horizonte e em cidades vizinhas.

Pressão sobre sistema penal e sensação de insegurança

O caso de Vanessa se soma a outros episódios recentes que envolvem condenados por crimes sexuais e decisões que permitem o retorno às ruas. Em Minas, casos como o de um homem preso por estuprar uma criança de 10 anos e assassinado dentro do presídio e o de uma técnica de enfermagem que recebeu indenização após ser estuprada em um hospital público alimentam o debate sobre a capacidade do Estado de prevenir novas violações.

Em Juatuba, a morte da jovem expõe a fragilidade da rede de proteção às mulheres. Moradoras relatam que o suspeito circulava livremente pela cidade, apesar do histórico criminal. “Todo mundo sabia quem ele era, a fama que tinha, principalmente com as mulheres”, afirma uma moradora, que pede para não ser identificada por medo de retaliação. Entidades de defesa dos direitos das mulheres cobram mais rigor na análise de progressões e no monitoramento de egressos do sistema prisional com histórico de violência sexual.

Especialistas em segurança pública lembram que decisões como a do STJ, que desclassificam o crime de tráfico para uso, seguem critérios legais e dependem das provas reunidas no processo. Alertam, porém, que a execução penal precisa levar em conta o conjunto da trajetória criminal. A soma de quase 39 anos de condenações e o padrão de violência atribuído ao suspeito recolocam em discussão o equilíbrio entre reinserção social e proteção de potenciais vítimas.

Investigações, buscas e debate sobre mudanças na lei

A Polícia Civil de Minas Gerais aprofunda as investigações para esclarecer em detalhes como ocorreu o estupro e o assassinato de Vanessa, em que local exato ela foi atacada e se houve participação de outras pessoas. O cruzamento de imagens de câmeras de segurança, dados de telefonia e laudos periciais deve orientar o inquérito, que será encaminhado ao Ministério Público.

A ordem de prisão contra Ítalo Jefferson coloca agora a política criminal de Minas Gerais sob escrutínio. A forma como a Justiça concede progressão de regime, a comunicação entre comarcas e o acompanhamento de condenados por violência sexual tendem a entrar na agenda do Legislativo estadual e de conselhos de justiça. A família de Vanessa enterra uma jovem que sonhava com o diploma de psicologia, enquanto a cidade de Juatuba espera, ao menos, uma resposta objetiva: se o Estado será capaz de localizar o suspeito, levá-lo a julgamento e impedir que o próximo caso seja apenas questão de tempo.

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