Governo veta ministros em carro alegórico da Acadêmicos de Niterói
O ministro da Secretaria de Comunicação Social proíbe ministros de desfilar em carro alegórico da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026, no Rio. A decisão, anunciada internamente neste início de fevereiro, busca blindar o governo de desgastes políticos e de possíveis interferências da Justiça no desfile.
Governo aciona freio de mão em plena avenida
O veto atinge diretamente o planejamento da escola de samba, que reserva desde o fim de 2025 um dos carros para representar a presença do governo federal na Marquês de Sapucaí. Integrantes do Planalto relatam que a orientação do ministro é explícita: nenhum titular de pasta sobe no carro, nem como convidado de última hora. A ordem vale para todo o primeiro escalão, incluindo ministros políticos e da área econômica.
Na avaliação do ministro da Secom, a presença de autoridades em um carro alegórico, em meio a um desfile temático, abre espaço para interpretações de favorecimento político e uso indevido de imagem institucional em um evento cultural. O receio é que, em um ambiente polarizado, imagens transmitidas para milhões de pessoas em rede nacional sejam usadas fora de contexto ou detonem ações na Justiça Eleitoral e no Ministério Público. “O governo não pode se confundir com espetáculo nem virar alvo fácil em um momento de festa”, resume um assessor que acompanha as discussões.
Cautela jurídica e memória de crises recentes
O movimento do Planalto dialoga com um ambiente jurídico mais interventor sobre a relação entre poder público e Carnaval. Nos últimos cinco anos, decisões de primeira e segunda instância suspendem patrocínios, vetam slogans oficiais em fantasias e exigem mudanças de enredo horas antes de desfiles. Em um caso recente, em 2024, uma liminar determina a retirada de uma peça publicitária considerada propaganda antecipada em um bloco de rua. O episódio vira alerta permanente para a área jurídica do governo.
Desde dezembro, técnicos da Secom levantam pareceres e decisões que tratam de limite entre manifestação cultural e promoção política. O relatório, que circula entre a Casa Civil e a Advocacia-Geral da União, aponta risco alto de judicialização se ministros aparecerem de forma destacada em carros temáticos, com transmissão ao vivo para todo o país. A avaliação é que, mesmo sem gasto público direto, a associação da imagem oficial a uma escola pode ser lida como benefício político. “Qualquer imagem na Sapucaí vira campanha de 15 segundos no dia seguinte”, comenta um integrante da equipe de comunicação.
Política, samba e risco de desgaste público
A decisão abre um novo capítulo na relação entre política e Carnaval, que movimenta mais de R$ 4 bilhões na economia do Rio, segundo dados oficiais de 2025. Ao barrar ministros na avenida, o governo tenta evitar que o desfile da Acadêmicos de Niterói vire palco de disputa partidária em um ano em que o calendário eleitoral já aquece articulações para 2026. A ordem interna é reduzir ao mínimo cenas que possam ser lidas como campanha antecipada ou como uso de prestígio do cargo em benefício de uma agremiação específica.
No curto prazo, a medida redesenha o roteiro de exposição pública de ministros durante o feriado. A agenda oficial se concentra em eventos institucionais, visitas a centros de operações e ações de prevenção de desastres climáticos, que se tornam mais frequentes entre janeiro e março. Para auxiliares do ministro da Secom, o recado é duplo: o governo respeita o Carnaval como manifestação cultural, mas não se dispõe a transformar a passarela em extensão de gabinete. A leitura é que, em um ambiente em que um vídeo de 30 segundos viraliza em menos de 24 horas, um gesto sobre o carro errado pode custar semanas de desgaste político.
Debate sobre liberdade de expressão e presença do Estado
O veto deve alimentar um debate mais amplo sobre os limites da presença de agentes públicos em manifestações culturais de grande porte. Integrantes da escola de Niterói afirmam reservadamente que a participação de ministros poderia reforçar o enredo e atrair patrocinadores privados, que contam cada inserção em rede nacional como espaço publicitário valioso. Produtores culturais também veem tensão entre a cautela jurídica e a tradição de desfiles que comentam diretamente a política nacional desde os anos 1980.
Especialistas em direito constitucional ouvidos pela reportagem ponderam que a proibição não impede a manifestação de opinião, mas redefine a fronteira institucional. Para eles, o governo tenta se proteger de um ambiente em que decisões liminares surgem em questão de horas, muitas vezes instigadas por adversários partidários. A escolha de deixar os ministros fora do carro não encerra o debate sobre neutralidade do Estado na avenida. A expectativa no meio político é que, a partir do desfile de 2026, outras escolas passem a calibrar o espaço dado a figuras públicas, cientes de que cada aparição pode atrair, em minutos, a atenção da Justiça, das redes sociais e das urnas.
