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Governo barra ministros em carro de Janja no Carnaval de 2026

O ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio, impede que colegas de Esplanada desfilem no carro alegórico de Janja, em 11 de fevereiro de 2026, no Rio. A ordem atinge o desfile da Acadêmicos de Niterói, que leva a primeira-dama como destaque no Carnaval.

Planeta político contamina a avenida

O veto parte do coração da comunicação do Planalto e mira um dos palcos mais visíveis do país. O desfile da Acadêmicos de Niterói, na Marquês de Sapucaí, costuma ser visto por milhões de pessoas na TV aberta e em plataformas de streaming. Em ano de temperatura política elevada, a presença de ministros ao lado de Janja é tratada dentro do governo como um risco calculado demais.

Sidônio avalia que o momento exige freio de mão puxado. Auxiliares relatam que ele vê “alto potencial de desgaste” se integrantes do primeiro escalão transformam o carro da primeira-dama em vitrine de poder. O temor não é só de reação da oposição, que já explora cada aparição pública do núcleo do governo, mas também de decisões judiciais que, em última instância, possam atingir o próprio desfile.

Bastidor de um veto preventivo

A discussão sobre o papel de ministros no chamado “carro de Janja” circula nos bastidores desde o fim de 2025, quando a Acadêmicos de Niterói confirma a homenagem. O projeto da escola prevê a participação da primeira-dama em posição de destaque, em um dos últimos carros da noite de 11 de fevereiro. A ideia de levar ministros junto surge informalmente em conversas de aliados, empolgados com a chance de capitalizar a exposição da Sapucaí.

O entusiasmo encontra resistência na Secom. Responsável pela estratégia de comunicação do governo, Sidônio insiste que a fronteira entre representação institucional e promoção pessoal precisa ficar nítida. Interlocutores resumem a lógica: quanto mais autoridade no carro, maior o risco de o desfile ser lido como ato político disfarçado de festa popular. Em tempos de judicialização de quase tudo, a avaliação é que bastaria uma ação de adversários para tentar barrar ou limitar a apresentação da escola.

A preocupação não é abstrata. Nos últimos anos, tribunais eleitorais passaram a vigiar com mais atenção o uso de eventos culturais por autoridades em cargos de destaque, sobretudo em períodos próximos a disputas municipais e nacionais. Mesmo sem eleição marcada para 2026, o governo trabalha com o cenário de campanhas antecipadas e discursos inflamados, o que amplia a chance de contestação judicial.

Ao proibir que ministros subam ao carro, Sidônio tenta blindar o Planalto de acusações de uso político do Carnaval. A presença de Janja, por si só, já é alvo de observação. A primeira-dama acumula forte exposição pública desde 2023 e desperta ora entusiasmo, ora rejeição. Um carro carregado de ministros ampliaria o foco de crítica e transformaria o que a escola vende como enredo sobre cultura em vitrine de governo.

Imagem em disputa no maior palco popular do país

A decisão mexe com a engrenagem da própria Acadêmicos de Niterói. A escola, que investe milhões de reais na produção do desfile, tenta equilibrar o interesse em ter figuras de peso no carro com o receio de ver o enredo travado por decisões judiciais de última hora. Um eventual embargo na semana do Carnaval seria desastroso: atrasaria a logística, afetaria o cronograma de ensaios e poderia comprometer a avaliação dos jurados.

O veto também impacta a relação do governo com sua base política. Ministros que enxergam no Carnaval uma vitrine de simpatia popular perdem um espaço de exposição espontânea. A ordem de Sidônio, porém, dialoga com outra preocupação: o desgaste de imagem em um cenário de redes sociais intensas, em que um vídeo de poucos segundos na avenida pode render dias de ataques e memes. A comunicação oficial prefere mostrar apoio ao Carnaval com ações institucionais, patrocínios transparentes e presença discreta nas arquibancadas.

Especialistas em comunicação política ouvidos reservadamente por auxiliares do Planalto defendem cautela. Eles lembram que, em crises recentes, fotos de autoridades em festas e camarotes, em datas sensíveis, aceleraram a erosão de capital político. O Carnaval de 2026 marca a metade do mandato e se torna vitrine do que o governo escolhe mostrar — e do que prefere esconder. Ao reduzir a presença de ministros na avenida, a Secom tenta transmitir moderação e respeito à separação entre festa popular e palanque.

O efeito simbólico, porém, é imediato. O chamado “carro de Janja” deixa de ser visto como possível comitiva do governo e passa a carregar, oficialmente, apenas a presença da primeira-dama, convidados ligados ao enredo e integrantes da escola. O Planalto busca, assim, manter o desfile na chave cultural, e não institucional, embora na prática seja impossível dissociar completamente a imagem da esposa do presidente da do próprio governo.

Pressão, jurisprudência e o que vem depois da avenida

A proibição abre espaço para novas disputas sobre a linha que separa cultura e política. O Carnaval, historicamente, retrata presidentes, crises econômicas e decisões do Supremo sem pedido de autorização. Em 2026, porém, o Planalto escolhe a contenção. Ao evitar que ministros desfilem, tenta reduzir o flanco de ataques e também de ações judiciais que explorem suposto uso promocional da máquina pública.

Ainda não há indicativo de que partidos de oposição ingressem com representações formais para questionar o desfile da Acadêmicos de Niterói, mas o cenário é tratado como provável em conversas internas. Um eventual processo serviria de teste para a Justiça sobre até onde vai a tolerância com a presença de figuras ligadas ao poder em desfiles patrocinados por recursos públicos ou por empresas com contratos com o governo.

O movimento de Sidônio tende a irradiar para outros eventos de grande porte em 2026. Assessores já discutem protocolos para presença de ministros em festivais, feiras e inaugurações com alta visibilidade, a fim de reduzir margem para contestações. O caso do carro de Janja, ainda antes do desfile, funciona como laboratório de dano controlado: o governo recua um passo agora para evitar ser empurrado muitos metros para trás, em plena avenida.

O desfile de 11 de fevereiro segue confirmado, com Janja em destaque e sem ministros no topo do carro. A avenida responde a seu modo, com aplausos, vaias ou silencioso julgamento. A principal dúvida, dentro e fora do Planalto, é se a estratégia de contenção será suficiente para manter o Carnaval como palco de festa — ou se ele continuará, inevitavelmente, a ser também o maior termômetro político a céu aberto do país.

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