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Cuba fica sem combustível para voos internacionais por um mês

Cuba comunica às companhias aéreas que ficará sem combustível para voos internacionais a partir de 10 de fevereiro de 2026, por pelo menos um mês. O alerta acende um novo foco de tensão no Caribe e expõe o peso das sanções dos Estados Unidos sobre a ilha.

Céu fechado para reabastecimento

O gatilho da crise é um aviso do tipo Notam, comunicado técnico enviado a pilotos e empresas aéreas no mundo todo. No banco de dados da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA), a mensagem aparece em letras maiúsculas e secas: “JET A1 FUEL NOT AVBL” – combustível de aviação do tipo JET A1 não disponível.

Na prática, isso significa que nenhum avião comercial consegue reabastecer para voos internacionais nos principais aeroportos cubanos entre 10 de fevereiro e 11 de março. O período de um mês abrange o José Martí, em Havana; o Juan Gualberto Gómez, em Varadero; o Jaime González, em Cienfuegos; o Abel Santamaría, em Santa Clara; o Ignacio Agramonte, em Camagüey; o Jardines del Rey, em Cayo Coco; o Frank País, em Holguín; o Antonio Maceo, em Santiago de Cuba; e o Sierra Maestra, em Manzanillo.

A crise não surge do nada. A ilha enfrenta um aperto energético crescente, alimentado pelo bloqueio ao envio de petróleo e derivados imposto por Washington e agravado pela intervenção americana na Venezuela no início do ano. Cuba depende historicamente do petróleo venezuelano e vê essa rota cada vez mais estrangulada.

O site independente 14Ymedio relata que o racionamento de querosene começa de forma silenciosa já no sábado anterior ao Notam. Segundo o portal, autoridades aeroportuárias passam a controlar rigidamente cada litro fornecido às aeronaves. A situação, diz o veículo, repete um padrão que o país conhece desde os anos 1990, quando o fim da União Soviética mergulhou a economia cubana em apagões e desabastecimento.

Turismo em xeque e rotas redesenhadas

As companhias aéreas correm para redesenhar rotas e evitar que aviões fiquem presos na ilha. Empresas que ligam Cuba a Estados Unidos, Canadá, Europa e América Latina estudam escalas extras para reabastecimento em países vizinhos, como México e República Dominicana. A solução reduz o risco operacional, mas aumenta custos, amplia o tempo de viagem e introduz uma dose permanente de incerteza na malha aérea.

A maioria dos voos internacionais que chega a Cuba vem da Flórida – com saídas de Miami, Tampa e Fort Lauderdale – e de cidades canadenses, principal origem de turistas para o país. Há ainda conexões regulares com Rússia, Espanha, Panamá e México, além de rotas para Bogotá, Santo Domingo e Caracas. Cada reprogramação de rota afeta milhares de passageiros por dia, em plena alta temporada para o Caribe.

O turismo, um dos poucos motores de geração de divisas para a economia cubana, já vem machucado. Em 2025, o número de visitantes cai 17,8%, em mais um ano de retração. A escassez de combustível nos aeroportos ameaça agravar esse quadro, encarecendo pacotes, provocando atrasos em série e afastando visitantes que temem ficar ilhados em plena crise energética.

Entre os turistas mais expostos estão os russos. De acordo com a União Russa da Indústria de Viagens, citando a executiva Anna Podgornaya, cerca de 4.000 viajantes da Rússia estão hoje em Cuba. A embaixada e o consulado-geral em Havana dizem na semana passada que monitoram de perto a situação após relatos de atrasos em voos. O clima fica mais tenso quando o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, admite nesta segunda-feira a gravidade do problema.

“A situação em Cuba é realmente crítica. Estamos cientes disso. Estamos em contato intensivo com nossos amigos cubanos por meios diplomáticos e outros”, afirma Peskov, ao ser questionado sobre como turistas russos seriam evacuados caso os aeroportos fiquem sem combustível de aviação. A declaração ecoa em Moscou e em Havana como sinal de que a crise aeroportuária começa a transbordar para o campo humanitário.

Pressão geopolítica e incerteza no horizonte

O bloqueio americano ao petróleo que abastece Cuba ganha um novo capítulo com o Notam. Ao cortar o acesso da ilha a combustível para aviação internacional, Washington aumenta a pressão sobre um aliado histórico da Venezuela, em um momento de intervenção direta no país vizinho. Cada voo remarcado e cada escala forçada reforçam a mensagem de isolamento econômico e político.

As companhias aéreas tentam preservar alguma normalidade, mas operam sob margens estreitas. Uma escala extra no México ou na República Dominicana implica novos acordos de atendimento em solo, taxas adicionais e mais horas de trabalho para tripulações. Em rotas curtas, entre Flórida e Havana, o impacto recai sobretudo na logística de frota e na confiança do passageiro, que passa a encarar cada bilhete para Cuba como um risco calculado.

Organismos internacionais acompanham o quadro com cautela. A continuidade do bloqueio e a persistência da crise energética podem transformar a atual turbulência em uma crise humanitária, com turistas retidos, medicamentos atrasados e remessas de ajuda presas em conexões cada vez mais complexas. O dilema para governos aliados é como socorrer um parceiro estratégico sem afrontar diretamente as sanções americanas.

Em Havana, o governo evita admitir colapso, mas prepara racionamentos e reforça o discurso de resistência ao “cerco econômico”. Nas capitais vizinhas, diplomatas discutem alternativas, de pontes aéreas emergenciais a negociações discretas por rotas de abastecimento. No curto prazo, o que está em jogo é garantir que aviões decolem e pousem com segurança. No médio prazo, a pergunta é se o céu de Cuba continuará aberto para o mundo ou se a ilha entrará em uma nova temporada de isolamento forçado.

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