Nobel da Paz Narges Mohammadi é condenada a 7 anos e meio no Irã
A ativista iraniana Narges Mohammadi, Nobel da Paz de 2023, é condenada a sete anos e meio de prisão por um tribunal revolucionário em Mashhad neste sábado (7). A decisão ocorre após quase dois meses de detenção em isolamento e em meio à repressão aos protestos que sacodem o país desde dezembro de 2025.
Sentença em meio a telefonema raro e saúde em risco
A condenação só vem à tona na manhã deste domingo (8), quando Mohammadi consegue fazer seu primeiro telefonema em 59 dias. Do outro lado da linha, o advogado Mostafa Nili ouve, em poucos minutos, o relato da transferência para a Primeira Vara do Tribunal Revolucionário de Mashhad e a leitura da sentença. A ligação cai quando ela começa a descrever as circunstâncias de sua prisão.
Segundo Nili, o tribunal impõe seis anos de prisão por “reunião e conluio” e mais um ano e meio por “propaganda contra o sistema”. Como pena complementar, proíbe a ativista de deixar o país por dois anos após o cumprimento da pena. O defensor afirma em sua conta na rede X que, pela legislação iraniana, após a sentença Mohammadi deve ser levada a uma prisão. Ele sustenta, porém, que a condição de saúde dela exige outra saída: “Em vista de suas doenças, espera-se que seja ordenada sua libertação temporária sob fiança para que possa receber tratamento médico”.
A própria Mohammadi relata ter sido levada a um hospital há três dias devido ao agravamento de seu quadro de saúde. As informações chegam fragmentadas, em um cenário de isolamento quase absoluto. Desde que é detida novamente, em meados de dezembro de 2025, familiares e advogados descrevem silêncio oficial, corte total de comunicações e ausência de acesso regular a médicos independentes.
A prisão mais recente ocorre durante a cerimônia fúnebre de um advogado em Mashhad, no nordeste do país. Testemunhas e parentes falam em abordagem violenta e detenção em grupo, que inclui outros ativistas de direitos humanos. Seis dias antes de a sentença ser anunciada, Mohammadi entra em greve de fome para denunciar a detenção prolongada, o isolamento e as condições de custódia.
Condenação expõe nova fase da repressão iraniana
A decisão contra a Nobel da Paz se insere em um momento de forte repressão estatal. Os protestos que explodem em dezembro de 2025 começam em Teerã, impulsionados pela queda do rial, e rapidamente se espalham por diversas cidades com palavras de ordem pelo fim da República Islâmica. A resposta do governo combina prisões em massa, internet instável e uso letal da força nas ruas.
As autoridades iranianas reconhecem 3.117 mortos nos dois meses de confrontos, número que atribuem à ação de grupos manipulados pelos Estados Unidos e por Israel. Organizações independentes contestam essa versão. A ONG de oposição HRANA, sediada nos EUA, fala em pelo menos 6.961 mortos e afirma seguir verificando mais de 11 mil possíveis vítimas, além de cerca de 51 mil prisões desde o início das manifestações.
Nesse ambiente, figuras públicas que questionam a atuação do Estado tornam-se alvos centrais. Roteiristas, advogados, professores e militantes são detidos sob acusações genéricas de conspiração e propaganda contra o regime. Entre os presos estão o roteirista Mehdi Mahmoudian, indicado ao Oscar pelo filme “Foi Apenas um Acidente”, e os ativistas Vida Rabbani, Abdullah Momeni e Ghorban Behzadian-Nejad. A nova condenação de Mohammadi funciona, na prática, como um aviso direto a esse grupo e a quem ainda ocupa as ruas.
A trajetória da ativista ajuda a dimensionar o recado. Aos 51 anos, Mohammadi acumula 13 detenções e nove condenações antes deste novo processo. Passa boa parte da última década alternando períodos de prisão, liberdade condicional e internações médicas. Em dezembro de 2024, deixa a cadeia por questões de saúde, sob regime de liberdade condicional. Em novembro do mesmo ano, denuncia que o Estado a proíbe “permanentemente” de sair do país e se recusa a emitir passaporte, o que a impede de ver os dois filhos, que vivem no exterior, há 11 anos.
Mesmo encarcerada, mantém voz ativa contra violações de direitos humanos no Irã. Publica relatos sobre a aplicação da pena de morte, critica a violência contra mulheres que se recusam a usar o véu islâmico e denuncia espancamentos e abusos em presídios. O Comitê Nobel norueguês reconhece esse percurso em outubro de 2023, ao premiá-la “por sua luta contra a opressão das mulheres no Irã e para promover os direitos humanos e a liberdade para todos”.
Pressão internacional e incertezas sobre o futuro
A nova sentença desperta reação imediata de organizações de direitos humanos e governos estrangeiros. Entidades preparam notas e campanhas pedindo a anulação do julgamento, a libertação imediata da ativista e garantias de atendimento médico independente. Em missões diplomáticas em Teerã e em capitais europeias, o caso entra na lista de temas prioritários nas conversas com representantes iranianos, ao lado das mortes em protestos e da situação de outros presos políticos.
As autoridades do Irã não indicam disposição de recuar. A estratégia, até aqui, aposta no custo político interno de ceder em um caso de alta visibilidade. Ao manter uma Nobel da Paz atrás das grades, o regime sinaliza que está disposto a pagar o preço da imagem internacional para controlar a contestação doméstica. A dúvida se desloca, então, para outro ponto: até onde a pressão externa consegue influenciar um governo que enxerga, em quase toda crítica, uma ameaça existencial?
Dentro do país, o impacto é ambíguo. A condenação de Mohammadi alimenta o medo e funciona como instrumento de intimidação para quem já foi preso ou investigado. Ao mesmo tempo, reforça o perfil de mártir de uma geração de ativistas que cresce sob vigilância constante, mas continua organizando protestos e redes de solidariedade. Nas próximas semanas, a atenção se volta para decisões judiciais sobre possíveis recursos, para o estado de saúde da ativista e para a capacidade das manifestações de se rearticularem.
O caso de Narges Mohammadi deixa uma pergunta aberta que ultrapassa fronteiras iranianas: até que ponto um Estado consegue silenciar, com sentenças e prisões, uma voz que já se converteu em símbolo global de resistência?
