Esportes

TJD-SP avalia imagens e pode denunciar Andreas e Luighi

O Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo analisa imagens da vitória do Palmeiras sobre o Corinthians, em 8 de fevereiro, e estuda denunciar Andreas Pereira e Luighi por conduta antidesportiva na Neo Química Arena. Os lances não aparecem na súmula de Raphael Claus, mas podem gerar processo com base em vídeo.

Lances fora da súmula entram na mira do tribunal

O clássico pelo Paulistão de 2026, em Itaquera, termina em campo, mas continua nos gabinetes do TJD-SP. A procuradoria do tribunal reúne as imagens da transmissão para decidir se oferece denúncia contra os dois jogadores do Palmeiras, protagonistas de episódios que inflamam o clima já tenso do dérbi.

No primeiro tempo, Andreas Pereira caminha até a marca do pênalti, poucos segundos antes da cobrança de Memphis, e passa a chuteira com força sobre o local da batida. O gesto é rápido, fora do foco principal da câmera, mas ganha destaque nas redes sociais depois que torcedores recortam o lance e apontam intenção de prejudicar o batedor corintiano. Memphis escorrega na cobrança e isola a bola, para desespero da torcida alvinegra.

No segundo tempo, já com o Palmeiras em vantagem, o foco se desloca para trás do gol defendido por Hugo Souza. Após o gol alviverde, Luighi pega uma das bolas de apoio e a chuta com violência na direção da arquibancada. O disparo atinge o rosto de um torcedor do Corinthians, flagrado pelas câmeras com a mão no olho, enquanto outros fãs pressionam o alambrado e xingam o atacante.

Raphael Claus, árbitro FIFA escalado para o clássico, não relata nenhum dos dois episódios na súmula eletrônica enviada à Federação Paulista. O documento registra apenas a expulsão de Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, por reclamação, e a expulsão de um gandula que agride o atacante Ramón Sosa no segundo tempo. Mesmo sem o respaldo da súmula, o código brasileiro de justiça desportiva permite que a procuradoria abra processo com base em imagens.

O VAR, comandado por Thiago Luis Scarascati, também não recomenda revisão em nenhum dos dois momentos polêmicos. A cabine de vídeo prefere se ater a lances de gol, impedimento e pênaltis, e ignora as discussões sobre conduta antidesportiva. A omissão alimenta a sensação de impunidade entre torcedores rivais e abre espaço para que o tema migre para o tribunal.

Palmeiras minimiza risco e lembra histórico de punições brandas

Oficialmente, o Palmeiras evita polemizar. Procurado, o clube avisa que não vai se manifestar. Nos bastidores, porém, dirigentes ouvidos pela reportagem consideram exagerada a possibilidade de denúncia contra Andreas e Luighi. A avaliação interna é de que os dois lances fazem parte da dinâmica de jogo e estão, em tese, sob a alçada do árbitro de campo e do VAR.

Dirigentes lembram que o protocolo de vídeo permite a revisão de comportamentos violentos e antidesportivos, mesmo sem cartão aplicado em campo. Como o VAR não interfere, a leitura no clube é de que não houve gravidade suficiente para punição. Fontes ligadas à diretoria reforçam que qualquer punição agora representaria, nas palavras de um cartola, uma “mudança de critério em pleno campeonato”.

Em conversas reservadas, conselheiros também resgatam o histórico recente de Corinthians e Neo Química Arena no tribunal. Na final do Paulista de 2025, bombas caseiras são atiradas no gramado nos minutos finais, interrompem a partida e colocam jogadores em risco. O caso rende apenas multa financeira ao clube alvinegro. “No ano passado, bombas caíram no campo e a punição foi uma multa. Agora querem tirar jogador de jogo por lance de campo?”, questiona um integrante da cúpula, em tom de indignação.

A irritação aumenta quando o assunto são os objetos arremessados em campo após o gol de Flaco López no dérbi mais recente. Garrafas plásticas, copos e até um isqueiro aparecem próximos à área de Hugo Souza. A arbitragem registra o episódio de forma genérica, sem identificação de autores, o que reduz a margem para punições mais duras. No Palmeiras, a percepção é de que o tribunal costuma ser mais rigoroso com atletas do que com a responsabilidade de clubes mandantes em episódios de violência nas arquibancadas.

Na outra ponta da rivalidade, corintianos cobram reação firme do TJD-SP. Em grupos de torcedores e em programas de rádio, comentaristas falam em “clara malandragem” de Andreas e em “agressão gratuita” de Luighi. A pressão pública tenta influenciar o enquadramento dos jogadores em artigos que vão de conduta antidesportiva a ato hostil, com penas que podem variar de advertência a suspensão por vários jogos.

Punições podem mexer no time e no discurso sobre o VAR

Uma eventual denúncia da procuradoria deve ser apresentada nos próximos dias, após a análise quadro a quadro dos lances. Se o TJD-SP aceitar a peça, Andreas e Luighi se tornam réus em processo disciplinar e podem ir a julgamento ainda em fevereiro, em sessão marcada em média com 5 a 10 dias de antecedência. O calendário é apertado: o Paulistão tem primeira fase prevista para terminar em março, e decisões em tribunal podem influenciar diretamente a reta final.

Andreas é um dos pilares do meio-campo armado por Abel Ferreira, com participação em gols e assistências desde o início da temporada. Luighi ganha espaço no ataque e é opção frequente de velocidade no segundo tempo. Suspensões de uma ou mais partidas obrigariam o treinador a redesenhar o time em jogos decisivos da fase de classificação e, possivelmente, em mata-matas. Em um elenco que disputa simultaneamente estadual, Supercopa e, mais adiante, Brasileiro, cada desfalque conta.

A discussão também respinga no uso do árbitro de vídeo. O clássico reacende a pergunta sobre até onde vai a responsabilidade do VAR em lances de comportamento e fair play. Quando o tribunal entra em campo para corrigir o que a arbitragem deixa passar, os clubes reclamam de interferência excessiva. Quando o VAR se omite, a pressão recai sobre o TJD-SP para dar uma resposta exemplar. A fronteira entre justiça esportiva e protagonismo jurídico segue nebulosa.

Os desdobramentos do caso interessam a todo o campeonato. Uma punição dura pode abrir precedente para que qualquer provocação, pisão na marca do pênalti ou chute de bola em direção à torcida vire tema de tribunal. Uma decisão branda alimenta o discurso de tolerância com a malandragem e de fragilidade no combate à violência em estádios. Dirigentes, atletas e torcedores monitoram cada passo do processo, conscientes de que o que sair desse julgamento será citado na próxima confusão de clássico.

O TJD-SP ainda não define data para eventual julgamento e mantém silêncio público enquanto a procuradoria prepara seu parecer. Até lá, Andreas e Luighi seguem à disposição de Abel Ferreira, treinam normalmente e vivem a rotina de preparação para os próximos jogos. A próxima palavra é dos auditores, e ela tende a dizer muito sobre o tipo de futebol que o tribunal está disposto a tolerar em 2026.

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