Artemis 2 recoloca humanos em órbita da Lua após meio século
A Nasa se prepara para lançar, em março de 2026, a missão Artemis 2, que levará quatro astronautas para orbitar a Lua pela primeira vez desde 1972. A viagem de cerca de dez dias não prevê pouso, mas testa a tecnologia que deve sustentar o retorno humano ao solo lunar na próxima década.
Primeiro passo de um novo ciclo lunar
O foguete SLS, sigla em inglês para Sistema de Lançamento Espacial, e a cápsula Orion formam o conjunto que deve recolocar humanos na vizinhança da Lua. O lançamento ocorre a partir do centro espacial da Nasa, nos Estados Unidos, em uma janela que começa em 6 de março e inclui os dias 7, 8, 9 e 11. Caso a decolagem não aconteça nesse período, novas oportunidades aparecem em abril, nos dias 1º, 3, 4, 5, 6 e 30.
A bordo estarão Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen. Eles se tornarão os primeiros seres humanos a deixar a órbita baixa da Terra desde a Apollo 17, em dezembro de 1972, quando Gene Cernan e Harrison Schmitt caminhavam na superfície lunar. Hoje, a maior parte da atividade espacial tripulada se limita a cerca de 400 quilômetros de altitude, na órbita da Estação Espacial Internacional; Artemis 2 projeta essa fronteira a quase 400 mil quilômetros de distância.
A missão surge após um adiamento provocado por falhas técnicas. A Nasa tinha planos de colocar o SLS em operação mais cedo, mas um persistente vazamento de combustível, já observado na Artemis 1, obrigou a equipe a rever cronogramas, sistemas de abastecimento e procedimentos de solo. Esse tipo de problema não é trivial: qualquer escape de hidrogênio líquido, extremamente frio e inflamável, coloca em risco o foguete, a plataforma e a tripulação.
O programa Artemis busca retomar voos tripulados além da órbita terrestre e preparar o caminho para uma presença humana mais duradoura na Lua. A agência americana trata a missão como um ensaio geral em grande escala para as etapas seguintes, que incluem pousos, módulos de superfície e, no limite, a construção de bases capazes de sustentar estadias longas no satélite natural.
Foguete herdado dos ônibus espaciais e ambição global
O SLS é um gigante que carrega o peso da história do programa espacial dos Estados Unidos. Ele nasce de tecnologias desenvolvidas para os antigos ônibus espaciais, aposentados em 2011, e adapta motores, tanques e conceitos de engenharia a uma estrutura mais potente. A ideia é ter um lançador capaz de levar não apenas astronautas, mas também grandes cargas científicas e módulos de habitação para além da órbita terrestre.
Acoplada no topo do foguete, a cápsula Orion abriga a tripulação e concentra o que há de mais recente em sistemas de navegação, comunicação e proteção contra radiação. Ao longo de aproximadamente dez dias, ela executa a trajetória que envolve uma passagem próxima à Lua, entra em órbita ao redor do satélite e depois retorna à Terra, encerrando a jornada com um mergulho controlado no oceano.
A composição da tripulação reflete a ambição política e simbólica da missão. Victor Glover será o primeiro homem negro a viajar à vizinhança da Lua. Christina Koch deve se tornar a primeira mulher a fazer esse percurso. Jeremy Hansen, da agência espacial canadense, leva o Canadá ao seleto grupo de países com representantes em voos além da órbita baixa. Reid Wiseman, ex-piloto de testes da Marinha americana, comanda a equipe em um dos voos mais acompanhados da década.
O plano não prevê pouso, mas isso não reduz o peso técnico da missão. A Nasa precisa validar, em ambiente real, sistemas de suporte à vida, blindagem contra radiação solar, rotas de fuga em caso de emergência e comunicações de longa distância. Um eventual problema em órbita lunar não permite retorno instantâneo, como acontece em missões à Estação Espacial Internacional. Cada procedimento, da queima dos motores ao recolhimento de dados biométricos, funciona como ensaio para operações mais complexas.
Impacto científico, econômico e geopolítico
Artemis 2 não leva experimentos para a superfície da Lua, mas abre espaço para uma nova leva de pesquisas sobre o ambiente lunar e suas aplicações. Instrumentos a bordo da Orion monitoram a radiação recebida pela tripulação, medem variações de temperatura e avaliam como sistemas críticos resistem a dias seguidos em espaço profundo. Esses dados alimentam projetos que vão de novas ligas metálicas a medicamentos mais estáveis para uso em ambientes extremos.
O programa também movimenta uma cadeia industrial que inclui grandes contratadas americanas e empresas de tecnologia em outros países, entre eles o Brasil. Universidades brasileiras e institutos de pesquisa acompanham o desenvolvimento dos sistemas de navegação e comunicação da missão, em busca de parcerias futuras. A participação indireta pode envolver desde o fornecimento de componentes eletrônicos até o desenvolvimento de softwares de análise de dados e de controle de satélites menores.
A corrida de retorno à Lua não é exclusiva dos Estados Unidos. China e Rússia discutem projetos de base lunar conjunta, e a Índia amplia o alcance de suas sondas. Ao recolocar astronautas em órbita lunar, a Nasa tenta definir o ritmo da próxima fase dessa disputa silenciosa. A agência fala em uma abordagem de cooperação internacional, mas também sinaliza que quer manter protagonismo tecnológico, econômico e científico no uso de recursos lunares, como água congelada nas crateras do polo sul.
O sucesso da Artemis 2 pode reacender o interesse público por grandes missões tripuladas, algo que perde espaço nas últimas décadas para o avanço discreto de satélites e robôs. Para governos, o retorno humano à Lua funciona como vitrine de capacidade industrial e inovação. Para empresas, consolida um mercado que envolve desde sistemas de lançamento até novos materiais, sensores e técnicas de construção em ambientes de baixa gravidade.
O que vem depois da órbita lunar
A Nasa trata a Artemis 2 como ponto de virada. Se o voo cumpre o roteiro, a agência ganha confiança para apressar as próximas etapas do programa, que incluem pousos tripulados e a instalação de uma pequena estação espacial em órbita da Lua, a Gateway. Essa estrutura, planejada em parceria com Europa, Canadá e Japão, deve funcionar como ponto de apoio para viagens mais longas e base de teste para tecnologias que um dia podem levar humanos a Marte.
O calendário exato ainda depende do desempenho do SLS e da Orion. Cada atraso causado por problemas técnicos, como os vazamentos de combustível que já forçaram remarcações, consome orçamento, pressiona políticos e alimenta críticas sobre o custo do programa. A aposta da Nasa é que o impacto simbólico de ver novamente uma tripulação contornando a Lua justifique o investimento e reforce o argumento de que a exploração humana do espaço profundo continua sendo um projeto de futuro, não um capítulo encerrado em 1972. A resposta começa a ser escrita quando o SLS deixar a plataforma e apontar de novo para o lado iluminado do satélite.
