Cuba decreta emergência energética e encurta semana de trabalho
O governo de Cuba decreta medidas de emergência em fevereiro de 2026 para enfrentar uma crise energética inédita em décadas. A escassez de combustíveis, agravada por pressões dos Estados Unidos, força a redução da semana de trabalho e impõe novas restrições a transportes em todo o país.
Crise expõe fragilidade estrutural da economia cubana
A decisão marca um novo capítulo na longa disputa entre Havana e Washington. A crise atual combina o peso de sanções econômicas, a dependência de importações de petróleo e a dificuldade de modernizar o parque energético. Em pleno início de 2026, o país volta a operar sob uma lógica de racionamento que remete ao chamado “Período Especial” dos anos 1990, quando a dissolução da União Soviética derrubou em mais de 50% o fornecimento de combustíveis para a ilha.
A nova emergência, porém, atinge um país mais urbanizado, com maior circulação interna e um tecido produtivo já fragilizado por anos de baixo crescimento. Postos de gasolina registram filas desde o fim de 2025, e motoristas relatam esperas de até cinco horas para conseguir poucos litros de combustível. Em alguns bairros de Havana, moradores dizem que a frequência de cortes de energia praticamente dobra desde janeiro.
O governo afirma que as dificuldades se agravam com a “intensificação da pressão econômica e financeira” dos Estados Unidos, em especial sobre empresas de frete e bancos que operam com Cuba e seus fornecedores tradicionais. “Estamos diante de um cenário crítico, que exige medidas excepcionais para proteger o abastecimento essencial da população”, declara um porta-voz oficial em pronunciamento transmitido pela TV estatal. Ele reforça que o objetivo é “garantir luz para hospitais, escolas e serviços básicos” em meio à queda na oferta de combustíveis.
O decreto publicado em fevereiro estabelece uma reorganização de setores considerados estratégicos. Órgãos públicos reduzem jornadas e reprogramam turnos, enquanto indústrias que consomem muita energia são orientadas a operar em horários de menor demanda. O governo evita divulgar números detalhados, mas reconhece que o nível de importação de combustíveis cai de forma “significativa” nos últimos meses, o que pressiona o sistema elétrico e a logística interna.
Semana de trabalho mais curta e transporte sob pressão
As medidas atingem diretamente a rotina de milhões de cubanos. Em diversas repartições estatais, a semana de trabalho passa a ter quatro dias presenciais, com parte das atividades transferida para formatos reduzidos ou atendimento remoto, ainda limitado pela infraestrutura tecnológica. A meta é cortar em dois dígitos o consumo de eletricidade em prédios públicos ao longo das próximas oito semanas.
O transporte público é readequado com menos ônibus em circulação e horários mais espaçados. Linhas consideradas pouco rentáveis são suspensas temporariamente, o que alonga deslocamentos entre bairros e cidades menores. Quem depende de vans e táxis privados enfrenta aumentos de preço, impulsionados não apenas pela escassez de gasolina e diesel, mas também pela incerteza sobre o reabastecimento diário.
Restrições ao uso de combustíveis incluem limites de compra por veículo e prioridade a ambulâncias, caminhões de alimentos e serviços de segurança. Em alguns pontos de venda, motoristas só podem abastecer até 20 litros por vez. Agricultores relatam preocupação com o escoamento de colheitas e com o funcionamento de máquinas agrícolas, fundamentais para manter a produção de alimentos num país que já convive com oferta limitada em mercados estatais.
A crise recai com força sobre setores produtivos que dependem de logística contínua, como turismo, construção civil e comércio atacadista. Hotéis e pousadas reduzem iluminação e ar-condicionado, enquanto empresas de transporte intermunicipal cancelam parte das rotas de média distância. “Se não há combustível, não há passageiros, não há mercadoria e não há como manter os empregos”, resume um empresário do setor de serviços, sob condição de anonimato.
Especialistas ouvidos por veículos locais avaliam que a combinação de racionamento energético, inflação persistente e queda da renda real pode intensificar o descontentamento social. “O sistema elétrico cubano opera há anos no limite, com usinas antigas e manutenção cara. Qualquer choque na oferta de combustíveis vira crise nacional”, analisa um economista radicado em Havana. Ele lembra que apagões recorrentes já provocam protestos pontuais desde 2022.
Pressão internacional, incerteza interna e próximos passos
A emergência energética reacende o debate internacional sobre o impacto de sanções e bloqueios em países já vulneráveis. Organizações humanitárias alertam que a restrição ao comércio de combustíveis e insumos básicos tende a atingir primeiro a população, especialmente os mais pobres. Diplomatas de países aliados a Cuba defendem em fóruns multilaterais um “alívio imediato” de pressões externas para evitar um colapso mais profundo da economia da ilha.
O governo cubano busca renegociar contratos de fornecimento com parceiros tradicionais e procura novas rotas de abastecimento para petróleo e derivados. Autoridades falam em “esforço acelerado” para ampliar fontes renováveis, como energia solar e eólica, mas admitem que esses projetos exigem investimentos altos e levam anos para produzir resultados consistentes. No curto prazo, a saída continua sendo racionar, realocar recursos e pedir paciência à população.
As medidas de emergência têm prazo inicial de validade de algumas semanas, mas integrantes do governo admitem, em privado, que a normalização total do abastecimento pode levar meses. A percepção nas ruas é de que o país entra em mais um ciclo de sacrifícios, com pouco espaço para erro de gestão ou falhas de comunicação oficial. “O problema não é só hoje, é o medo do que vem depois”, relata uma moradora de Havana, que diz armazenar alimentos e velas para enfrentar possíveis apagões prolongados.
A forma como Cuba atravessa os próximos meses deve influenciar também a relação com vizinhos e parceiros comerciais na América Latina. Governos da região acompanham o impacto da crise sobre fluxos migratórios e sobre a estabilidade política interna do país. Investidores estrangeiros observam com cautela o desempenho do sistema energético e a capacidade de o governo honrar compromissos em setores como turismo, níquel e serviços médicos.
O estado de emergência abre uma janela de incerteza: a crise energética pode servir de impulso para reformas internas e novas alianças, ou aprofundar o isolamento e o desgaste social. A resposta a essa disputa, dentro e fora de Cuba, ainda está em aberto.
