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Trump remove vídeo com ataque racista aos Obamas após reação em massa

Donald Trump remove de sua conta no Truth Social, nesta sexta-feira (6/2), um vídeo de 62 segundos que mistura alegações falsas de fraude eleitoral com um ataque racista a Barack e Michelle Obama. O presidente dos Estados Unidos afirma que não viu o trecho em que o casal aparece retratado como macacos ao som de “The Lion Sleeps Tonight” e resiste a pedir desculpas.

Da defesa como “meme” à remoção sob pressão

O vídeo entra no ar durante a madrugada, em meio a uma enxurrada de publicações da conta oficial de Trump na rede fundada por ele, o Truth Social. A peça circula há meses em redes como o X, antigo Twitter, e costura imagens editadas de democratas com a narrativa de que houve uma conspiração eleitoral em Michigan nas eleições presidenciais de 2020. No final, surge o trecho que retrata os Obamas como macacos, acompanhado da trilha de “The Lion Sleeps Tonight”.

Ao longo do dia, o conteúdo desperta reação imediata não apenas de democratas, mas de aliados republicanos do presidente. Tim Scott, senador pela Carolina do Sul e um dos principais nomes negros do Partido Republicano, escreve que está “rezando para que fosse falso, porque é a coisa mais racista que já vi vinda desta Casa Branca”. Horas depois, o vídeo é apagado. Até então, a Casa Branca ainda tenta enquadrar o episódio como um exagero da oposição.

Em comunicado enviado à BBC, a secretária de imprensa Karoline Leavitt descreve a peça como “um vídeo viral da internet que retrata o presidente Trump como o Rei da Selva e os democratas como personagens do Rei Leão”. Ela pede aos críticos que “parem com a falsa indignação” e que a imprensa se concentre em temas que “realmente importem para o público americano”. A nota, em vez de encerrar a controvérsia, amplia a percepção de que o governo tenta minimizar o teor racista das imagens.

Racismo explícito, base mobilizada e aliados em saia justa

Ao falar com repórteres a bordo do Air Force One, na própria sexta-feira, Trump nega qualquer arrependimento. “Eu não cometi um erro”, afirma, ao ser questionado sobre a possibilidade de um pedido de desculpas. Diz que assistiu apenas ao início do vídeo, gostou da mensagem sobre suposta fraude eleitoral e repassou o material para auxiliares que, segundo ele, costumam checar o conteúdo completo antes da publicação. “Nós o retiramos do ar assim que descobrimos sobre ele”, alega.

A Casa Branca credita a postagem a um funcionário que teria publicado o conteúdo “erroneamente”. Segundo relato da emissora CBS, o deputado Byron Donalds, republicano da Flórida e antigo apoiador de Trump, liga para assessores do presidente após ver o vídeo e ouve que “um membro da equipe decepcionou o presidente”. A BBC questiona a Casa Branca sobre quantas pessoas têm acesso direto à conta de Trump e qual o processo de aprovação de postagens, mas não obtém resposta detalhada.

O vídeo, originalmente compartilhado por um criador de memes conservador identificado como Xerias em outubro, recorre a um tipo de caricatura com raízes em estereótipos racistas do século 19, que associavam pessoas negras a macacos. Na montagem, não apenas os Obamas aparecem dessa forma. O antecessor de Trump na Casa Branca, Joe Biden, surge como um macaco comendo banana. Outros democratas, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, o prefeito Zohran Mamdani e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, são retratados como diferentes animais.

Entidades de direitos civis veem no episódio uma continuidade de um padrão. Derrick Johnson, presidente da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), chama o vídeo de “nojento e absolutamente desprezível” e acusa Trump de tentar desviar a atenção do escândalo em torno dos arquivos ligados ao caso Epstein e de uma “economia em rápido declínio”. Para críticos, a insistência em teorias conspiratórias sobre 2020 e o uso de imagens racistas servem ao mesmo objetivo: mobilizar a base mais radicalizada do trumpismo.

As reações de dentro do próprio Partido Republicano expõem o desconforto de parte da legenda. O deputado Mike Lawler, de Nova York, classifica a postagem como “errada e incrivelmente ofensiva — seja intencional ou um erro” e cobra sua remoção “imediata” acompanhada de pedido de desculpas. O senador John Curtis, de Utah, afirma em rede social que o vídeo é “flagrantemente racista e indesculpável” e diz que ele “nunca deveria ter sido publicado ou ter permanecido no ar por tanto tempo”.

Comunicação sob suspeita e disputa pelo legado

A polêmica surge em um momento em que Trump tenta conter danos em várias frentes. O presidente enfrenta novas revelações sobre sua relação com o bilionário Jeffrey Epstein, morto em 2019, e lida com investigações e processos que ainda orbitam as tentativas de reverter o resultado da eleição de 2020. Há poucos dias, ações civis bem-sucedidas da Dominion Voting Systems levaram à desmentida judicial de alegações de fraude veiculadas por veículos de mídia conservadores, inclusive sobre o Estado de Michigan, alvo do vídeo compartilhado agora.

O episódio também reativa a disputa de Trump com Barack Obama. Antes de chegar à Casa Branca, o republicano lidera por anos o movimento “birther”, que questiona falsamente o local de nascimento do democrata e sua elegibilidade para a Presidência. Só em 2016 ele admite publicamente que Obama nasceu no Havaí. A nova controvérsia devolve o ex-presidente e a ex-primeira-dama ao centro da arena política, mesmo sem que tenham comentado o caso até o momento.

Entre democratas, as declarações vão além da crítica ao vídeo em si e miram a figura de Trump. Ben Rhodes, ex-assessor de segurança nacional de Obama, afirma que “futuros americanos abraçarão os Obamas como figuras amadas enquanto o estudem como uma mancha em nosso país”. O governador de Illinois, JB Pritzker, escreve que “Donald Trump é racista”. O gabinete do governador da Califórnia, Gavin Newsom, define a atitude como “comportamento repugnante do presidente” e exige que “todos os republicanos” denunciem o episódio.

O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, chama Trump de “um verme vil, desequilibrado e maligno” e repete o apelo para que parlamentares republicanos rompam o silêncio. Ele lembra que, no ano anterior, já acusara o presidente de racismo quando Trump compartilha uma imagem gerada por inteligência artificial que o mostra com bigode e sombreiro, em alusão estereotipada a latinos. A soma de incidentes alimenta um debate sobre limites éticos no uso das redes oficiais da Presidência.

Próximos passos e uma dúvida central

A pressão agora se desloca para dentro da máquina de governo. Parlamentares cobram esclarecimentos sobre quem tem autorização para postar em nome do presidente, quais filtros são aplicados a conteúdos sensíveis e se haverá punição concreta ao funcionário responsabilizado pela publicação. Até o momento, a Casa Branca fala em “erro” individual, mas não detalha mudanças de protocolo ou novos mecanismos de checagem.

Organizações de direitos civis e grupos negros estudam pedir investigações formais sobre o uso de imagens racistas em canais oficiais. Plataformas digitais também voltam ao centro da discussão, pressionadas a moderar conteúdos que partem de autoridades. Enquanto Trump insiste que “não cometeu um erro” e mantém viva a narrativa de fraude em 2020, a Casa Branca tenta equilibrar o discurso de apoio à base mais fiel com a necessidade de conter danos institucionais. A questão que permanece em aberto é se esse episódio será tratado como um desvio isolado de um assessor ou como mais um sintoma de uma estratégia política que normaliza o racismo no coração do poder americano.

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