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Irã condena Nobel da Paz Narges Mohammadi a mais de 7 anos de prisão

O governo do Irã condena a ativista Narges Mohammadi, Nobel da Paz de 2023, a mais de sete anos de prisão, exílio interno de dois anos e proibição de viajar. A sentença é comunicada no início de fevereiro de 2026, logo após uma greve de fome de uma semana na prisão de Mashhad.

Sentença em meio à repressão e ao silêncio oficial

A decisão atinge uma das vozes mais conhecidas da luta por direitos humanos no país em um momento de repressão crescente. A nova condenação se soma a uma longa sequência de prisões e processos que marcam a trajetória da ativista de 53 anos, símbolo da campanha contra a pena de morte e da defesa dos direitos das mulheres iranianas.

A Fundação Narges Mohammadi, que acompanha o caso à distância, informa que a sentença é revelada à própria ativista em uma ligação telefônica breve, no domingo, após semanas de isolamento total. Segundo a entidade, Mohammadi relata ao advogado Mostafa Nili que recebe a decisão no sábado, um dia antes de encerrar a greve de fome iniciada na semana anterior.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã não responde aos pedidos de comentário. Teerã enfrenta quase três semanas de protestos antigovernamentais iniciados no fim de dezembro e intensifica o cerco a dissidentes, advogados e familiares de vítimas da repressão.

As autoridades responsabilizam Mohammadi por participar e incentivar manifestações consideradas subversivas. Ela está detida em um centro de custódia em Mashhad, no nordeste do país, e passa semanas sem qualquer contato com o mundo exterior, segundo a fundação. “Após semanas de isolamento absoluto e de interrupção total de comunicação, ela finalmente conseguiu relatar sua situação em uma breve ligação telefônica com seu advogado”, declara a organização.

Acusações políticas e punição exemplar

A sentença detalha as acusações em números e termos jurídicos usados com frequência contra críticos do regime. Mohammadi recebe seis anos de prisão por “reunião e conluio contra a segurança nacional” e um ano e meio por “propaganda contra o governo”. Além disso, é condenada a dois anos de exílio interno na cidade de Khusf, no leste do país, e a dois anos de proibição de viajar, mesmo após o cumprimento da pena.

As autoridades ligam o processo à atuação pública da ativista em três frentes: a denúncia da morte suspeita do advogado Khosrow Alikordi, a participação em protestos antigovernamentais e a campanha contínua pelos direitos das mulheres no Irã. Mohammadi é presa em 12 de dezembro, pouco depois de questionar, em voz alta, as circunstâncias da morte do advogado.

Naquele dia, durante a cerimônia memorial de Alikordi em Mashhad, o promotor Hasan Hematifar acusa a ativista de fazer declarações “provocativas”. Segundo ele, Mohammadi incentiva os presentes a “entoa­rem slogans que violam normas” e a “perturbarem a ordem pública”. As frases se tornam a base da acusação de incitação à desordem, somada à imputação de conluio contra a segurança do Estado.

Mohammadi constrói sua notoriedade exatamente por confrontar esse tipo de enquadramento. Ao longo de mais de duas décadas, ela denuncia tortura em presídios, campanhas de intimidação contra familiares de presos políticos e a execução de condenados à morte, frequentemente após julgamentos sumários. Em 2023, recebe o Prêmio Nobel da Paz enquanto já está atrás das grades, reconhecida por sua “luta contra a opressão das mulheres no Irã e pela promoção dos direitos humanos e da liberdade para todos”.

A nova sentença reforça o padrão de punições sucessivas aplicado a ativistas de alto perfil. Especialistas em direitos humanos veem na combinação de prisão longa, exílio interno e restrição de viagens uma tentativa de apagá-la do espaço público, inclusive fora das fronteiras iranianas. O exílio em Khusf, cidade distante dos grandes centros, busca afastá-la de redes de apoio e da imprensa internacional.

Impacto interno, pressão externa e uma luta em aberto

Organizações de defesa dos direitos humanos reagem rapidamente à notícia da condenação. Grupos iranianos no exílio e entidades internacionais classificam a decisão como mais um capítulo da escalada de violações no país e pedem a libertação imediata da ativista. Para esses movimentos, o caso Mohammadi se torna um termômetro da disposição do regime em enfrentar críticas globais.

A decisão judicial tende a ampliar a pressão diplomática sobre Teerã. Governos ocidentais e agências multilaterais discutem novas sanções ligadas a violações de direitos humanos, enquanto parlamentares europeus e americanos usam o nome da Nobel da Paz como exemplo de perseguição política. A condenação, porém, também reforça a estratégia interna do governo, que sinaliza desfechos duros a qualquer figura com projeção internacional que apoie protestos ou questione a segurança do Estado.

O endurecimento do cerco à dissidência ocorre em paralelo à crise política aberta pelos protestos iniciados no fim de dezembro. As manifestações atravessam diversas cidades, reúnem jovens, mulheres e trabalhadores e expõem tensões acumuladas em anos de sanções econômicas, inflação elevada e controle severo da vida cotidiana. Ao punir Mohammadi, o governo mira uma liderança simbólica e envia um recado a quem ainda ocupa as ruas.

Dentro do país, a sentença pode ter efeito ambíguo. Parte da sociedade se intimida com o aumento das penas e o isolamento extremo imposto a figuras públicas. Outra parte vê na resistência da ativista, inclusive na greve de fome, uma razão adicional para manter a mobilização. O fato de ela encerrar o protesto após receber a sentença não sugere rendição, mas um ajuste de estratégia para preservar forças em um embate de longo prazo.

Próximos passos e incertezas para o movimento de direitos humanos

A defesa de Mohammadi deve recorrer da decisão, embora os caminhos legais no Irã sejam estreitos para opositores declarados do regime. Organizações internacionais prometem levar o caso a fóruns da ONU e a tribunais simbólicos, na tentativa de manter atenção constante sobre sua situação e sobre a repressão mais ampla no país.

O futuro imediato da ativista permanece incerto. O cumprimento da pena em Mashhad, seguido pelo exílio em Khusf e pela proibição de viagens, tende a limitar ao máximo sua atuação direta. A figura política, porém, parece já escapar aos muros da prisão. À medida que o nome de Narges Mohammadi se consolida como referência global de resistência, o governo iraniano se vê diante de um dilema: quanto mais tenta silenciá-la, maior é o risco de transformá-la em símbolo permanente da luta por direitos civis no Irã.

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