Rússia acusa Ucrânia após atentado contra general em Moscou
O general russo Vladimir Alekseyev, um dos homens mais influentes da inteligência militar do país, sofre uma tentativa de assassinato em Moscou na sexta-feira (6). O Kremlin atribui o ataque à Ucrânia e anuncia neste domingo (8) a prisão do suposto atirador nos Emirados Árabes Unidos e sua extradição para a Rússia.
FSB aponta mandante e transforma atentado em caso político
Alekseyev, 64, primeiro adjunto do chefe do serviço de inteligência militar russo, é atingido por vários disparos em uma rua da capital e chega ao hospital com vida. O episódio ocorre em meio a uma sequência de ataques contra militares e autoridades leais a Moscou em áreas sob controle russo, que o governo atribui a operações clandestinas ligadas à Ucrânia.
Dois dias depois dos tiros, o Serviço Federal de Segurança (FSB) vai a público para apresentar a sua versão. O órgão afirma que um cidadão russo, nascido em 1960, é o “autor direto do crime”. Segundo o comunicado, ele foge para Dubai logo após o atentado, é localizado pela segurança local e acaba entregue às autoridades russas.
O FSB não divulga o nome do suspeito, mas destaca que o alvo não é um general qualquer. Alekseyev está sob sanções de Estados Unidos e União Europeia por seu suposto papel em operações de hackers atribuídas a Moscou. Ele também é apontado pelo Ocidente como envolvido na organização do ataque com agente neurotóxico contra o ex-espião Serguei Skripal, em 2018, no Reino Unido, episódio que provoca uma das maiores crises diplomáticas entre Rússia e países ocidentais desde o fim da Guerra Fria.
O atentado de sexta-feira atinge justamente o homem que, na hierarquia da inteligência militar, está logo abaixo de Igor Kostyukov, chefe do serviço e líder da delegação russa nas negociações de paz com a Ucrânia. Em um momento em que o Kremlin tenta mostrar controle sobre o campo de batalha e sobre sua máquina de segurança, o ataque expõe vulnerabilidades dentro da própria capital.
Rede de apoio e acusação à Ucrânia aumentam tensão
Os serviços de segurança russos dizem ter identificado ao menos dois cúmplices do suposto atirador. Um é preso em Moscou e apresentado como parte da logística local do atentado. Outro, segundo o FSB, consegue fugir para a Ucrânia, o que amarra o caso ao principal inimigo externo de Moscou e alimenta a narrativa de uma guerra que extrapola a linha de frente.
O governo russo já vinha acusando Kiev de orquestrar explosões, ataques com carros-bomba e emboscadas contra figuras ligadas à ocupação de territórios ucranianos. Nas regiões anexadas desde 2014, a lista de mortos inclui políticos locais instalados por Moscou, comandantes de brigadas e funcionários encarregados de administrar cidades sob controle russo. Em vários desses casos, grupos ligados à Ucrânia assumem a autoria. No episódio de Alekseyev, até agora, não há reivindicação pública de responsabilidade por parte de Kiev.
Alekseyev sobrevive aos disparos e permanece hospitalizado, segundo fontes citadas por agências russas. A condição de saúde não é detalhada, mas o fato de ele estar vivo preserva um ativo importante da inteligência militar, ao mesmo tempo que aumenta a pressão por respostas. A sobrevivência do general permite a Moscou explorar politicamente o atentado, transformando o caso em prova de que, na visão do Kremlin, a guerra com a Ucrânia é também uma disputa de bastidores, de serviços de espionagem e contraespionagem.
Os Emirados Árabes Unidos entram no centro da história com a prisão do suspeito em Dubai e sua rápida extradição. O movimento sinaliza alinhamento pontual a Moscou em um tema sensível e deve repercutir em discussões diplomáticas, num momento em que o país do Golfo busca equilibrar relações com Rússia, Ocidente e Ucrânia.
Diplomacia pressionada e segurança em alerta
A captura do suposto atirador fora do território russo expõe um campo de disputa que vai além da guerra convencional. Países que mantêm trânsito intenso de cidadãos russos e ucranianos, como Emirados, Turquia e vários europeus, já reforçam a vigilância sobre figuras políticas e militares de alto escalão. A ofensiva contra Alekseyev tende a acelerar esse movimento e a gerar novas discussões sobre extradições, pedidos de asilo e cooperação de inteligência.
Dentro da Rússia, a tentativa de matar um general de 64 anos, com histórico de operações secretas e participação em negociações de paz, oferece combustível para discursos de linha-dura. Setores próximos ao aparato de segurança devem pressionar por mais poderes internos, controles mais rígidos de circulação em grandes cidades e ações mais agressivas contra alvos considerados próximos à Ucrânia, inclusive em países terceiros.
Na frente internacional, o caso pode pesar em debates sobre sanções adicionais contra Moscou. A Rússia já enfrenta restrições financeiras, comerciais e tecnológicas desde 2014, ampliadas a partir da invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022. A sobrevivência de Alekseyev mantém em campo um operador experiente, capaz de influenciar tanto a condução da guerra cibernética quanto os bastidores de futuras conversas de paz.
O atentado também renova questões sobre a segurança de dissidentes e desertores russos no exterior. O episódio Skripal, em 2018, provoca expulsão coordenada de diplomatas russos por mais de 20 países. Um novo ataque ligado ao mesmo universo de personagens, agora em Moscou, tende a reacender temores de retaliações cruzadas e operações clandestinas em solo estrangeiro.
Interrogações sobre a guerra secreta e próximos passos
A partir desta semana, o foco se volta para o que o suspeito extraditado dirá sob custódia russa. O FSB promete apresentar provas de que o atentado é planejado com apoio ucraniano, tese que Kiev costuma rejeitar em casos semelhantes. Organizações de direitos humanos já observam com atenção as condições de detenção e a possibilidade de confissões obtidas sob pressão, em um sistema judicial pouco transparente.
O destino dos cúmplices também pode reconfigurar a próxima fase da guerra. Se Moscou insistir que um deles se esconde na Ucrânia, a acusação abre espaço para exigências formais de entrega, pedidos de captura internacional e novas camadas de tensão com governos que se vejam no papel de intermediários. Enquanto isso, o atentado contra Vladimir Alekseyev entra na contabilidade de uma guerra que, além de tanques e mísseis, se faz cada vez mais em ruas discretas, corredores diplomáticos e salas fechadas de interrogatório.
