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Chefe de gabinete de Starmer cai em crise ligada a Jeffrey Epstein

Morgan McSweeney renuncia neste domingo (8/2) ao cargo de chefe de gabinete do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, após assumir total responsabilidade pela indicação de Peter Mandelson para a embaixada do Reino Unido em Washington, nomeação hoje no centro de uma crise política alimentada por laços com o financista americano condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein.

Crise em Downing Street e a queda do “arquiteto” trabalhista

A saída de McSweeney atinge o coração político de Downing Street. O estrategista é visto como um dos principais arquitetos do renascimento do Partido Trabalhista e da vitória esmagadora que leva Starmer ao poder na eleição geral mais recente. Dentro do governo, ele funciona como operador-chave das negociações internas, das prioridades de campanha e da relação com o Parlamento.

A renúncia ocorre depois de a Polícia britânica abrir investigação criminal sobre suspeitas de que Mandelson, ex-secretário de Negócios e figura histórica do Labour, teria repassado informações sensíveis a Epstein em 2009. E-mails de 2008 e 2009, revelados em processos nos Estados Unidos, mostram que Mandelson troca mensagens com o americano quando ele já enfrenta acusações de crimes sexuais e chega a enviar recados de apoio.

Os documentos também apontam pagamentos de US$ 75 mil (cerca de R$ 390 mil) de Epstein a Reinaldo Avila da Silva, marido brasileiro de Mandelson. Após a revelação dos valores, o ex-embaixador anuncia que está deixando o Partido Trabalhista, alegando que não quer “causar mais constrangimento” a Starmer e à legenda.

No centro da controvérsia está a decisão de nomear Mandelson em 2025 para a embaixada em Washington, um dos postos diplomáticos mais sensíveis do país, sobretudo após o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. À época, a escolha é vista em vários setores políticos como aposta em um negociador habilidoso, com trânsito em capitais globais e familiaridade com a política americana.

Em sua carta de demissão, McSweeney admite que essa leitura se revela desastrosa. “A decisão de nomear Peter Mandelson foi errada. Ela prejudicou nosso partido, nosso país e a confiança na própria política”, escreve o agora ex-chefe de gabinete. Ao assumir sozinho a responsabilidade, tenta blindar o premiê e conter o desgaste interno no governo.

Starmer sob pressão e uma crise de confiança

Starmer tenta ao mesmo tempo preservar a figura de McSweeney e demonstrar controle da situação. Em declaração neste domingo, agradece publicamente o aliado. “Nosso partido e eu temos uma dívida de gratidão com ele”, afirma o primeiro-ministro, ao sugerir que a saída ocorre por senso de dever, não por ruptura política.

A oposição conservadora explora as contradições. A líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, diz que o chefe de governo “precisa assumir responsabilidade por suas próprias decisões terríveis”. O recado mira diretamente a narrativa segundo a qual McSweeney age como para-raios para proteger Starmer do custo político da indicação de Mandelson.

Dentro do Labour, a avaliação é mais ambígua. McSweeney é respeitado por ter conduzido a guinada do partido após a derrota sob Jeremy Corbyn, aproximando a sigla do centro político e de eleitores moderados. Sua queda é percebida como um sacrifício alto em nome da sobrevivência do governo, mas também como tentativa de traçar um limite claro entre o núcleo de Starmer e o passado de Mandelson.

A crise ganha outra dimensão em setembro de 2025, quando o Ministério das Relações Exteriores anuncia a demissão de Mandelson do posto de embaixador. No comunicado, a pasta afirma que novos e-mails mostram que a profundidade da relação dele com Epstein é “substancialmente diferente” do que se sabia no momento da nomeação. A partir daí, a linha oficial do governo é a de que Starmer foi enganado.

Nos últimos dias, o próprio premiê acusa Mandelson de ter mentido no processo de verificação de segurança para a embaixada e de ter deturpado o grau de proximidade com Epstein. Segundo apuração da BBC, aliados do ex-embaixador afirmam, no entanto, que ele responde de forma precisa às perguntas das autoridades e que não comete crime nem age por interesse financeiro.

O impasse expõe uma fragilidade sensível: os mecanismos de checagem de antecedentes para ocupantes de cargos estratégicos. A sequência de revelações alimenta dúvidas sobre a capacidade do governo de identificar riscos políticos e de reputação antes de formalizar nomeações desse porte.

Impacto político e rachaduras na imagem de estabilidade

A demissão do chefe de gabinete acentua uma sensação de turbulência que já vinha se instalando em Downing Street. Apesar da ampla maioria alcançada nas urnas, o governo Starmer convive com episódios sucessivos de instabilidade que lembram, em escala política, o clima típico de fim de mandato de primeiros-ministros britânicos, não o de um governo recém-chegado.

McSweeney é descrito por colegas como a peça discreta que garante coesão interna, traduz promessas de campanha em agenda de governo e organiza respostas rápidas a crises. Sua ausência reabre disputas de influência entre correntes trabalhistas, justamente no momento em que o governo tenta avançar em reformas econômicas e em uma revisão de políticas de imigração e segurança.

No Parlamento, a oposição já anuncia que pretende usar o caso para pressionar por uma revisão ampla dos procedimentos de indicação de diplomatas e altos cargos políticos. Conservadores e liberais-democratas falam em prazos mais longos de verificação, cruzamento de dados com autoridades estrangeiras e publicação de resumos das conclusões, para aumentar a transparência perante o público.

O impacto internacional também se faz sentir. A embaixada britânica em Washington, que tradicionalmente funciona como ponte estratégica com a Casa Branca em temas como comércio, defesa e cooperação em inteligência, permanece sob escrutínio. A queda de Mandelson no fim de 2025 e a renúncia de McSweeney em fevereiro de 2026 alimentam a percepção de que a política externa britânica enfrenta um período de transição delicado.

Para a imagem de Keir Starmer, o episódio corrói dois pilares centrais: a promessa de profissionalizar a gestão após anos de caos sob governos conservadores e a reivindicação de rigor ético na escolha de colaboradores. A ligação do escândalo a um condenado por crimes sexuais de alta visibilidade global, como Epstein, amplia o desgaste junto a eleitores sensíveis a temas de integridade e proteção de vítimas.

Recomposição do núcleo do poder e incertezas adiante

O primeiro desafio imediato de Starmer é encontrar um substituto capaz de reorganizar o centro de comando em Downing Street sem alimentar a impressão de um governo em permanente modo de crise. A escolha do novo chefe de gabinete precisa equilibrar lealdade política, experiência administrativa e capacidade de dialogar com diferentes alas do partido.

No campo jurídico, a investigação sobre o suposto repasse de informações a Epstein segue em curso. O andamento desse inquérito, conduzido pela polícia britânica, tem potencial para prolongar o desgaste do governo, mesmo sem indiciar figuras do alto escalão. Cada novo documento ou e-mail divulgado reaviva o debate em torno do julgamento de Starmer e da transparência de Mandelson.

O Labour tenta transformar a crise em catalisador para uma revisão dos protocolos de nomeação. Assessores discutem formas de reforçar a checagem de conflitos de interesse, inclusive em relações internacionais e financeiras anteriores à posse em cargos públicos. A questão central é se essas medidas serão percebidas como mudança estrutural ou apenas como reação tática a um escândalo específico.

No horizonte político, permanece uma dúvida incômoda em Westminster: a saída de McSweeney encerra a maior crise do governo Starmer ou apenas desloca o foco diretamente para o próprio primeiro-ministro, agora sem o para-raios que até aqui filtrava grande parte da pressão.

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