PF vê Bolsonaro apto a seguir preso na Papuda após perícia médica
A perícia médica da Polícia Federal conclui, em fevereiro de 2026, que Jair Bolsonaro tem condições clínicas de permanecer preso no Complexo da Papuda, em Brasília. O laudo frustra a principal aposta da defesa, que tenta obter para o ex-presidente o retorno à prisão domiciliar. O caso volta ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal (STF), sob forte pressão política.
Laudo esvazia estratégia da defesa e mantém foco na Papuda
O documento, elaborado a pedido de Moraes, reconhece que Bolsonaro apresenta doenças crônicas e risco de queda, mas afirma que o tratamento adequado pode ser garantido dentro da Papudinha, ala de menor porte do complexo penitenciário. Os peritos recomendam monitoramento diário, controle rigoroso da pressão arterial e acesso imediato a atendimento médico, mas descartam a necessidade de internação hospitalar ou transferência para unidade especializada.
A avaliação técnica atinge o coração da estratégia jurídica do ex-presidente, custodiado em Brasília desde a revogação da prisão domiciliar, em novembro do ano passado, após tentativa de violação da tornozeleira eletrônica. Advogados e aliados apostavam em um parecer enfático, que apontasse a impossibilidade de permanência no cárcere e criasse um caminho quase obrigatório para a volta ao regime domiciliar. O texto da PF segue outra direção.
Segundo interlocutores de Bolsonaro, o laudo registra que ele tem quadro clínico delicado, com risco aumentado de novos episódios de queda, mas afasta a tese de que a Papudinha seria incapaz de oferecer os cuidados mínimos. A perícia não analisa, em nenhum momento, a viabilidade de prisão domiciliar. Moraes não havia feito essa pergunta aos peritos, limitando o escopo à avaliação sobre a necessidade de internação hospitalar imediata e sobre as condições para tratamento dentro do sistema prisional.
Em nota, a defesa afirma que o processo pericial ainda não se encerra, porque falta o parecer de um médico indicado como assistente técnico. Os advogados sustentam que o laudo, longe de autorizar uma rotina carcerária normal, “se limita a registrar a inexistência de indicação de internação hospitalar imediata, consignando, contudo, que o quadro clínico descrito exige a observância rigorosa de medidas médicas e assistenciais específicas”. Na mesma manifestação, alertam que o texto reconhece “risco concreto de morte” em caso de falhas no acompanhamento.
Saúde, política e risco institucional se misturam no caso
A situação de Bolsonaro na Papuda se transforma em novo teste de estresse entre o Supremo e o campo bolsonarista. Aliados do ex-presidente, ouvidos sob reserva, insistem que o estado de saúde dele seria mais grave do que o descrito oficialmente e falam em tendência de piora ao longo de 2026. O laudo da PF registra “sinais e sintomas neurológicos que aumentam o risco potencial de novos episódios de queda”, o que, para esse grupo, deveria aproximar o caso do ex-presidente da decisão tomada em favor de Fernando Collor em maio de 2025, quando o STF autorizou prisão domiciliar humanitária após diagnóstico de Parkinson.
Michelle Bolsonaro evocou justamente essa comparação em conversa com Moraes, em janeiro. Segundo relatos, a ex-primeira-dama questiona o ministro sobre a possibilidade de conceder ao marido o mesmo tratamento oferecido ao ex-presidente alagoano. Moraes responde que, no caso de Collor, havia comprovação de risco elevado de queda, com diagnóstico fechado e laudos convergentes. No caso de Bolsonaro, a perícia aponta risco, pede investigação neurológica mais detalhada, mas afirma que as doenças crônicas se mantêm sob controle com medidas preventivas.
Auxiliares do ex-presidente buscam ampliar o debate para além da questão médica. Sustentam que manter Bolsonaro no cárcere representa um risco institucional para o próprio Estado brasileiro. O argumento central é político: um eventual agravamento súbito da saúde do ex-presidente, ou mesmo uma morte na prisão, recairia sobre o STF e alimentaria ainda mais a narrativa de perseguição entre apoiadores, que seguem ativos nas redes e em segmentos da direita organizada.
Integrantes do entorno de Bolsonaro também tentam minimizar a gravidade da tentativa de violação da tornozeleira eletrônica, episódio que levou Moraes a revogar a prisão domiciliar no fim de 2025. Classificam o fato como um “caso isolado” e dizem que o ex-presidente não oferece risco de fuga. A defesa, na nota divulgada após o laudo, insiste que o texto da PF não afirma que Bolsonaro “pode cumprir pena normalmente” na Papudinha, reforçando a ideia de que a estrutura da unidade só seria suficiente sob vigilância médica reforçada.
Nas redes sociais, os filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro reagem de forma imediata. Os dois defendem a prisão domiciliar e tentam ampliar a pressão sobre o Supremo. Eduardo compartilha mensagem do deputado estadual Gil Diniz (PL-SP), que acusa o tribunal de submeter Bolsonaro a condições “desumanas, ilegais e cruéis” e o chama de “vítima de atentado” condenada por um “tribunal de exceção”. O discurso mira a base bolsonarista mais fiel e tenta transformar o laudo em combustível político.
Moraes aciona defesa e PGR e adia solução definitiva
Após receber o laudo, Alexandre de Moraes determina que a defesa de Bolsonaro e a Procuradoria-Geral da República se manifestem. Os prazos correm em meio a um xadrez delicado dentro do STF. Aliados do ex-presidente acreditam que a PGR pode se posicionar a favor de uma prisão domiciliar condicionada, com regras mais duras de fiscalização, tese que teria o apoio de parte dos ministros. Outro grupo, porém, considera que o laudo da PF dá respaldo suficiente para manter o ex-presidente na Papudinha, desde que o presídio cumpra as recomendações médicas.
O histórico recente pesa. Em janeiro, depois de uma queda sofrida por Bolsonaro quando ele ainda estava detido na Superintendência da PF em Brasília, Moraes autoriza a transferência do ex-presidente para uma cela maior na Papudinha. O episódio reforça o cuidado formal do ministro com a integridade física do preso, mas não altera a linha de fundo: a prisão domiciliar continua sendo vista, por boa parte da Corte, como benefício excepcional, ainda mais depois da tentativa de violação da tornozeleira.
A decisão final de Moraes, que acumula a relatoria dos processos relacionados aos atos golpistas e à conduta do ex-presidente, vai além do caso individual. O desfecho define o padrão de tratamento para líderes políticos de alto impacto que chegam à condição de presos com quadro de saúde frágil. A maneira como o STF equilibra o direito à saúde, a disciplina do cumprimento de pena e a pressão de setores organizados da sociedade ajuda a desenhar o contorno institucional da próxima década.
Enquanto o Supremo espera as manifestações da defesa e da PGR, a rotina de Bolsonaro segue dentro da Papuda, sob monitoramento médico e vigilância reforçada. O laudo da PF, ao negar a urgência de uma mudança de regime, não encerra a disputa. A pergunta que se impõe em Brasília é outra: até que ponto a Corte está disposta a bancar politicamente a manutenção de um ex-presidente controvertido atrás das grades, mesmo quando a medicina lhe garante condições clínicas para isso?
