Satélites revelam avanço lento da Península Ibérica em direção à África
A Península Ibérica se move alguns milímetros por ano em direção ao norte da África, segundo medições recentes de satélites europeus. Estudos divulgados em 2025 confirmam que Espanha e Portugal deslizam de forma contínua sobre a crosta terrestre, em um processo imperceptível para a população, mas decisivo para entender o futuro geológico da região.
Movimento quase invisível, impacto profundo
Os satélites que monitoram a superfície terrestre registram, há mais de duas décadas, a posição exata de centenas de pontos espalhados pela Península Ibérica. Nos dados mais recentes, a movimentação média medida varia entre 3 e 5 milímetros por ano em direção ao sul, na linha que aproxima lentamente a Europa do norte da África.
O avanço é tão lento que, em um único ano, a diferença não chega à espessura de uma unha. No entanto, em cem anos, essa distância pode somar entre 30 e 50 centímetros. Em um milhão de anos, o deslocamento atinge dezenas de quilômetros. Na escala do tempo geológico, é um passo significativo em direção a uma possível colisão entre as placas que sustentam o continente europeu e o africano.
Pesquisadores que participam do monitoramento explicam que o movimento não surge de um fenômeno novo, mas de um processo antigo que só agora se torna mensurável com precisão milimétrica. “As placas tectônicas nunca ficam paradas. O que muda é a nossa capacidade de enxergar esse movimento”, afirma um geofísico ligado a um consórcio de universidades ibéricas. Equipamentos de posicionamento global, como o GPS de alta precisão, e satélites da Agência Espacial Europeia permitem comparações ano a ano desde o início dos anos 2000.
A região da Península está situada na zona de encontro entre as placas Euroasiática e Africana, uma fronteira complexa que se estende do Atlântico até o Mediterrâneo Oriental. É essa engrenagem lenta que explica cadeias de montanhas, como os Pireneus, e áreas de maior atividade sísmica no sul da Espanha, em regiões como Granada e Málaga, e no sul de Portugal, próximo ao Algarve.
Risco sísmico, planejamento e mudanças ambientais
O novo conjunto de medições reforça a necessidade de acompanhar com atenção a atividade sísmica na Península Ibérica e no estreito de Gibraltar. Embora o deslocamento anual pareça irrelevante para o dia a dia de quem vive em Madri, Lisboa, Sevilha ou Porto, o movimento contínuo acumula energia nas rochas em profundidade. Essa energia se libera em forma de terremotos, às vezes moderados, às vezes fortes.
Historiadores lembram que o terremoto de Lisboa de 1.º de novembro de 1755, estimado hoje em magnitude entre 8,5 e 9, continua como uma referência trágica. O abalo destruiu grande parte da cidade, provocou incêndios e gerou um tsunami que afetou também o sul da Espanha e o Marrocos. A ciência atual não associa esse episódio a um único ponto de ruptura, mas à dinâmica regional entre as placas. A leitura refinada dos movimentos milimétricos oferece elementos para atualizar mapas de risco e revisar normas de construção.
Autoridades urbanas e de proteção civil recorrem cada vez mais a esses dados na definição de códigos de obras, reforço de pontes, avaliação de barragens e planejamento de zonas costeiras. Uma diferença de poucos centímetros em décadas pode alterar a forma como ondas mais fortes atingem falésias, portos e infraestruturas críticas. “Não estamos falando de um cataclismo amanhã de manhã. Estamos falando de decisões tomadas hoje para evitar tragédias em 20, 30 ou 50 anos”, resume um engenheiro especializado em gestão de riscos naturais.
Os estudos também dialogam com a discussão sobre mudanças climáticas no Mediterrâneo, uma das regiões que mais aquecem no planeta, com projeções de aumento de temperatura média de até 2,2°C até 2050 em cenários pessimistas. A combinação de costa em transformação lenta, subida do nível do mar e maior frequência de tempestades cria um quadro em que cada centímetro de elevação ou rebaixamento do terreno conta. A movimentação tectônica se soma a esse conjunto e ajuda a calibrar modelos que projetam enchentes costeiras, erosão de praias e salinização de aquíferos.
Na fronteira simbólica entre Europa e África, o Estreito de Gibraltar, com cerca de 14 quilômetros em seu ponto mais estreito, segue como um corredor estratégico para navegação, migração e circulação de energia. A geologia mostra que essa distância não é fixa. Em termos humanos, não haverá uma união física entre os continentes em séculos ou milênios, mas a lenta aproximação molda bacias oceânicas, influencia correntes marinhas e interfere nos limites entre placas, com reflexos diretos em onde e como a energia sísmica se concentra.
Monitoramento constante e perguntas em aberto
O monitoramento da Península Ibérica deve se intensificar nos próximos anos, com a ampliação da rede de estações de GPS científico e o lançamento de novos satélites de observação da Terra. A previsão é que, até 2030, a resolução temporal e espacial desses dados melhore em pelo menos 50%, permitindo enxergar com maior clareza zonas que hoje aparecem como manchas de incerteza nos mapas tectônicos.
Governos locais e nacionais em Espanha e Portugal encontram, nessas medições, subsídios para políticas de longo prazo em urbanismo, obras públicas e ocupação de áreas suscetíveis a terremotos, deslizamentos ou erosão costeira. A incorporação sistemática da informação geoespacial em planos diretores ainda é desigual, mas ganha espaço em cidades que enfrentam expansão acelerada desde os anos 1990.
Cientistas veem nos resultados um laboratório natural para entender melhor como a crosta terrestre responde a forças que atuam durante milhões de anos. A Península Ibérica funciona como peça chave na engrenagem que conecta o Atlântico Norte, o Mediterrâneo e o interior da Europa. A cada milímetro medido, pesquisadores ajustam modelos numéricos, testam hipóteses e reconstroem o caminho que trouxe o continente ao formato atual, desde a fragmentação do antigo supercontinente Pangeia há cerca de 200 milhões de anos.
As próximas publicações devem trazer estimativas mais detalhadas sobre quais segmentos de falhas acumulam mais tensão e em que prazos isso pode se traduzir em abalos significativos. Nenhum estudo, porém, consegue prever a data exata de um futuro terremoto. A ciência se concentra em probabilidades, cenários e estratégias de adaptação. Resta a governos e sociedades decidir o que fazer com o conhecimento disponível enquanto a Península segue se deslocando, milímetro a milímetro, rumo a uma África que também nunca está parada.
