Irã condena Nobel da Paz Narges Mohammadi a 7 anos e meio de prisão
A Justiça do Irã condena a ativista Narges Mohammadi, Nobel da Paz, a 7 anos e meio de prisão, em decisão divulgada neste domingo (8), em Teerã. A sentença atinge uma das principais vozes contra a repressão do regime iraniano e reacende críticas internacionais às violações de direitos humanos no país.
Sentença mira símbolo da resistência iraniana
A condenação é confirmada publicamente pelo advogado de Mohammadi, Mostafa Nili, que torna a decisão conhecida após a divulgação do veredicto pelo tribunal iraniano. A ativista, de 53 anos, volta ao centro do embate entre o regime teocrático e o movimento por liberdades civis, pouco mais de um ano após receber o Nobel da Paz por sua atuação contra a pena de morte e a violência de Estado.
O novo julgamento, concluído em 8 de fevereiro de 2026, reúne diferentes acusações ligadas à sua militância: críticas abertas às autoridades, organização de campanhas por direitos das mulheres e denúncias de tortura e abusos em prisões. A pena de 7 anos e meio se soma a um histórico de processos que, ao longo de mais de duas décadas, transformam Mohammadi em alvo recorrente da máquina judicial iraniana.
Nili descreve a sentença como uma tentativa explícita de silenciar a ativista. Segundo o advogado, o tribunal ignora padrões mínimos de devido processo e trata declarações públicas de Mohammadi, entrevistas e cartas abertas como ameaças à segurança nacional. “Minha cliente é punida por falar e por se recusar a se calar”, afirma.
O caso ganha peso simbólico adicional porque a ativista já cumpre outras penas em regime de confinamento e tem o acesso a tratamento médico frequentemente restringido, segundo seus apoiadores. Organizações que acompanham a situação relatam isolamento prolongado, limitação de visitas familiares e represálias sempre que ela tenta se comunicar com a imprensa estrangeira.
Condenação aprofunda alerta sobre direitos humanos no Irã
A nova sentença é vista por especialistas como um recado direto do regime iraniano a críticos internos e à comunidade internacional. Ao atingir uma laureada com o Nobel da Paz, o país desafia abertamente apelos de governos estrangeiros e organismos multilaterais que pedem a libertação de presos de consciência. “O Irã demonstra que não aceita pressão externa e redobra a aposta na repressão”, avalia um pesquisador de direitos humanos ouvido pela reportagem.
Organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch reagem com notas duras, classificando a condenação como um grave retrocesso. Elas cobram a revogação imediata da sentença e a libertação de Mohammadi, que se torna um dos casos mais emblemáticos de perseguição política no país desde a onda de protestos deflagrada em 2022, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moral.
As críticas se estendem ao uso do sistema de Justiça como instrumento de intimidação. Relatórios recentes indicam aumento das penas por crimes vagos, como “propaganda contra o Estado” e “conluio contra a segurança nacional”, aplicados a jornalistas, estudantes, artistas e militantes. A condenação de uma figura com visibilidade global reforça a percepção de que ninguém está imune ao cerco, nem mesmo quem conta com apoio internacional robusto.
Nas redes sociais, cresce a mobilização em torno da campanha pela libertação de Mohammadi. Hashtags em persa e em inglês registram milhares de menções em poucas horas, com fotos da ativista, trechos de seus textos e depoimentos de ex-presos políticos. A repercussão amplia a pressão sobre chancelerias europeias e sobre a ONU, que já vêm sendo cobradas para adotar medidas mais duras contra Teerã.
Pressão externa, isolamento interno e incerteza sobre o futuro
O governo iraniano enfrenta, desde 2022, sucessivas ondas de protestos por liberdade política, fim da obrigatoriedade do véu e combate à desigualdade econômica. A resposta combina prisões em massa, julgamentos sumários e, em alguns casos, execuções. A nova condenação de Mohammadi se encaixa nesse padrão de repressão contínua, com impacto direto sobre a disposição de novos ativistas em se expor publicamente.
Diplomatas avaliam que a decisão pode tensionar ainda mais as já frágeis relações do Irã com países europeus e com os Estados Unidos. A cada nova sentença contra opositores, ganham força pedidos de sanções específicas contra juízes, chefes de segurança e integrantes da Guarda Revolucionária, acusados de coordenar a repressão. “O caso Narges Mohammadi tem potencial para se tornar um teste à coerência da política externa ocidental em relação ao Irã”, diz um analista consultado pela reportagem.
O desfecho imediato é previsível: Mohammadi permanece presa, sob risco de ver o tempo de cárcere ampliado se continuar a se manifestar. O efeito de longo prazo, porém, permanece em aberto. A condenação pode intimidar parte da sociedade civil, mas também tende a transformar a ativista em símbolo ainda mais poderoso, dentro e fora do país.
Enquanto tribunais anunciam novas penas e advogados recorrem a instâncias superiores, a pergunta que se impõe é se o regime conseguirá, de fato, neutralizar uma voz que já ultrapassa fronteiras físicas e políticas. O futuro da militância por direitos humanos no Irã, hoje, passa inevitavelmente pelo destino de Narges Mohammadi.
