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Professora é morta a facadas por aluno dentro de faculdade em Porto Velho

A professora de direito Juliana Mattos de Lima Santiago, 41, é morta a facadas por um aluno dentro de sala de aula em Porto Velho, na noite de sexta-feira (6). O crime, investigado como feminicídio, acontece após o fim da aula e expõe a falta de segurança em ambientes universitários.

Ataque após o fim da aula e prisão em flagrante

Juliana encerra a aula de direito na Faculdade Metropolitana de Porto Velho, por volta da noite de sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026. Alunos começam a deixar a sala, no prédio da instituição particular, na capital de Rondônia. Um estudante do 5º período permanece. Espera a professora ficar sozinha, inicia uma discussão e, na sequência, puxa uma faca.

Os golpes atingem o tórax e o braço de Juliana. Ela cai dentro da própria sala de aula, onde minutos antes discutia casos jurídicos com a turma. Colegas do curso ouvem os gritos, entram e encontram a professora ferida. Em poucos minutos, um grupo de estudantes organiza o socorro e leva Juliana para o Hospital João Paulo II, referência no atendimento de urgência em Porto Velho.

O estado de saúde é grave. A professora, que também é escrivã da Polícia Civil de Rondônia, não resiste. Morre horas depois, segundo relato repassado à imprensa neste sábado (7). A morte transforma em cena de crime um espaço que deveria ser dedicado ao debate de leis e à formação de novos profissionais.

Enquanto Juliana é atendida, o agressor tenta fugir do campus. Um outro aluno, policial militar, percebe a movimentação, reage e consegue contê-lo ainda dentro da faculdade. A prisão em flagrante é registrada na sequência, e o estudante é levado para a delegacia da capital. Neste sábado, a Justiça decreta a prisão preventiva, após pedido do Ministério Público de Rondônia.

O órgão informa que o caso é enquadrado como feminicídio, homicídio cometido contra mulher em razão de gênero, previsto na legislação brasileira desde 2015. A classificação afasta, desde o início da investigação, a ideia de um crime aleatório ou de ocasião.

Suspeita de vingança e versão contestada pela família

Ao prestar depoimento, o aluno afirma aos policiais que mantinha um relacionamento afetivo com Juliana. A versão, porém, não é confirmada por familiares da professora nem por autoridades ou pela faculdade. A divergência amplia o desconforto em torno do caso e reforça, para especialistas em violência de gênero, o risco de se naturalizar vínculos que não são reconhecidos pela vítima.

Segundo informações apuradas pelo g1 e confirmadas por investigadores, o suspeito diz ainda que age por vingança. Teria se revoltado ao saber que Juliana retoma o relacionamento com o ex-marido. A suposta motivação, relatada informalmente a colegas e formalmente à polícia, está no centro da apuração que corre na Delegacia Especializada.

O estudante também declara que a faca usada no ataque teria sido entregue por Juliana um dia antes do crime. Contou que recebe da professora um doce de amendoim em uma vasilha, junto com a faca. A informação é tratada com cautela por investigadores, que buscam imagens de câmeras de segurança da faculdade e o depoimento de pessoas próximas para reconstruir os movimentos de ambos na véspera e no dia do assassinato.

Amigos, alunos e docentes começam a se manifestar ainda na madrugada. Pelas redes sociais, ex-alunos recordam o rigor da professora com a leitura da lei e a atenção com quem tinha dificuldade em sala. Mensagens citam a “dedicação” e o “compromisso com o ensino”. A Faculdade Metropolitana divulga nota em que fala em “ataque covarde” e lamenta “um vazio irreparável” na comunidade acadêmica.

“A perda da dra. Juliana Mattos, uma docente dedicada, competente e amada por alunos e colegas, deixa um vazio irreparável em nossa comunidade acadêmica. Sua paixão pelo ensino jurídico e seu compromisso com a formação de novas gerações serão sempre lembrados com carinho e gratidão”, diz o texto divulgado pela instituição, poucas horas após a confirmação da morte.

A Polícia Civil de Rondônia também reage publicamente. A corporação, em que Juliana atua como escrivã, afirma em nota que a servidora é “profissional dedicada” e lembra a trajetória de mais de uma década no serviço público. Destaca ainda o compromisso da polícia com a investigação do caso.

Violência de gênero e segurança em salas de aula

A morte de Juliana se soma a outros episódios de violência em instituições de ensino brasileiras nos últimos anos, de ataques armados em escolas a agressões a docentes. Em comum, especialistas apontam a combinação de falhas na prevenção, ausência de protocolos claros e, em casos de violência contra mulheres, a naturalização de comportamentos de controle e perseguição.

O crime ocorre dentro de um espaço que costuma ser apresentado como seguro. Em muitas faculdades, o controle de acesso se limita à portaria e à identificação básica, sem checagem de objetos pessoais. A investigação ainda não indica em que momento o aluno entra na faculdade com a faca usada para matar a professora, mas o episódio reacende o debate sobre revistas aleatórias e monitoramento mais rigoroso de áreas internas.

Entidades de ensino superior em Rondônia e em outros estados discutem desde este sábado medidas emergenciais. Diretores avaliam o reforço de seguranças particulares, instalação de câmeras em corredores e a criação de canais de denúncia para situações de assédio e ameaça. Em grupos de professores nas redes sociais, relatos de medo se misturam à cobrança por apoio psicológico e formação específica para lidar com conflitos em sala.

Organizações que atuam no enfrentamento à violência contra a mulher veem no caso um exemplo extremo do que a legislação classifica como feminicídio, muitas vezes antecedido por sinais de controle, ciúme e perseguição. O ponto de partida das investigações, porém, continua sendo a reconstrução precisa da relação entre o aluno e a professora, hoje descrita de forma divergente pelo próprio suspeito e pela família da vítima.

Em Porto Velho, colegas de Juliana na Polícia Civil e na faculdade organizam homenagens e acompanham o avanço do inquérito. A expectativa é que novos depoimentos sejam colhidos nos próximos dias, inclusive de estudantes que estavam na aula de sexta-feira. A análise de celulares, computadores e câmeras de monitoramento deve orientar os próximos passos do Ministério Público na denúncia formal.

Investigação, responsabilização e o que muda nas universidades

Com a prisão preventiva decretada neste sábado (7), o suspeito segue em unidade prisional à disposição da Justiça. A decisão, tomada menos de 24 horas após o crime, atende ao pedido do Ministério Público e considera a gravidade do fato e o risco de fuga. A pena para feminicídio, em caso de condenação, pode chegar a 30 anos de prisão.

O caso coloca pressão sobre a direção da Faculdade Metropolitana e sobre órgãos de controle de Rondônia. Conselhos de educação e entidades de classe cobram transparência sobre o plano de segurança interna, o apoio a estudantes e professores e o acompanhamento psicológico a quem presencia o crime. A discussão inclui, ainda, a criação de protocolos para identificar comportamentos de risco e ameaças prévias a docentes.

Na esfera nacional, entidades que reúnem universidades públicas e privadas usam o episódio para reforçar pedidos antigos por políticas integradas de prevenção à violência em ambientes educacionais. Especialistas defendem a combinação de medidas físicas, como câmeras e vigilância, com ações de acolhimento e escuta ativa de mulheres que relatam perseguição ou violência dentro e fora do campus.

O assassinato de Juliana expõe de forma brutal a distância entre o discurso de proteção à mulher e a realidade dentro de instituições de ensino. A resposta das autoridades e das universidades nos próximos dias indicará se o caso produzirá mudanças concretas em protocolos de segurança ou ficará restrito às estatísticas de feminicídio no país.

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