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Despedida de Rodrigo Castanheira expõe brutalidade de espancamento no DF

Familiares e amigos se despedem neste domingo (8/2) de Rodrigo Castanheira, 16 anos, morto após 16 dias internado em estado gravíssimo, vítima de espancamento em Vicente Pires (DF). O acusado, o ex-piloto Pedro Turra, 19, está preso preventivamente na Papuda enquanto a polícia apura se o ataque foi uma emboscada motivada por ciúmes.

Despedida em clima de comoção no Lago Sul

A igreja Batista Capital, no Lago Sul, recebe desde o meio da tarde o fluxo constante de carros e abraços apertados. A cerimônia de despedida é restrita aos mais próximos, mas o movimento na portaria denuncia a dimensão da comoção que o caso provoca no Distrito Federal. Nas filas silenciosas, adolescentes de boné abaixado, pais de olhar cansado e vizinhos de Vicente Pires dividem o mesmo espanto: um menino de 16 anos morre após uma saída de festa.

Rodrigo chega ao templo já sem o tumulto que marcou seus últimos dias. Desde 23 de janeiro, quando é brutalmente agredido na saída de um evento em Vicente Pires, o adolescente luta pela vida na UTI do Hospital Brasília. Sofre traumatismo craniano severo, passa por procedimentos de emergência e permanece sedado por mais de duas semanas. A família acompanha, dia após dia, boletins médicos que falam em quadro gravíssimo, sem sinais consistentes de melhora.

Na tarde deste domingo, o silêncio da igreja contrasta com as imagens que circulam desde a madrugada do crime. Vídeos feitos por testemunhas mostram a violência dos golpes desferidos contra o jovem, já caído. O material, que choca pela insistência dos ataques, passa a ser peça central da investigação da Polícia Civil. “É um ataque prolongado, desproporcional, que vai muito além de uma briga de festa”, resume um investigador ouvido pela reportagem, sob reserva.

As coroas de flores se alinham ao redor do caixão enquanto amigos tentam reconstruir a última noite de Rodrigo. A maioria evita entrevistas, mas o sentimento se repete em sussurros no corredor: a sensação de que tudo é rápido demais, brutal demais, definitivo demais para caber em uma madrugada de janeiro. A data, 23/1, começa a marcar uma geração de jovens que passa a olhar com mais medo para convites de festas e encontros.

Do flagrante à prisão preventiva na Papuda

O crime acontece na saída de uma festa em Vicente Pires, região administrativa de classe média do Distrito Federal, marcada por condomínios fechados e ruas estreitas. Por volta da madrugada, testemunhas acionam a polícia e o socorro após presenciarem o espancamento. Rodrigo é levado em estado crítico ao Hospital Brasília. Pedro Turra, 19 anos, ex-piloto, é preso em flagrante poucas horas depois.

Na primeira decisão judicial, ele consegue responder em liberdade mediante pagamento de fiança. A medida provoca reação imediata nas redes sociais e entre moradores da região, que cobram punição proporcional à violência registrada em vídeo. À medida que o estado de saúde de Rodrigo não melhora e o caso ganha projeção nacional, o Ministério Público e a Polícia Civil passam a reavaliar o enquadramento jurídico do crime, que inicialmente é tratado como lesão corporal gravíssima.

Com a gravidade dos fatos e a repercussão do caso, a Justiça revoga o benefício e decreta a prisão preventiva de Pedro Turra. Ele é transferido para o Complexo Penitenciário da Papuda, onde ocupa uma cela individual. A mudança de status jurídico abre caminho para uma investigação mais ampla. A polícia trabalha com a possibilidade de que o espancamento não seja um ato isolado, mas parte de uma emboscada planejada contra o adolescente.

As apurações em curso apontam para um segundo jovem, que teria incentivado o ataque por motivos de ciúmes. Essa hipótese coloca o caso em outra prateleira penal, aproximando-o de possíveis qualificadoras de homicídio, como motivo torpe e impossibilidade de defesa da vítima. “Não é uma briga espontânea, é um encontro marcado com desfecho previsível”, afirma, em caráter reservado, um integrante da força-tarefa que acompanha o inquérito.

Com a morte de Rodrigo, confirmada 16 dias após o crime, a tipificação deve ser revista tanto pela Polícia Civil quanto pelo Ministério Público. Delegados e promotores discutem o enquadramento mais adequado para refletir a sequência dos fatos e o resultado final. O laudo médico que atesta o traumatismo craniano severo é considerado peça-chave para essa mudança.

Violência juvenil, redes sociais e pressão por respostas

A morte de um adolescente de 16 anos após um espancamento filmado ecoa num Distrito Federal marcado por números persistentes de agressões entre jovens. Dados da Secretaria de Segurança Pública indicam que, nos últimos anos, conflitos envolvendo esse público migram de brigas pontuais para episódios planejados, muitas vezes exibidos em tempo real nas redes. O caso de Rodrigo se encaixa nesse retrato e amplia a sensação de vulnerabilidade das famílias.

Em conversas discretas no velório, pais relatam mudanças imediatas na rotina. Há quem passe a buscar os filhos pessoalmente em festas, mesmo em condomínios fechados. Outros limitam saídas noturnas depois da meia-noite. O medo que se espalha não é apenas do desconhecido, mas de conhecidos que, em poucos minutos, se tornam autores de violência extrema. “Não é mais o perigo da rua escura. É o perigo dentro do círculo social dos nossos filhos”, comenta uma mãe, enquanto observa o vai e vem de adolescentes na igreja.

O debate sobre segurança pública volta a focar na responsabilização de jovens adultos e na prevenção de crimes cometidos por impulso, sob efeito de álcool ou motivados por disputas afetivas. Especialistas em violência juvenil ouvidos pela reportagem destacam que episódios como esse, quando ganham repercussão nacional, pressionam o poder público a revisar penas e protocolos de atuação policial. O risco, alertam, é que a resposta se limite ao endurecimento das leis, sem atacar as raízes do problema.

No entorno da Igreja Batista Capital, o tema da responsabilização surge com força. Amigos de Rodrigo defendem punição exemplar. Lideranças religiosas falam em necessidade de diálogo com adolescentes, dentro e fora das escolas, sobre violência, masculinidade e limites. Entre abraços e orações, a comunidade busca algum sentido em uma morte que, para muitos, parece sem explicação razoável.

Próximos passos da investigação e o que ainda não se sabe

Os próximos dias são decisivos para o inquérito. A Delegacia de Polícia responsável pelo caso aguarda laudos complementares, inclusive a análise detalhada dos vídeos do espancamento, para consolidar a dinâmica do crime. A oitiva de novas testemunhas deve esclarecer se houve de fato combinação prévia para atrair Rodrigo ao local e se o suposto segundo envolvido participou ativamente da agressão ou apenas incentivou o ataque.

O Ministério Público acompanha cada etapa, de olho na futura denúncia que será apresentada à Justiça. A definição do tipo de homicídio, a eventual inclusão de qualificadoras e o pedido de manutenção da prisão preventiva de Pedro Turra tendem a orientar o debate público nas próximas semanas. A defesa do acusado ainda não se manifesta detalhadamente sobre a estratégia, mas deve contestar a tese de emboscada planejada.

Na igreja do Lago Sul, a prioridade é outra. A família enterra um filho de 16 anos e tenta, como pode, voltar para casa com algo parecido com rotina. A comunidade de Vicente Pires observa à distância e se pergunta se a tragédia servirá para conter episódios semelhantes ou se será apenas mais um número frio nas estatísticas de violência. A resposta depende menos das homenagens de hoje e mais das escolhas que o sistema de justiça e o poder público farão a partir de agora.

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