Moléculas orgânicas em Marte reforçam hipótese de vida antiga
Pesquisadores da Nasa divulgam, em fevereiro de 2026, indícios de que Marte pode ter abrigado vida no passado. A pista vem de moléculas orgânicas detectadas na cratera Gale, analisadas com dados coletados em 2025 pelo robô Curiosity.
Vestígios químicos em um antigo leito de lago
Os cientistas voltam a olhar para a cratera Gale, região que já abrigou um lago há bilhões de anos, com atenção redobrada. Em março de 2025, o laboratório químico do Curiosity registra na superfície marciana pequenas quantidades de três compostos: decano, undecano e dodecano, todos hidrocarbonetos com cadeias de carbono semelhantes às de componentes de gorduras.
Essas moléculas aparecem em uma rocha sedimentar antiga, exposta na superfície há cerca de 80 milhões de anos. A equipe interpreta os compostos como possíveis fragmentos de ácidos graxos, estruturas que na Terra estão intimamente ligadas à formação de membranas celulares e à química da vida. É uma pista indireta, mas incomum para um planeta considerado hoje inóspito.
Na Terra, ácidos graxos surgem em grande parte da atividade de organismos vivos, de bactérias a animais. Também podem nascer de processos puramente geológicos, sem qualquer célula envolvida. O estudo, publicado em 4 de fevereiro na revista Astrobiology, tenta justamente separar esses dois caminhos em Marte, combinando dados de campo, experimentos e simulações numéricas.
Quando a geologia não basta para explicar os dados
A equipe parte de um cenário conservador. Se nenhuma vida jamais floresce em Marte, seria possível acumular ali a quantidade de material orgânico detectada pelo Curiosity? Para responder, os pesquisadores examinam as fontes conhecidas de compostos orgânicos não biológicos, como a queda constante de meteoritos ricos em carbono que bombardeiam o planeta ao longo de milhões de anos.
Os cientistas reproduzem em laboratório a radiação que incide sobre a superfície marciana e simulam o desgaste químico dos compostos ao longo do tempo. Em paralelo, formulam modelos matemáticos para estimar quanta matéria orgânica poderia se acumular por processos abióticos e quanto desse estoque sobreviveria após 80 milhões de anos de exposição à radiação cósmica e à fina atmosfera do planeta vermelho.
Ao voltar no tempo nesse exercício, o grupo encontra um descompasso. Os fluxos de material trazidos por meteoritos e outras fontes conhecidas não biológicas não produzem, nas contas da equipe, a abundância de decano, undecano e dodecano medida na amostra da cratera Gale. A conclusão formal do artigo é cautelosa, mas direta: “Os processos abióticos conhecidos são insuficientes para explicar a concentração observada”, afirma o texto.
Diante dessa lacuna, os autores consideram razoável a hipótese de que organismos vivos, hoje extintos, tenham contribuído para a origem das moléculas. A ideia ainda não é uma afirmação de descoberta de vida, e os próprios pesquisadores frisam esse limite. A combinação de dados, porém, desloca o debate. Já não se trata apenas de perguntar se Marte foi habitável, mas se de fato chegou a ser habitado.
Marte molhado, Marte vivo?
O novo trabalho se encaixa em um quadro mais amplo traçado por diferentes missões e sondas. Ao longo da última década, imagens de alta resolução de Valles Marineris, o maior sistema de cânions do planeta, revelam redes de canais ramificados que lembram rios terrestres. Esses canais descem de áreas elevadas e terminam em grandes depósitos de sedimentos com morfologia de deltas, típicos de rios que desembocam em mares ou lagos profundos.
Essas evidências sustentam a ideia de que Marte já teve oceanos e extensos corpos de água líquida na superfície, em volume maior do que se imaginava há poucos anos. Em um mundo com rios, lagos e, possivelmente, mares, compostos orgânicos como os detectados na cratera Gale ganham outro peso. Deixam de ser curiosidades químicas isoladas e passam a integrar um cenário de ambiente potencialmente propício ao surgimento de vida microscópica.
O Curiosity, que pousa em Marte em 2012 e ainda opera na cratera Gale, é peça central dessa reconstrução. Sua câmera Mastcam registra, por exemplo, a região conhecida como Baía de Yellowknife, interpretada como o leito de um antigo lago. É nesse tipo de ambiente que sedimentos se acumulam em camadas, preservando ao longo de bilhões de anos pistas da química local, inclusive eventuais restos de organismos desaparecidos.
Impacto científico e corrida por novas missões
A leitura de que a geologia, sozinha, não explica todos os dados reforça a agenda da astrobiologia, campo dedicado a investigar a vida no universo. Se moléculas associadas a ácidos graxos realmente apontam para atividade biológica antiga, missões futuras passam a ter um alvo mais definido: rochas sedimentares bem preservadas, em áreas onde água estável já existiu por longos períodos.
As agências espaciais enxergam nesse tipo de resultado um argumento para acelerar projetos de retorno de amostras. A própria Nasa trabalha em planos para trazer à Terra, na próxima década, rochas coletadas por outro robô, o Perseverance, em uma cratera diferente. Laboratórios terrestres podem medir com precisão muito maior a composição das moléculas, isótopos e estruturas que hoje só aparecem em espectros obtidos a distância.
O impacto ultrapassa os laboratórios. Uma eventual confirmação de vida marciana antiga mudaria livros de ciência, religaria debates filosóficos sobre o lugar da Terra no cosmos e afetaria até decisões de política espacial. Investimentos em tecnologia de exploração, hoje concentrados em poucas potências, tenderiam a crescer. Empresas privadas, que já apostam em viagens a Marte, encontrariam um ambiente regulatório mais complexo, com novas preocupações éticas sobre contaminação biológica.
O que ainda falta descobrir em Marte
Os próprios autores do estudo reconhecem que o caso permanece em aberto. É preciso testar, com novos dados, se existe algum processo não biológico ainda desconhecido capaz de gerar o excesso de compostos orgânicos observado. Também será necessário comparar as medições da cratera Gale com resultados de outras regiões do planeta, inclusive áreas onde deltas e antigos litorais marcianos parecem mais nítidos nas imagens orbitais.
À medida que novas sondas entram em operação e que o Curiosity continua a perfurar rochas marcianas, a expectativa é montar, peça a peça, a história química do planeta vermelho. Se essas moléculas forem mesmo um eco de formas de vida microscópicas que viveram há bilhões de anos, a descoberta não apenas responderá a uma pergunta antiga, como abrirá outra ainda maior: em um universo onde Marte já foi vivo, quão raro continua sendo o fenômeno que chamamos de vida?
