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Suspeito de atentado contra general russo é preso em Dubai e entregue a Moscou

Um cidadão russo nascido em 1960 é preso nos Emirados Árabes Unidos e entregue à Rússia, após ser apontado como autor dos disparos contra o general Vladimir Alekseyev em Moscou, na sexta-feira (6). O alvo, um dos homens mais influentes da inteligência militar russa, sobrevive e segue hospitalizado.

Atentado em Moscou expõe nervos à flor da pele na guerra

Os serviços de segurança russos transformam a tentativa de assassinato em peça central da narrativa sobre a guerra com a Ucrânia. O general Vladimir Alekseyev, 64, primeiro adjunto do chefe da inteligência militar Igor Kostyukov, é atingido por vários disparos em Moscou, em 6 de fevereiro, e se torna o símbolo mais recente da escalada silenciosa de operações clandestinas no conflito.

Dois dias depois, no domingo (8), o FSB anuncia a prisão do suposto atirador em Dubai e sua rápida entrega a Moscou. A operação, que depende da cooperação dos Emirados Árabes Unidos, expõe como a disputa entre Rússia e Ucrânia já ultrapassa fronteiras e alcança zonas de trânsito internacional, onde autoridades locais tentam equilibrar interesses comerciais e pressões geopolíticas.

Da cena do crime à captura em Dubai

O caso ganha forma em poucas horas. Na sexta-feira, Alekseyev é alvo de uma emboscada a tiros na capital russa. O FSB informa que o agressor foge do país e embarca rumo a Dubai, uma das principais rotas de conexão entre Rússia, Europa e Ásia. A fuga dura pouco. Segundo o órgão, o homem é detido em território emiradense e colocado em um voo de volta à Rússia, em tempo recorde, ainda antes do fim de semana prolongado em Moscou.

O FSB descreve o suspeito como “autor direto do crime” e vincula a motivação ao campo de batalha ucraniano. “A tentativa de assassinato está relacionada às ações do regime de Kiev”, afirmam autoridades de segurança, citadas pela agência russa de notícias. Kiev, até o momento, não comenta o caso. Em paralelo, os russos identificam dois cúmplices: um é preso na própria Moscou, o outro, segundo o serviço secreto, consegue fugir para a Ucrânia, onde desaparece em meio a uma guerra que já ultrapassa dois anos.

Alekseyev não é um alvo qualquer. O general ocupa o posto de braço direito de Igor Kostyukov, chefe do serviço de inteligência militar russo, o GRU, conhecido no Ocidente por sua atuação em operações de informação, guerra cibernética e ações especiais fora do território russo. Kostyukov lidera a delegação de Moscou nas negociações de paz com a Ucrânia, o que torna o ataque a seu adjunto um recado direto à cúpula militar encarregada tanto do conflito quanto das conversas diplomáticas.

O histórico de Alekseyev ajuda a explicar o peso político do atentado. Sancionado por Estados Unidos e União Europeia, ele é acusado por governos ocidentais de ter papel central em ataques cibernéticos atribuídos à Rússia. Também é apontado como um dos organizadores do ataque com agente neurotóxico contra o ex-espião russo Serguei Skripal, em Salisbury, no Reino Unido, em 2018. O Kremlin sempre nega envolvimento em ações desse tipo.

Guerra de sombras amplia riscos e pressões diplomáticas

A tentativa de assassinato ocorre em meio a uma sequência de mortes e ataques contra militares e autoridades em áreas controladas pela Rússia, dentro e fora da Ucrânia. Nas regiões ocupadas, prefeitos, parlamentares locais e oficiais ligados a Moscou passam a viver sob permanente vigilância, enquanto explosões, carros-bomba e ataques com drones entram na rotina. Parte dessas ações é reconhecida por Kiev como operações de resistência contra a ocupação russa.

O caso Alekseyev adiciona um componente sensível a essa guerra de bastidores. Quando um general da inteligência sobrevive por pouco a disparos na capital russa, a mensagem para a elite de segurança do país é clara: nem mesmo os níveis mais altos da cadeia de comando estão protegidos. Em resposta, especialistas preveem aumento imediato das medidas de segurança em Moscou, reforço na proteção a oficiais e embaixadores e endurecimento do discurso público de Vladimir Putin contra o governo ucraniano.

A cooperação dos Emirados Árabes Unidos na captura e entrega do suspeito também entra no radar diplomático. O país mantém laços comerciais estreitos com a Rússia, receberá investimentos bilionários em energia e infraestrutura e busca, ao mesmo tempo, preservar imagem de mediador pragmático entre potências rivais. Ao colaborar com Moscou em um caso tão sensível, Abu Dhabi envia sinal de alinhamento operacional, ainda que tente manter distância formal da guerra.

O conflito ganha nova camada de complexidade. Não se trata apenas de batalhas de artilharia e drones no leste ucraniano, mas de uma disputa que envolve serviços secretos, canais financeiros, sistemas de sanções e redes de influência espalhadas por capitais como Dubai, Istambul, Viena e Genebra. Cada atentado ou operação clandestina vira argumento extra na disputa por apoio internacional, financiamento militar e narrativas de legitimidade.

Investigação em curso e incertezas sobre reação russa

Os próximos dias devem ser dedicados a consolidar a versão russa sobre o atentado. O FSB promete divulgar detalhes da investigação, incluindo depoimentos do suspeito e o papel dos cúmplices rastreados em Moscou e na Ucrânia. Promotores militares se preparam para abrir processo por terrorismo e tentativa de homicídio qualificado, com penas que podem ultrapassar 20 anos de prisão.

Alekseyev continua hospitalizado, e seu estado de saúde é tratado como informação sensível. Qualquer boletim médico mais preciso terá impacto direto no tom da resposta oficial. Se o general se recuperar sem sequelas graves, o Kremlin tende a explorar a sobrevivência como prova de resiliência. Caso surjam complicações, aumenta a pressão por uma resposta mais dura, seja no campo de batalha, seja por meio de novas operações clandestinas.

Analistas em Moscou e nas capitais ocidentais observam com atenção o uso político do episódio. A Rússia pode apontar o atentado como justificativa para intensificar ataques contra infraestrutura ucraniana, enquanto Kiev, se negar envolvimento, tentará evitar que o caso desgaste seu apoio em países que cobram limites na escalada do conflito. Governos europeus e os Estados Unidos medem o impacto sobre negociações de paz já frágeis, lideradas justamente pela equipe à qual Alekseyev está subordinado.

O episódio deixa uma pergunta em aberto: até onde a guerra entre Rússia e Ucrânia está disposta a avançar no terreno das operações de inteligência e dos atentados seletivos, e qual será o custo disso para a segurança além das fronteiras do conflito?

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