Trump planeja usar pente-fino para fraudar eleições de meio de mandato nos EUA
O supremacista branco Donald Trump prepara, para 2026, uma ofensiva sem precedentes contra o sistema eleitoral dos Estados Unidos. Amparado por aliados republicanos e por autoridades federais, o ex-presidente articula um pente-fino nacional nas listas de eleitores com potencial para barrar votos de cidadãos legítimos nas eleições de meio de mandato.
Plano nasce de crise fabricada e de invasão no Minnesota
O desenho da manobra ganha forma durante a invasão do Minnesota por milicianos da ICE, a polícia migratória federal. Enquanto tropas ocupam ruas e multiplicam abordagens violentas, o governo Trump oferece uma saída às autoridades estaduais: a redução da escalada repressiva em troca do acesso integral aos registros de eleitores do estado.
A proposta rompe uma pedra de toque da democracia americana. Desde o século 18, cada um dos 50 estados organiza suas próprias eleições, define regras de registro de eleitores e administra a contagem de votos, sem uma autoridade nacional eleitoral e sem equivalente à Justiça Eleitoral brasileira. A Casa Branca, agora sob Trump em seu segundo mandato, tenta inverter essa lógica, abrindo caminho para uma espécie de polícia federal do voto sob comando direto do presidente.
Trump alega combater um inimigo quase inexistente: o voto de imigrantes irregulares. O discurso reaparece em comícios e entrevistas, apoiado por think tanks conservadores e pela máquina de desinformação que o cercou desde 2016. O alvo declarado são “não cidadãos” que, segundo o presidente, invadem as urnas e distorcem resultados. O alvo real, apontam especialistas, são eleitores americanos pobres, negros, latinos e jovens, historicamente mais próximos do Partido Democrata.
O tom de urgência busca justificar medidas extraordinárias. O governo menciona “fraude massiva” e “eleições roubadas”, sem apresentar provas. Trump explora o medo de parte do eleitorado branco e rural e associa imigração, crime e fraude eleitoral em uma única narrativa. A operação no Minnesota se torna laboratório para algo mais amplo: um modelo de cooperação forçada entre estados e governo federal que, na prática, permite reclassificar em massa eleitores como irregulares.
Números desmontam narrativa de fraude, mas alimentam ofensiva
O discurso do presidente colide com os dados disponíveis, inclusive produzidos por seus próprios aliados. A Heritage Foundation, think tank que assina o Projeto 2025, plano detalhado de poder que orienta o segundo mandato de Trump, mantém um banco de dados público sobre fraude eleitoral desde os anos 1980. Uma busca pela palavra “alien”, usada para identificar estrangeiros sem cidadania, revela apenas 41 casos de imigrantes ilegais que votaram entre 2003 e 2006.
Um levantamento independente do Bipartisan Policy Center revisa esses registros linha a linha. O centro encontra 77 casos de não cidadãos que votaram entre 1999 e 2023, em um universo de dezenas de milhões de votos. Outro estudo da mesma instituição analisa 23,5 milhões de votos na eleição presidencial de 2016 e identifica 77 exemplos de participação irregular de não cidadãos, entre cerca de 136 milhões de eleitores. A proporção, na prática, se aproxima de zero.
Pesquisadores destacam o óbvio: para votar ilegalmente, um imigrante sem documentos precisa enganar autoridades duas vezes, no registro e na seção eleitoral. Pessoas que vivem na clandestinidade evitam contato com agentes do Estado, sobretudo em um ambiente hostil, marcado por deportações em massa e por operações da ICE. “A ideia de fraude migratória em larga escala é um mito funcional, não um diagnóstico”, resume um especialista ouvido por organizações de direitos civis.
Mesmo esvaziados pelos números, os argumentos de Trump cumprem uma função política central. Servem de pretexto para cruzar bases de dados federais e estaduais, revisar cadastros em tempo recorde e criar barreiras burocráticas ao voto. A reclassificação de eleitores como “suspeitos” ou “irregulares” não precisa ser precisa; basta ser ampla o bastante para alterar margens apertadas em estados decisivos, como Geórgia, Wisconsin, Arizona e Pensilvânia.
O histórico alimenta a suspeita de que a intenção é menos corrigir eventuais falhas e mais fabricar resultados. Em 2020, após perder a reeleição, Trump liga para o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, e pede que ele “encontre” 11.780 votos, número exato que o faria virar o estado. O republicano se recusa a participar da fraude e registra a pressão. Agora, cercado por leais que ocupam postos-chave em cartórios eleitorais locais, no Congresso e na Suprema Corte, o presidente aposta que não enfrentará novas resistências internas.
Risco de apagão democrático e reação ainda incerta
A expectativa de um pente-fino nacional em 2026 reabre o fantasma de uma crise institucional ainda mais profunda que a de 2020. A possibilidade de cancelamento em massa de títulos, purgas silenciosas em áreas urbanas e disputas judiciais sobre quem tem ou não direito de votar ameaça paralisar a contagem dos votos e alimentar denúncias cruzadas de golpe. Organizações civis veem na ofensiva um ataque frontal ao coração da democracia americana, baseada na premissa de que cada cidadão adulto tem um voto e consegue exercê-lo sem intimidação.
Trump joga com a correlação de forças. O Partido Republicano controla o Congresso e ocupa a maioria das cadeiras na Suprema Corte, após anos de nomeações ideológicas. A sinalização de que apoiadores que cruzarem a linha da lei serão anistiados, como no caso dos invasores do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, reduz o custo político de práticas abertamente antidemocráticas. Funcionários eleitorais, juízes locais e secretários de Estado receosos de enfrentar a base trumpista pensam duas vezes antes de barrar iniciativas federais.
O campo democrático, dentro e fora dos EUA, busca saídas em uma arena cada vez mais estreita. Grupos de defesa de direitos civis preparam ações preventivas, mapeiam estados com maior risco de exclusão em massa de eleitores e pressionam por transparência em qualquer cruzamento de dados entre governo federal e administrações estaduais. Governadores democratas estudam medidas para blindar cadastros locais e impor salvaguardas a qualquer revisão promovida sob pressão da Casa Branca.
A confiança internacional na democracia americana, já abalada ao longo da última década, entra em novo ciclo de teste. Embaixadas acompanham a escalada com atenção, enquanto analistas de risco calculam o impacto de uma contestação generalizada dos resultados de meio de mandato sobre mercados, tratados internacionais e a própria credibilidade dos Estados Unidos como defensor de regimes democráticos no exterior.
A disputa de 2026 se transforma em referendo sobre os limites do poder presidencial e sobre a capacidade das instituições americanas de conter um projeto abertamente autoritário. A resposta ainda está em aberto. Resta saber se haverá, nos estados, nos tribunais e nas ruas, gente disposta a dizer não a um presidente que já demonstrou estar disposto a reescrever as regras do jogo para não voltar a perder.
