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Irã diz preferir diplomacia, mas afirma estar pronto para guerra com EUA

O chanceler iraniano Seyed Abbas Araghchi declara nesta sexta-feira (7) que o Irã está “mais preparado do que nunca” tanto para a diplomacia quanto para a guerra com os Estados Unidos. Em entrevista à Al Jazeera, ele reafirma o direito de Teerã ao enriquecimento de urânio e avisa que uma eventual resposta militar miraria bases americanas na região, não o território dos EUA.

Diplomacia em curso sob ameaça de conflito

Araghchi fala em meio a uma nova rodada de tensão em torno do programa nuclear iraniano, que volta ao centro da disputa entre Teerã e Washington em 2026. A entrevista, enviada pela chancelaria iraniana via Telegram, ocorre após a primeira rodada de conversas indiretas mediadas pelo Sultanato de Omã, no Golfo Pérsico, interrompidas nesta semana.

O ministro descreve aos americanos um cenário binário. “Vocês têm duas opções: guerra ou diplomacia. Nossa escolha é a diplomacia”, afirma. A frase resume a estratégia iraniana de sinalizar disposição para negociar, enquanto deixa claro que o país se prepara para um possível confronto militar.

Araghchi reconhece que o risco de conflito permanece elevado. “A possibilidade de guerra sempre existe, e estamos preparados para evitá-la”, diz. Em seguida, reforça que o governo considera inevitável preparar-se para o pior cenário ao mesmo tempo em que tenta contê-lo. “Estamos mais preparados do que nunca para ambos os cenários”, afirma.

As declarações chegam num momento em que o governo americano endurece o cerco econômico ao Irã, por meio de ordens executivas que ampliam a possibilidade de tarifas extras sobre países que comprem bens e serviços iranianos. A nova arquitetura de sanções mira não apenas Teerã, mas também parceiros comerciais que, direta ou indiretamente, mantenham negócios com a República Islâmica.

O alerta de Araghchi repercute também nos mercados. Na sexta-feira, preços de ativos ligados a energia voltam a subir, refletindo o temor de que um impasse nas negociações abra espaço para um confronto militar ou para algum tipo de bloqueio no Estreito de Ormuz. Por ali passam cerca de 20% do petróleo comercializado diariamente no mundo, segundo estimativas de agências internacionais ao longo da última década.

Nuclear no centro da mesa, mísseis fora da discussão

O chanceler deixa claro que, até agora, as conversas com os Estados Unidos tratam apenas do programa nuclear. A primeira rodada ocorre de forma indireta, com omanis levando e trazendo recados entre as delegações instaladas em salas separadas. A data da segunda rodada ainda não é definida, mas Araghchi diz acreditar que os encontros sejam retomados “nos próximos dias”.

Teerã insiste em que não aceita qualquer exigência de “enriquecimento zero” de urânio, uma fórmula defendida por alas em Washington como condição para aliviar sanções. “O enriquecimento é um direito nosso e deve continuar”, afirma o ministro. Ele tenta desmontar a ideia de que um ataque militar poderia liquidar a capacidade nuclear iraniana. “O enriquecimento não é eliminado por bombardeios. A tecnologia não é eliminada por bombardeios”, diz.

O debate atual resgata impasses que marcaram o acordo nuclear firmado em 2015, quando o Irã aceitou limitar o nível de enriquecimento em troca de alívio nas sanções internacionais. A saída unilateral dos Estados Unidos do pacto, em 2018, sob o governo Donald Trump, abriu caminho para que Teerã retomasse atividades mais sensíveis e ampliou a desconfiança mútua. Em 2026, a discussão reaparece com menos margem de confiança e mais desconfiança pública de ambos os lados.

Araghchi impõe ainda outras linhas vermelhas. Ele descarta qualquer negociação sobre o programa de mísseis, definido como “exclusivamente defensivo”. Questionado sobre a possibilidade de incluir conflitos regionais ou temas internos na agenda, responde que essas questões não fazem parte do diálogo com potências estrangeiras. A mensagem é que o Irã aceita falar de urânio, mas não de sua postura militar ou de política doméstica.

O chanceler também tenta calibrar o alcance de uma eventual escalada militar. Segundo ele, uma resposta iraniana a um ataque americano teria alvos limitados. “Se os EUA atacarem, não atacaremos seu território. Responderemos às suas bases na região”, afirma. A promessa busca sinalizar que Teerã não pretende transformar uma eventual confrontação em guerra aberta com os Estados Unidos, nem arrastar diretamente países vizinhos para o conflito.

Mercados em alerta e incerteza sobre próximos passos

A combinação de retórica bélica e promessa de diálogo aumenta a volatilidade em um tabuleiro já congestionado no Oriente Médio. Investidores reagem à possibilidade de interrupções em fluxos de petróleo e gás no Golfo, enquanto governos da região avaliam o que significaria ver bases americanas sob risco de ataque. O Estreito de Ormuz, a menos de 50 quilômetros da costa iraniana em alguns pontos, volta a ser visto como potencial gargalo para o comércio global de energia.

Analistas ouvidos por canais regionais lembram que qualquer choque na região tende a afetar o preço do barril em questão de horas, como ocorreu em crises anteriores envolvendo Irã, Iraque e países do Golfo. Em 2019, ataques a instalações sauditas reduziram temporariamente a produção global em cerca de 5%, segundo a Agência Internacional de Energia, e fizeram o petróleo saltar mais de 10% em um único pregão. A percepção atual é de que um confronto direto entre Irã e Estados Unidos poderia ter impacto ainda maior.

A mediação de Omã torna-se peça-chave para evitar esse cenário. O sultanato, que historicamente atua como canal discreto entre Teerã e Washington, tenta reconstruir uma base mínima de confiança para destravar um acordo “justo e abrangente”, nas palavras de Araghchi. “Estamos prontos para realizar rapidamente as negociações e chegar a um acordo justo e abrangente”, diz o chanceler, sem detalhar quais concessões o Irã estaria disposto a fazer.

Governos europeus acompanham as conversas com preocupação, temendo um novo abalo no regime internacional de não proliferação nuclear. Cada rodada fracassada de diálogo aumenta a sensação de que o Oriente Médio pode se aproximar de uma corrida atômica, com impactos diretos sobre alianças militares, vendas de armas e a própria presença dos Estados Unidos na região.

O futuro das negociações depende agora de dois movimentos paralelos: a disposição da Casa Branca em aliviar parte das sanções para obter limites verificáveis ao programa nuclear iraniano e a capacidade de Teerã de convencer seu público interno de que qualquer concessão não significa capitulação. Entre a promessa de diplomacia e a preparação para a guerra, permanece a dúvida sobre qual dessas trilhas falará mais alto quando as delegações voltarem à mesa.

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