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Portugal vota sob tempestade em eleição chave contra extrema-direita

Portugal vai às urnas neste domingo (8) para o segundo turno das eleições presidenciais, em meio à tempestade Marta e à expectativa de vitória de António José Seguro. O candidato de esquerda enfrenta André Ventura, líder emergente da extrema-direita, em uma disputa tratada como plebiscito sobre os rumos da democracia portuguesa.

País dividido entre contenção e avanço da extrema-direita

As últimas pesquisas divulgadas antes da votação apontam uma vantagem confortável para Seguro. Os levantamentos indicam entre 50% e 60% das intenções de voto para o ex-líder socialista, praticamente o dobro do índice atribuído a Ventura. Cerca de dois terços dos entrevistados afirmam que não votariam no candidato de direita em nenhuma circunstância.

O favoritismo de Seguro não se explica apenas pelo eleitorado tradicional de esquerda. Nas últimas semanas, figuras de peso da centro-direita portuguesa declararam apoio explícito ao candidato, numa frente ampla montada para bloquear a chegada da extrema-direita ao Palácio de Belém. O gesto rompe alinhamentos históricos e explicita o grau de preocupação com a escalada de Ventura, que passou de comentarista esportivo carismático a protagonista central da política nacional.

Ventura reage com indignação. O dirigente da direita radical afirma estar “estupefato” com o movimento de conservadores em direção a Seguro e acusa o sistema político de se unir apenas para impedi-lo. O discurso alimenta a narrativa de outsider perseguido, que o acompanha desde a estreia eleitoral e que encontra eco num segmento crescente do eleitorado, em sintonia com a expansão da extrema-direita em vários países europeus.

A campanha se encerra em clima de urgência democrática. A escolha do presidente, cargo que muitos ainda veem como sobretudo simbólico, ganha contornos decisivos pela combinação de crise política recorrente e fragmentação partidária. Nos últimos dez anos, o país assiste ao surgimento de novos partidos, ao enfraquecimento de siglas tradicionais e a sucessivos impasses no Parlamento, cenário em que o poder de arbitragem do chefe de Estado volta ao centro do debate.

Poder presidencial em jogo e país sob tempestade

O peso institucional da eleição ajuda a explicar a mobilização em torno de Seguro e o temor em relação a Ventura. Embora a presidência portuguesa seja formalmente limitada, a Constituição permite ao chefe de Estado dissolver o Parlamento, demitir o governo, convocar eleições antecipadas e vetar leis aprovadas pelos deputados. Esse arsenal ganha relevo em tempos de instabilidade e amplia o alcance concreto do voto de domingo.

O atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, no cargo desde 2016, é exemplo dessa influência. Impedido pela Constituição de disputar um terceiro mandato consecutivo de cinco anos, ele usou o poder de dissolução em três momentos recentes: 2021, 2023 e 2025. Cada decisão abriu novas eleições legislativas e redefiniu o mapa político, ora fortalecendo, ora fragilizando governos de diferentes espectros ideológicos.

Nesse contexto, uma vitória de Seguro tende a consolidar uma espécie de coalizão antifascista informal, unindo socialistas, setores liberais e conservadores moderados em torno da defesa da ordem democrática. A avaliação de aliados é que sua eleição funcionaria como barreira institucional ao avanço da extrema-direita e reduziria a probabilidade de confrontos abertos entre governo e Presidência em futuras crises.

O crescimento de Ventura, porém, não se torna irrelevante mesmo com a perspectiva de derrota. Pesquisas sugerem que ele dobra ou consolida sua base em relação a disputas anteriores e amplia influência sobre a agenda pública. Um resultado robusto, ainda que minoritário, tende a pressionar partidos tradicionais a deslocarem o discurso para a direita em temas como imigração, segurança e políticas sociais, movimento já visível em outros países europeus.

A tempestade Marta acrescenta uma camada de tensão. Chuvas intensas, ventos fortes, trovões e episódios de neve castigam a Península Ibérica há semanas, afetando estradas, linhas elétricas e comunidades rurais. Em Portugal, três cidades são obrigadas a adiar a votação presidencial deste domingo para a próxima semana por falta de condições mínimas de segurança. O restante do país mantém o calendário, sob um aparato de emergência sem precedentes.

As autoridades mobilizam mais de 26.500 socorristas para lidar simultaneamente com enchentes, quedas de árvores, deslizamentos e eventuais problemas de acesso aos locais de votação. O governo insiste que o dispositivo garante eleições seguras, enquanto opositores questionam a igualdade de condições para eleitores afetados pelo mau tempo. A discussão expõe a capacidade, e os limites, do Estado em proteger o processo democrático diante de choques climáticos cada vez mais frequentes.

Democracia testada e próximos capítulos

A disputa entre Seguro e Ventura se transforma em teste de estresse para as instituições portuguesas. Uma vitória expressiva do candidato de esquerda reforça o atual eixo político e tende a dar fôlego a políticas progressistas na área social, na transição energética e na relação com a União Europeia. Governos de perfil semelhante em Lisboa e um presidente alinhado em grandes temas reduziriam o risco de vetos sistemáticos e de bloqueios na aprovação de reformas.

Setores empresariais e financeiros acompanham o desfecho com atenção, de olho na previsibilidade regulatória e na gestão da dívida pública. Uma Presidência disposta a evitar rupturas abruptas em meio às tempestades econômicas globais é vista como elemento de estabilidade. Ao mesmo tempo, movimentos sociais e sindicatos esperam que um mandato de Seguro no Palácio de Belém sirva como contrapeso a eventuais políticas de austeridade adotadas por futuros governos.

Os números de Ventura, qualquer que seja o resultado final, podem reconfigurar a paisagem política nas próximas legislativas. Um desempenho forte alimenta a hipótese de coligações à direita em governos regionais e nacionais, pressiona partidos tradicionais a rever alianças e normaliza a presença da extrema-direita em espaços de poder. O efeito ultrapassa as fronteiras portuguesas e entra no radar de Bruxelas, Madrid, Paris e Berlim, onde o avanço de forças semelhantes já provoca sobressaltos.

A contagem dos votos promete ser rápida, mas as consequências se desdobram por anos. Se confirmado o favoritismo de António José Seguro, Portugal envia um recado de contenção à extrema-direita, sem neutralizar o seu crescimento estrutural. Se a diferença encurta além do previsto, Ventura ganha argumento político para se apresentar como alternativa inevitável em futuras crises.

Com parte do território ainda debaixo de chuva e ventos fortes, o país testa ao mesmo tempo a resiliência física e a institucional. As urnas definem quem terá, a partir de agora, a chave para dissolver parlamentos, convocar novas eleições e arbitrar conflitos que ainda nem estão no horizonte. A tempestade passa; a interrogação sobre a força duradoura da democracia portuguesa permanece.

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