Ciencia e Tecnologia

Buraco negro ejeta jato de matéria há 6 anos após devorar estrela

Um buraco negro supermassivo a 665 milhões de anos-luz da Terra ejeta, há seis anos, um jato poderoso de matéria após destruir uma estrela anã vermelha. O fenômeno, monitorado por uma equipe internacional liderada pela astrofísica Yvette Cendes, da Universidade de Oregon, desafia o que a ciência entende hoje sobre o comportamento desses objetos extremos.

Uma “indigestão” cósmica sem precedentes

O caso ganha forma em 7 de fevereiro de 2026, com a publicação dos dados mais recentes no periódico Astrophysical Journal. O estudo mostra que o buraco negro, com cerca de 5 milhões de vezes a massa do Sol, continua a expelir matéria da estrela destruída em um jato de altíssima velocidade, chamado de jato relativístico. A explosão de energia já dura mais do que qualquer evento parecido observado até hoje.

O evento começa de forma quase silenciosa. Uma anã vermelha, com apenas um décimo da massa do Sol, se aproxima demais do centro da própria galáxia, muito além da Via Láctea. A gravidade extrema do buraco negro rasga a estrela, gás por gás, em um processo conhecido como ruptura por maré. A maior parte dos detritos cai para dentro, mas uma fração do material é lançada para fora, em um feixe estreito e violento.

A surpresa não está apenas na violência do encontro, comum em centros galácticos. O inusitado é o atraso e a persistência da resposta do buraco negro. O jato de matéria só começa a ser detectado dois anos depois da destruição inicial da estrela, e segue aumentando em brilho há seis anos. Em vez de um clarão rápido, os telescópios veem uma espécie de queima lenta e contínua.

“O aumento exponencial na luminosidade dessa fonte é sem precedentes. Agora ela é cerca de 50 vezes mais brilhante do que quando foi descoberta e brilhante para um objeto que está em ondas de rádio”, afirma Cendes. “Isso vem acontecendo há anos e não há sinais de que vá parar. Isso é super incomum”, completa.

O comportamento é flagrado principalmente por radiotelescópios no Novo México, nos Estados Unidos, e na África do Sul. São antenas capazes de captar ondas de rádio emitidas por partículas carregadas aceleradas a velocidades próximas à da luz. Nesse caso, o sinal vem de uma região minúscula em escala cósmica, nas imediações do chamado horizonte de eventos, o ponto sem retorno em torno do buraco negro.

Por que esse jato muda o jogo na astrofísica

Buracos negros que destroem estrelas não são novidade. A ruptura por maré já aparece em dezenas de registros astronômicos, quase sempre ligada a um clarão que surge, atinge o pico de brilho e depois some em poucos meses ou anos. O que acontece agora foge desse padrão. A fonte em rádio não só persiste como fica mais intensa com o tempo, em um comportamento que intriga os pesquisadores.

A explicação passa por um detalhe essencial: nem todo o material da estrela cruzou o horizonte de eventos. Uma parte permanece em órbita, aquecida, sendo acelerada e parcialmente rejeitada pelo buraco negro. “Depois que a estrela foi destruída, parte desse gás caiu em direção ao buraco negro e se aqueceu, e o buraco negro começou a consumir a estrela”, explica Kate Alexander, astrofísica da Universidade do Arizona e coautora do estudo. “A luz de rádio brilhante que vemos com nossos telescópios é produzida por matéria estelar que se aqueceu, mas nunca cruzou o horizonte de eventos — como um bebê exigente que mastiga a comida e a cospe violentamente, em vez de engoli-la”, compara.

Em linguagem simples, o buraco negro não consegue digerir tudo o que engole. Ao interagir com campos magnéticos extremamente intensos ao seu redor, parte da matéria é canalizada para fora em jatos estreitos, lançados em direções opostas. Essas estruturas recebem o nome de jatos relativísticos porque o material viaja a frações significativas da velocidade da luz, de quase 300 mil quilômetros por segundo.

Mesmo com o evento sob vigilância há seis anos, o mecanismo exato que liga essa “torneira” de matéria ainda escapa à compreensão completa. “Quanto ao que causa o jato relativístico em primeiro lugar, na verdade não sabemos, e essa é uma área ativa de pesquisa”, admite Cendes. “Provavelmente tem algo a ver com campos magnéticos ao redor do buraco negro, mas também claramente deve ser algo incomum, ou então veríamos mais deles”, afirma.

O caso ganha peso por outro motivo: pode obrigar a revisar modelos usados para descrever como buracos negros crescem e como influenciam as galáxias que os abrigam. Jatos relativísticos transportam energia e matéria para longe do centro galáctico, aquecem gás interestelar, podem disparar ou frear o nascimento de novas estrelas e moldam, em última instância, a evolução de uma galáxia inteira. Um único evento tão poderoso e duradouro altera o balanço dessa conta.

Os números ajudam a dimensionar a escala envolvida. O buraco negro tem massa comparável ao objeto central da Via Láctea, conhecido como Sagitário A*, estimado em 4 milhões de vezes a massa do Sol. O jato atual aparece cerca de 50 vezes mais brilhante em rádio do que no momento em que foi identificado. Mesmo a distância de 665 milhões de anos-luz, ou 9,5 trilhões de quilômetros multiplicados por 665 milhões, a assinatura é clara nos instrumentos.

O que os cientistas esperam ver nos próximos anos

O grupo de Cendes e Alexander trabalha com um horizonte definido: o brilho do jato não aumenta para sempre. Os modelos sugerem que a fonte pode atingir o pico até o fim de 2026 ou, no máximo, em 2027. A partir daí, a tendência é de queda lenta, em um processo que ainda deve ser visível por uma década ou mais nos radiotelescópios.

“Depois que a transferência atingir o pico, ela deve diminuir lentamente, então provavelmente ainda poderemos vê-la por uma década ou mais”, projeta Alexander. Esse tempo extra é um prêmio raro para os astrônomos. Em vez de um flash fugaz, eles ganham um laboratório natural de longa duração para testar teorias sobre jatos, campos magnéticos e o comportamento da matéria sob gravidade extrema.

Os próximos anos devem combinar observações em múltiplos comprimentos de onda. Radiotelescópios no hemisfério norte e sul seguem acompanhando a evolução do jato, enquanto instrumentos ópticos e de raios X tentam registrar possíveis variações no disco de gás que alimenta o buraco negro. Cada mudança no brilho, na forma do espectro ou na velocidade aparente da matéria ejetada ajuda a refinar modelos teóricos.

O interesse internacional cresce à medida que o evento se consolida como um dos mais energéticos já vistos em um único objeto. Grupos na Europa, na Ásia e nas Américas tentam encaixar o comportamento observado em simulações numéricas cada vez mais sofisticadas. A dificuldade em reproduzir a intensidade e a duração do jato sugere que há peças importantes faltando no quebra-cabeça, possivelmente ligadas à topologia dos campos magnéticos ou à geometria exata do disco de acreção.

Ainda não está claro se esse buraco negro é uma exceção extrema ou o primeiro exemplo bem documentado de um tipo de evento mais comum, mas difícil de flagrar. A resposta pode redefinir o papel dos buracos negros supermassivos na história das galáxias. Até lá, o jato que começou com a morte discreta de uma anã vermelha segue, à distância de centenas de milhões de anos-luz, como uma lembrança diária de que o universo continua a testar os limites da física conhecida.

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