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Portugal vai às urnas em segundo turno presidencial raro após 40 anos

Portugal decide neste domingo (8) quem será o próximo presidente da República, num raro segundo turno entre António José Seguro e André Ventura. A votação ocorre das 8h às 19h, horário local, em meio a um cenário de forte polarização e fragmentação política.

Segundo turno expõe fragmentação e cansaço político

Os portugueses voltam às urnas menos de três semanas após o primeiro turno de 18 de janeiro, quando nenhum dos 11 candidatos superou os 50% dos votos. É a primeira vez em quatro décadas que a escolha do chefe de Estado exige uma segunda volta, num país acostumado a ver o presidente eleito de primeira.

António José Seguro, 63, ex-líder do Partido Socialista, lidera a disputa após ter obtido pouco mais de 31% no primeiro turno. André Ventura, 43, fundador do partido Chega, alcança o segundo turno com 23,5% dos votos e tenta converter capital político acumulado em sete anos de ascensão da direita radical.

A participação de 52% registrada na primeira votação é a mais alta em uma eleição presidencial em 15 anos. O dado indica que o cargo, ainda que visto como sobretudo simbólico, ganha peso num país submetido a sucessivas eleições nacionais desde 2024 e a crises políticas recorrentes no Parlamento.

As urnas abrem às 8h e fecham às 19h em todo o território português, o que corresponde ao intervalo entre 5h e 16h em Brasília. Depois desse horário, só podem votar eleitores já presentes nas assembleias de voto. A expectativa é que as primeiras projeções saiam ainda na noite deste domingo.

Duas visões de Presidência em choque

Seguro retorna ao centro da cena política após mais de uma década afastado. Ele deixa a liderança do Partido Socialista em 2014, derrotado por António Costa, que comandou o governo entre 2015 e 2024. Em junho do ano passado, anuncia a candidatura ao Palácio de Belém com a promessa de uma esquerda “moderna e moderada” capaz de reduzir tensões institucionais.

A campanha explora o sobrenome do candidato com slogans como “voto seguro” e “futuro seguro”, numa tentativa de transmitir estabilidade após anos de dissoluções do Parlamento e mudanças de governo. O atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, eleito em 2016 e reeleito em 2021, recorre três vezes ao poder de dissolver a Assembleia da República, convocando eleições antecipadas em 2021, 2023 e 2025.

O socialista se posiciona como fiador de uma Presidência discreta, mas ativa na mediação. Ele promete usar a influência do cargo para evitar novas crises como as que levaram às eleições legislativas antecipadas de 2024 e 2025 e insiste na defesa de “valores democráticos” diante do avanço de forças populistas.

Ventura apresenta o oposto. Ex-comentarista esportivo de TV e advogado de formação, ele assume um discurso de ruptura com os partidos tradicionais. À frente do Chega, legenda que cria há cerca de sete anos, transforma o partido na segunda maior força parlamentar no ano passado, superando os socialistas com uma plataforma centrada no combate à corrupção e no endurecimento contra a imigração.

O candidato diz que pretende ser um “presidente intervencionista”. Defende mudanças na Constituição para ampliar os poderes do chefe de Estado, hoje limitados, entre outros pontos, à possibilidade de dissolver o Parlamento, convocar eleições antecipadas e vetar leis. O veto presidencial, no entanto, pode ser derrubado pela maioria dos deputados, o que faz do diálogo com o Legislativo um elemento decisivo do mandato.

Seguro reúne o apoio da maioria dos candidatos derrotados no primeiro turno, de integrantes do gabinete e de veteranos da aliança governista que enxergam na sua eleição um contrapeso ao avanço de Ventura. O primeiro-ministro Luís Montenegro, líder do governista Partido Social Democrata, evita se comprometer e se recusa a declarar apoio explícito a qualquer um dos dois.

O que está em jogo para Portugal e para a Europa

As sondagens mais recentes indicam vantagem folgada para Seguro, com algo entre 50% e 60% dos votos, a depender de como cada instituto lida com indecisos e abstenção. Ventura aparece com 20% a 30% nas mesmas pesquisas. O intervalo deixa espaço para surpresas, mas aponta para um cenário no qual a direita radical se consolida como segundo polo da política portuguesa.

O resultado deste domingo não redefine sozinho a condução da economia, mas tem impacto direto no equilíbrio institucional de um país que realiza, desde 2024, cinco eleições nacionais em sequência. Um presidente com perfil moderado tende a favorecer arranjos de centro e reduzir o risco de novas dissoluções do Parlamento. Um mandatário disposto a intervir, como promete Ventura, pode testar os limites da Constituição e acentuar a tensão com o governo e com Bruxelas.

A União Europeia acompanha a votação com atenção. Portugal continua integrado ao núcleo pró-europeu, mas a ascensão de forças nacionalistas em Lisboa ecoa movimentos semelhantes em outros países do bloco. Um presidente alinhado ao discurso anti-establishment pode pressionar debates sobre imigração, políticas sociais e cumprimento de metas fiscais definidas em conjunto com a UE.

No plano interno, setores empresariais e sindicatos observam sinais de estabilidade política antes de novos ciclos de investimento e negociações salariais. A fragmentação vista no primeiro turno, com 11 candidaturas e nenhum nome próximo da maioria absoluta, sugere que qualquer presidente eleito terá de administrar um país mais polarizado, com menos espaço para consensos rápidos.

Próximos passos após o encerramento das urnas

As mesas de apuração começam a contar os votos imediatamente após o fechamento das assembleias, às 19h. Os primeiros resultados oficiais parciais devem ser divulgados ainda à noite, com um quadro mais definido antes da madrugada de segunda-feira no horário de Lisboa.

O presidente eleito toma posse para um mandato de cinco anos e não pode exercer mais de dois períodos consecutivos. Marcelo Rebelo de Sousa, impedido constitucionalmente de concorrer a um terceiro mandato, deixa para o sucessor uma Presidência que ganhou protagonismo em meio a sucessivas crises. A partir desta segunda-feira, com a divulgação final dos números, Portugal passa a testar não apenas um novo chefe de Estado, mas também a capacidade das suas instituições de absorver a polarização sem romper o pacto democrático firmado após o fim da ditadura. A resposta começa a ser conhecida na noite deste domingo, mas os efeitos se estendem pelos próximos anos.

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