PT aprova fim da escala 6×1 e pressiona por tarifa zero no transporte
O Diretório Nacional do PT aprova, neste sábado (7), uma resolução que defende o fim da escala de trabalho 6×1 sem corte de salários e o avanço da tarifa zero no transporte público. O texto também mira a redução da meta de inflação, a regulação de big techs e o combate ao uso ilegal de inteligência artificial, em um pacote que guia a estratégia política do partido para os próximos anos.
Trabalho, renda e o novo eixo da disputa
A resolução, divulgada em 7 de fevereiro de 2026, recoloca direitos trabalhistas e mobilidade urbana no centro da agenda petista. O partido quer falar diretamente com milhões de trabalhadores que ainda cumprem a jornada de seis dias por semana e dependem de ônibus, trens e metrôs para sair de casa todos os dias.
No documento, o PT promete atuar pelo fim da escala 6×1, sem redução de salários, sob o argumento de que descanso não é privilégio, mas parte do direito ao trabalho digno. O texto afirma que quem sempre defende o emprego precisa defender também “o direito ao descanso” como condição de saúde mental, convivência familiar e qualidade de vida. O partido atende a uma reivindicação antiga de centrais sindicais e de entidades ligadas à saúde do trabalhador, que há anos apontam o impacto da jornada extensa em acidentes, adoecimentos e afastamentos.
A proposta surge em um momento em que o mercado de trabalho ainda tenta se recompor após a pandemia de covid-19 e sucessivas reformas que flexibilizam direitos. Ao defender a mudança, o PT sinaliza que, se tiver força no Congresso e nas próximas eleições municipais e nacionais, pretende reabrir a discussão sobre limites de jornada e descanso semanal remunerado. A medida atinge diretamente setores com alta rotatividade e baixos salários, como comércio, serviços, call centers e redes de alimentação.
No transporte público, o partido dá um passo além e assume o compromisso de ampliar a política de tarifa zero, hoje presente de forma parcial em algumas cidades brasileiras. O texto fala em estudos estruturais e em novos modelos de financiamento para permitir que trabalhadores que caminham longas distâncias possam ter acesso gratuito ao transporte coletivo. “Ir e vir é um direito do trabalhador”, registra a resolução, que trata a passagem gratuita como forma de aumentar a renda disponível e o tempo livre, dois recursos apontados como base da dignidade.
Tarifa zero, meta de inflação e disputa fiscal
As propostas sociais vêm acompanhadas de um debate sensível: como pagar a conta. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que fala como militante do partido em evento na sexta-feira (6), volta a defender responsabilidade fiscal ao comentar a resolução. Ele reforça que o fim da escala 6×1 não tem impacto direto nas contas públicas, porque envolve relações entre empresas e trabalhadores, mas alerta para a complexidade da tarifa zero.
“Eu preciso desenhar um programa que tenha consistência. Se não tiver consistência, vai ter que voltar atrás. Agora, se for uma coisa consistente, sustentável, como é que nós vamos financiar o transporte público se não for por tarifa?”, questiona o ministro. A fala indica que o governo trabalha com cenários e simulações antes de assumir formalmente a tarifa zero como promessa presidencial, já com o orçamento federal pressionado por saúde, educação e reajustes salariais.
Na sequência, Haddad admite que abandonar a cobrança de passagens exige redesenho completo do modelo atual. “Tem jeito? Tem. Temos que desenhar isso. Não é uma coisa simples abdicar da tarifa para financiar um serviço público. Mas nós estamos trabalhando em cenários que permitirão ou não ao presidente incluir, ou não, essa proposta do seu plano de governo”, afirma. O recado é dirigido tanto à militância quanto ao mercado financeiro, que acompanha de perto qualquer movimento visto como ampliação de gasto permanente.
A resolução também volta a pressionar pela redução da meta de inflação, hoje uma das âncoras da política econômica. Ao pedir um objetivo mais baixo para a alta de preços, o PT tenta conectar estabilidade macroeconômica com melhoria de salários reais, renda e consumo. O partido defende que uma inflação mais controlada protege justamente quem mais sente o aumento de alimentos, energia e transporte, itens que consomem a maior parte do orçamento das famílias de baixa renda.
No campo digital, o texto mira diretamente o poder das grandes plataformas e o uso político da desinformação. O PT descreve o ambiente online como “nova arena de disputa” e cobra a aprovação de leis que obriguem redes sociais, serviços de mensagens e buscadores a responder por conteúdos que alimentam ataques às instituições, disseminam fake news e utilizam inteligência artificial de forma ilegal em campanhas. O objetivo declarado é chegar às próximas eleições com regras claras para coibir manipulação e disparos em massa.
Protagonismo externo e embate interno
A resolução dedica ainda um capítulo à política externa e tenta amarrar a imagem do governo Lula a um Brasil de volta ao centro das negociações globais. O documento afirma que o país “voltou ao centro do mundo com altivez”, fortalece o Brics, recompõe relações com América Latina, África, Europa e Ásia e lidera debates ambientais e de desenvolvimento sustentável. O texto credita esse reposicionamento à atuação direta do presidente e à reconstrução de alianças que ficaram fragilizadas ao longo da última década.
O PT critica o que chama de interferências externas em países da região e condena ataques à Venezuela e ameaças a Cuba. A sigla relembra a própria trajetória contra a ditadura militar e diz enxergar com preocupação movimentos que remetem aos anos 1960 e 1970, marcados por golpes apoiados por potências estrangeiras. Ao fazer essa conexão, o partido tenta reforçar entre sua base a defesa da autodeterminação dos povos como valor central da política externa brasileira.
O conjunto das propostas, que mistura agenda social ambiciosa, preocupação com sustentabilidade fiscal e regulação do ambiente digital, dá pistas dos próximos embates. No Congresso, o fim da escala 6×1 sem redução de salários deve enfrentar resistência de parte do empresariado, que calcula aumento de custos trabalhistas, especialmente em setores de baixa margem. Prefeituras e governos estaduais, responsáveis diretos pelo transporte coletivo, vão pressionar por novas fontes de receita se a tarifa zero ganhar corpo como política nacional.
Especialistas em finanças públicas projetam que qualquer avanço amplo na gratuidade do transporte exigirá rediscussão de subsídios, fundos setoriais e repartição de tributos entre União, estados e municípios. O debate tende a se intensificar até 2028, quando novos contratos de concessão de ônibus urbanos vencem em grandes capitais e precisarão ser renovados. Ao mesmo tempo, a regulação de plataformas digitais promete mobilizar big techs, partidos, movimentos sociais e o Judiciário.
O PT aposta que essa agenda, se bem comunicada, pode fortalecer o partido nas urnas, especialmente entre trabalhadores de baixa renda e usuários cativos do transporte público. Resta saber se o governo conseguirá transformar a resolução partidária em projetos de lei, fontes estáveis de financiamento e novas regras antes das próximas eleições gerais. A disputa, daqui em diante, será menos sobre o diagnóstico e mais sobre quem paga a conta e em quanto tempo as promessas saem do papel.
