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No aniversário do PT, Lula lança candidatura à reeleição em 2026

Lula usa o aniversário do PT, neste 7 de fevereiro de 2026, para se declarar candidato à reeleição. Em discurso duro, fala em “guerra” eleitoral e cobra autocrítica do partido.

Discurso marca largada da disputa de 2026

O ato, pensado como celebração dos 46 anos do PT, se transforma em lançamento simbólico da campanha presidencial. Diante de militantes, dirigentes e aliados, o presidente avisa que pretende ficar mais quatro anos no Planalto e prepara o campo para uma disputa que projeta como tensa e polarizada.

Lula afirma que a eleição de 2026 “não será um passeio” e fala em “guerra política”, expressão escolhida para acionar a militância e alertar a base aliada. Ele lembra que venceu em 2022 por margem apertada, pouco mais de 2 milhões de votos, e diz que o campo governista não pode repetir “erros de confiança excessiva”.

O tom contrasta com o clima festivo do aniversário do partido, mas agrada a parte da cúpula petista que vinha pressionando por definição. Ao assumir publicamente o desejo de disputar a reeleição ainda no primeiro trimestre de 2026, Lula antecipa um movimento que muitos esperavam só para o segundo semestre, quando o calendário eleitoral se aproxima de marcos formais.

Autocrítica, alianças e a presença de Alckmin

O presidente reserva boa parte do discurso para o próprio partido. Fala em “autocrítica sincera” e afirma que o PT precisa reconhecer falhas dos últimos anos. O recado mira tanto a condução do governo quanto o desempenho em estados-chave em 2024, quando o partido perdeu capitais importantes e viu aliados avançarem em redutos históricos da esquerda.

Lula insiste que o PT não governa sozinho. Reforça a necessidade de manter e ampliar alianças com partidos de centro e centro-direita, como se viu em 2022. Aponta diretamente para a frente que hoje sustenta o governo no Congresso, formada por siglas como MDB, PSD e União Brasil, e diz que “qualquer projeto de país precisa somar forças para isolar o extremismo”.

Geraldo Alckmin, vice-presidente e ex-governador de São Paulo por quatro mandatos, divide o palco com Lula e se torna personagem central do ato. A imagem, repetida em fotos e vídeos, simboliza a aposta na costura entre setores da esquerda e do centro tradicional. Ao lado do petista, Alckmin ouve elogios à “lealdade” e à “serenidade” com que, segundo Lula, atua na articulação política e na agenda econômica.

O presidente usa o exemplo da chapa de 2022, que uniu um ex-metalúrgico do ABC e um ex-tucano histórico do interior paulista, para defender que o caminho para 2026 passa por uma frente ainda mais ampla. Argumenta que, diante de um cenário de inflação sob controle, mas crescimento moderado, a estabilidade política se torna ativo eleitoral decisivo. “Ninguém governa com 30% da sociedade, é preciso falar com os outros 70%”, afirma.

Esse discurso dialoga com governadores e prefeitos que hoje negociam palanques duplos. Em vários estados, partidos que compõem a base em Brasília mantêm alianças locais com adversários do PT. A mensagem de Lula, ao reforçar o valor da coalizão, tenta reduzir a margem de ambiguidade e empurrar os aliados para compromissos mais claros com a sua candidatura.

Impacto imediato no xadrez político

A oficialização simbólica da candidatura reorganiza o tabuleiro político a menos de nove meses do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026. A partir de agora, todas as movimentações de ministros, governadores e líderes partidários passam a ser lidas à luz da disputa presidencial.

No campo governista, a fala de Lula tende a acelerar definições regionais. Estados que ainda discutem se abrem espaço para candidaturas alternativas ou se fecham com o Planalto terão de apresentar respostas. A base aliada, que reúne mais de dez partidos no Congresso, precisa conciliar interesses locais, espaços em futuras chapas estaduais e a preservação de uma imagem de unidade nacional.

A cobrança por autocrítica atinge diretamente o PT, que chega ao aniversário acumulando vitórias e desgastes. Lula lembra que o partido governa o país por 17 dos últimos 24 anos, somando os três mandatos anteriores (2003–2010), os cinco anos de Dilma Rousseff até o impeachment em 2016 e o atual retorno ao poder iniciado em 2023. A longa permanência no centro da política brasileira alimenta tanto a imagem de experiência quanto a fadiga de parte do eleitorado.

Dentro do partido, o discurso pode abrir uma disputa silenciosa por espaço. Setores que defendem renovação de quadros e linguagem veem na autocrítica uma chance de atualizar estratégias, falar com eleitores mais jovens e responder a críticas à gestão econômica e à relação com o Congresso. Alas mais tradicionais, que enxergam na palavra “autocrítica” uma concessão excessiva a adversários, temem que o movimento enfraqueça a militância mais fiel.

No campo oposicionista, a fala de Lula pressiona por uma resposta rápida. Pré-candidatos da direita e da extrema direita agora dialogam com um cenário mais definido: de um lado, um presidente que assume a reeleição; de outro, a necessidade de construir uma candidatura capaz de repetir o desempenho expressivo de 2022, quando a polarização garantiu à oposição mais de 49% dos votos válidos no segundo turno.

O que vem a seguir na corrida de 2026

A agenda do governo passa a ser lida como vitrine de campanha. Entregas previstas para 2026, como obras de infraestrutura, revisões em programas sociais e metas de investimento no PAC, ganham valor político imediato. Cada inauguração, anúncio de crédito ou dado econômico positivo será explorado pelo Palácio do Planalto como prova de capacidade de gestão em meio à adversidade.

As próximas semanas devem ser dedicadas a reuniões com presidentes de partidos aliados, governadores e bancadas no Congresso. O objetivo é reduzir arestas, evitar dissidências públicas e alinhar discurso em torno de alguns eixos: defesa da democracia, combate à desigualdade e crescimento com responsabilidade fiscal. O governo ainda precisa demonstrar que consegue manter inflação e juros em trajetória estável, condição vista como essencial para neutralizar críticas da oposição.

O anúncio antecipado da candidatura também testa os limites do eleitorado em relação à permanência de Lula no centro da cena política. Aos 80 anos, o presidente sabe que a questão geracional entrará na campanha, ainda que não cite diretamente o tema. Assessores avaliam que o capital de imagem acumulado em mais de quatro décadas de vida pública continua relevante, mas não dispensa a construção de novas pontes com eleitores que nasceram depois dos primeiros governos petistas.

O aniversário do PT termina, assim, menos com tom de balanço e mais com roteiro de batalha. A partir deste 7 de fevereiro, governo, partido e aliados entram oficialmente no tempo da eleição. Resta saber se o recado de autocrítica e unidade se traduz, nos próximos meses, em prática política capaz de sustentar mais quatro anos de projeto petista no Planalto.

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