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Polícia britânica mira Peter Mandelson em novo capítulo do caso Epstein

Peter Mandelson, ex-embaixador do Reino Unido nos EUA, se torna alvo de uma investigação por má conduta em cargo público após novas revelações ligadas a Jeffrey Epstein. A polícia cumpre mandados de busca em dois endereços na Inglaterra e pressiona o governo de Keir Starmer em meio a uma crise de confiança política.

Arquivos, fotos e e-mails reacendem o escândalo

A crise explode em fevereiro de 2026, quando um novo lote de arquivos associados a Jeffrey Epstein vem à tona e envolve diretamente Mandelson. Entre os documentos, aparecem e-mails de 2009 que sugerem vazamento de informações sensíveis do governo britânico para o financista americano, então já cercado por denúncias de abuso sexual.

Na época, Mandelson ocupa o cargo de secretário de Negócios no governo trabalhista de Gordon Brown, em plena ressaca da crise financeira global de 2008. Nas mensagens, ele parece antecipar a Epstein medidas econômicas que o gabinete discute para estabilizar o sistema financeiro e conter o risco de recessão prolongada.

Os e-mails indicam ainda que Mandelson avisa a Epstein sobre um plano de resgate europeu estimado em € 500 bilhões para sustentar o euro, num momento em que o projeto da moeda única enfrenta sua primeira grande prova de fogo. A informação, se confirmada, expõe um possível conflito entre o dever de sigilo de um ministro britânico e o interesse de um aliado poderoso no mercado financeiro.

O pacote de documentos inclui também fotografias sem data e sem legenda. Em uma delas, um homem que se assemelha a Mandelson aparece apenas de cueca ao lado de uma mulher com o rosto ocultado. Não há indicação de onde ou quando a imagem é registrada. Questionado pela BBC, Mandelson afirma que “não consegue identificar o local ou a mulher e não consegue imaginar quais eram as circunstâncias”.

O conteúdo reforça suspeitas antigas sobre a proximidade do ex-embaixador com Epstein, morto em 2019 em uma prisão de Nova York. A relação, antes tratada como constrangedora, ganha agora contornos de possível uso político e econômico de informações obtidas dentro do governo britânico.

Busca policial, renúncias e pressão sobre Starmer

A reação das autoridades é rápida. Na sexta-feira, 6 de fevereiro, a polícia britânica realiza buscas em dois endereços associados a Mandelson: um em Wiltshire, no sul da Inglaterra, e outro em Camden, região central de Londres. Os mandados fazem parte de uma investigação aberta três dias antes, na terça-feira, 3, após denúncias formais de má conduta em cargo público, entre elas uma apresentada pelo próprio governo.

Mandelson já vive um processo de queda acelerada. No domingo, 1º de fevereiro, ele se desfilia do Partido Trabalhista liderado por Keir Starmer. Dois dias depois, deixa o assento na Câmara dos Lordes, a câmara alta do Parlamento. Desde então, evita a imprensa e não responde a pedidos de comentário sobre o teor dos arquivos e o avanço da investigação policial.

O escândalo não atinge apenas a reputação pessoal do ex-embaixador. A nomeação de Mandelson para Washington, em 2024, volta ao centro do debate político em Londres. O gesto, à época apresentado por Starmer como demonstração de prestígio internacional do governo, passa a ser lido como erro grave de avaliação.

Com a divulgação dos arquivos, o próprio premiê endurece o tom. Na quinta-feira, 5, Starmer afirma publicamente que lamenta ter acreditado nas “mentiras” de Mandelson antes de nomeá-lo embaixador. O primeiro-ministro já havia demitido o aliado em setembro de 2025, mas enfrenta agora questionamentos internos e da oposição sobre o processo que o levou a ignorar alertas anteriores sobre a relação com Epstein.

O caso se soma a outras menções incômodas contidas no mesmo conjunto de documentos, envolvendo o ex-príncipe Andrew e sua ex-esposa, Sarah Ferguson. A repetição de nomes ligados à monarquia e ao alto escalão político alimenta a percepção de que o círculo de influência de Epstein se estende muito além dos Estados Unidos e atinge o coração das instituições britânicas.

Crise de confiança e reflexos políticos e diplomáticos

O impacto imediato recai sobre a confiança do público nas estruturas de poder em Londres. As suspeitas de que um secretário de Estado possa ter vazado informações de governo a um criminoso sexual com trânsito entre bilionários e figuras públicas expõe uma fratura na ética política britânica. A investigação por má conduta em cargo público mira justamente esse ponto: se Mandelson utilizou sua posição para beneficiar interesses privados ou pessoais.

Dentro do Partido Trabalhista, o episódio alimenta um debate sobre os critérios de escolha para cargos de alta relevância, como embaixadas estratégicas. A indicação de Mandelson para os Estados Unidos, em 2024, hoje funciona como munição para adversários internos que enxergam em Starmer uma tendência a se cercar de figuras com histórico político controverso.

O desgaste alcança também o cenário internacional. Em Washington, o caso reacende a vigilância sobre como governos lidam com informações sensíveis em meio a redes informais de poder e influência. A ligação de Mandelson com o Brasil, por meio do casamento com o brasileiro Reinaldo Avila da Silva, é mencionada apenas de passagem nos círculos diplomáticos, mas reforça o caráter global das conexões de Epstein.

O episódio ainda provoca desconforto na própria família real. A presença do nome de Andrew Mountbatten-Windsor, antigo príncipe Andrew, nos arquivos amplia a pressão para que ele coopere com autoridades. Starmer defende que o integrante da monarquia preste depoimento ao Congresso dos EUA, num movimento que visa marcar distância institucional, mas também revela a extensão política do problema.

Enquanto isso, a divulgação de informações sobre vítimas de Epstein, incluídas em parte dos arquivos, gera outra frente de crítica. Organizações de direitos humanos apontam riscos de exposição indevida e revitimização de mulheres que já enfrentaram processos longos na Justiça. A forma como autoridades e a imprensa tratam esses dados se torna mais um teste da capacidade do sistema de proteger quem denunciou os abusos.

Investigação em curso e perguntas sem resposta

A polícia não detalha o que recolhe nas buscas em Wiltshire e Camden, nem estabelece prazo para a conclusão da investigação. Fontes do governo indicam que novas denúncias podem surgir à medida que mais documentos sejam analisados. A perspectiva é de um inquérito prolongado, capaz de manter o caso em evidência por meses.

Em Westminster, cresce a pressão para que o governo revise as regras de indicação para cargos diplomáticos, estabelecendo filtros mais rígidos de integridade e transparência. Parlamentares discutem também formas de reforçar o controle sobre o manuseio de informações econômicas sigilosas, especialmente em períodos de crise, como a de 2008, que molda a carreira de Mandelson no gabinete Brown.

O desfecho jurídico ainda é incerto. Mesmo sem acusação formal, a simples existência de uma investigação criminal já encerra, na prática, a trajetória pública de um dos políticos mais influentes da era trabalhista pós-Tony Blair. A dúvida que permanece é se o caso Epstein vai provocar apenas quedas individuais ou se forçará uma reforma mais profunda na forma como a política britânica lida com poder, dinheiro e sigilo.

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