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Prisão de Maduro redefine rotina e tensão na fronteira Brasil-Venezuela

Nicolás Maduro é preso pelos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026, na fronteira entre Brasil e Venezuela. Um mês depois, Pacaraima (RR) e Santa Elena de Uairén vivem uma rotina mais vigiada, com menos movimentos ilegais e dúvidas sobre o futuro da economia local.

Fronteira sob pressão depois da captura

A operação que leva o ditador venezuelano à custódia americana ocorre entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén, em um trecho de pouco mais de 12 quilômetros de estrada compartilhada. Agentes dos Estados Unidos, com apoio de autoridades brasileiras e de outros países, executam a captura em 3 de janeiro, em uma ação descrita por diplomatas como parte de uma ofensiva ampla contra o narcotráfico na região.

Maduro é acusado de chefiar um grande cartel responsável por enviar toneladas de cocaína e outras drogas para o mercado americano. Investigadores falam em remessas que passam por rotas amazônicas e pelo Caribe, em esquemas que movimentam milhões de dólares por mês. A prisão, anunciada em Washington com tom de triunfo, atinge em cheio a já frágil estabilidade da fronteira venezuelana com o Brasil.

Nas ruas de Pacaraima, cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, o impacto é imediato. Em janeiro, a prefeitura registra queda de cerca de 30% no fluxo diário de venezuelanos que cruzam a pé a BR-174 em direção ao comércio brasileiro. Em Santa Elena, comerciantes relatam queda semelhante no movimento de brasileiros que atravessam para abastecer carros e caminhões com combustível mais barato.

O clima político também muda. A prisão do líder venezuelano aprofunda o isolamento do regime em Caracas e reacende discussões sobre quem assume o comando efetivo do país. Países vizinhos cobram uma transição negociada, enquanto o governo interino que se forma enfrenta resistência de setores militares ainda leais ao antigo chefe.

Economia em compasso de espera e segurança reforçada

No posto de fiscalização da Polícia Federal, em Pacaraima, o movimento de ônibus e vans é menor, mas o controle é bem mais rígido. Em um intervalo de 24 horas, agentes verificam documentos e bagagens de todos os veículos que entram no Brasil, com apoio de escâneres e cães farejadores. “Desde a prisão, a orientação é apertar o cerco ao tráfico e às passagens ilegais”, diz, sob condição de anonimato, um policial que atua na fronteira.

Moradores relatam que o fluxo de carregamentos suspeitos diminui. Caminhonetes que cruzavam a linha divisória de madrugada, muitas vezes sem placa, praticamente somem das estradas vicinais. “A gente via convoys estranhos toda semana. Agora, quase nada”, conta um comerciante de 42 anos, dono de um pequeno mercado em Pacaraima. Ele admite, porém, que a redução do crime organizado não vem sem custo: “Vendi 20% menos em janeiro. Muita gente que vinha gastar aqui está com medo ou sem dinheiro.”

Em Santa Elena de Uairén, a sensação é de suspensão. O bolívar segue desvalorizado, e a cidade depende do real que entra do lado brasileiro para manter parte do comércio vivo. Com a maior presença de militares venezuelanos nos acessos à cidade e checagens mais longas, o tempo de travessia aumenta. “Antes, eu cruzava em 15 minutos. Agora, às vezes levo mais de uma hora”, relata uma enfermeira de 33 anos, que trabalha em Pacaraima e volta para casa na Venezuela todos os dias.

Organizações que atuam com refugiados e migrantes também sentem o efeito da nova conjuntura. Entidades ligadas a missões religiosas registram queda no número de famílias que conseguem chegar à fronteira, mas aumento de pedidos de ajuda de quem já está no Brasil e teme represálias ao voltar. “A prisão de Maduro mexe com a cabeça de todo mundo. Muitos acreditam que o controle vai apertar ainda mais e preferem ficar deste lado”, afirma o coordenador de um abrigo local.

Do ponto de vista da segurança, autoridades brasileiras apontam avanços. Relatórios internos, compartilhados com governos vizinhos, indicam redução de até 40% nas apreensões de drogas na região em janeiro, em comparação com a média dos últimos seis meses de 2025. Para investigadores, a queda não significa que o problema desaparece, mas sugere desorganização temporária das quadrilhas que operam a partir de território venezuelano.

Futuro incerto para a Venezuela e para a fronteira

A prisão do líder venezuelano amplia a pressão internacional sobre o regime de Caracas e reforça sanções econômicas já em vigor desde meados da década passada. Estados Unidos e países europeus indicam que mantêm bloqueios financeiros e restrições a autoridades ligadas ao antigo governo enquanto não houver um cronograma claro de transição democrática. Esse cenário alimenta o temor de novo ciclo migratório em direção ao Brasil, à Colômbia e a países do Caribe.

No curto prazo, o governo brasileiro reforça o contingente de segurança em Roraima e intensifica a cooperação com forças americanas e de outros vizinhos. Fontes do Itamaraty falam em reuniões semanais para coordenar ações de combate ao tráfico e ao contrabando, com foco especial em rotas que usam a Amazônia como corredor. A avaliação dominante é que o vácuo de poder deixado pela prisão abre espaço para disputas internas entre facções civis e militares.

Para Pacaraima e Santa Elena, o próximo ano tende a ser de ajustes. Prefeituras e autoridades locais já discutem alternativas para reduzir a dependência de fluxos informais e de economias de fronteira muitas vezes ligadas a atividades ilegais. Projetos de turismo de base comunitária, pequenas agroindústrias e programas de regularização de migrantes voltam ao centro das conversas.

As perguntas que se repetem a cada nova barreira policial na BR-174 revelam o tamanho da incerteza: até quando a queda de Maduro vai segurar as rotas da droga, e quem vai pagar a conta social e econômica dessa mudança na fronteira?

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