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EUA pressionam por paz na Ucrânia com eleição e referendo até março

A administração Trump fixa março de 2026 como prazo para um acordo de paz na Ucrânia, com eleições nacionais e um referendo no Donbass no centro do plano. As negociações envolvem Estados Unidos, Ucrânia e Rússia e correm em meio à pressão eleitoral em Washington e ao cálculo militar em Moscou.

Negociações em Abu Dhabi e o relógio de Washington

Delegações dos três países se encontram nesta semana em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, em mais uma rodada de conversas discretas. Segundo três fontes ouvidas pela agência Reuters, os negociadores americanos apontam março como o momento ideal para selar um acordo e anunciar o fim de uma guerra que já passa de um ano.

O prazo nasce menos de dois anos depois de promessas iniciais de solução em 24 horas e, depois, em 100 dias. O conflito resiste, muda de frente, derruba expectativas e empurra a Casa Branca para uma saída negociada que combine concessões políticas em Kiev e garantias mínimas para Moscou.

À mesa, os emissários americanos Steve Witkoff, enviado especial, e Jared Kushner, genro de Donald Trump, desenham um roteiro que vai além do cessar-fogo. O plano inclui a realização de eleições presidenciais na Ucrânia e um referendo nas áreas ocupadas do Donbass, hoje centro da disputa territorial.

O recado a Kiev é direto: para Washington, a estabilidade duradoura passa pela renovação do comando político ucraniano e por uma consulta popular que defina o futuro das regiões sob fogo cruzado. O cálculo político é explícito e guarda sintonia com uma das exigências de Vladimir Putin, que deseja ver Volodymyr Zelensky fora do poder.

Referendo no Donbass e o impasse do território

A fronteira real da negociação continua no mapa. Moscou insiste em controlar todo o Donbass. Kiev recusa qualquer cessão definitiva de território sem que a população local se manifeste de forma organizada. Esse choque de posições está presente desde as primeiras tentativas de diálogo e pouco se move ao longo dos meses.

O referendo proposto pelos Estados Unidos surge como tentativa de quebrar o impasse. A ideia é colocar urnas nas áreas disputadas para que moradores decidam se permanecem sob soberania ucraniana ou se se alinham à órbita russa. O desenho exato da votação, o cadastro de eleitores e as garantias de segurança ainda estão em aberto.

Autoridades ucranianas alertam que organizar uma eleição em escala nacional leva cerca de seis meses. A previsão torna maio de 2026 um horizonte mais realista do que março, ainda assim visto em Kiev como uma meta apertada, quando não utópica, diante de cidades destruídas, deslocamentos em massa e frentes de combate ativas.

Enquanto o calendário escorrega, o terreno continua em movimento. A Rússia aproveita cada semana sem acordo para consolidar posições, ampliar trincheiras e testar a resiliência militar ucraniana. O prolongamento das conversas, na prática, funciona como trégua diplomática e janela para avanços graduais das tropas russas.

No meio desse tabuleiro, a troca recente de 314 prisioneiros de guerra entre Ucrânia e Rússia aparece como gesto calculado. O movimento serve de sinal de boa vontade, reduz a pressão humanitária e oferece ao menos um resultado concreto às mesas de negociação, enquanto temas mais sensíveis seguem travados.

Pressão eleitoral nos EUA e risco político em Kiev

O relógio que mais pressiona o processo não está em Kiev nem em Moscou. Em Washington, Donald Trump entra em 2026 com foco nas eleições intercalares de novembro, que vão redefinir a composição do Congresso. Um acordo de paz antes do pleito reforçaria o discurso de eficiência externa e abriria espaço para concentrar a campanha em temas domésticos.

O governo americano quer, nas palavras de auxiliares, “encerrar a guerra” para liberar tempo político e fiscal. Menos atenção à Ucrânia significaria mais energia para discutir impostos, imigração e pauta econômica com um Congresso renovado. A ligação entre diplomacia e campanha interna não é nova, mas se apresenta agora de forma particularmente transparente.

Em Kiev, o mesmo calendário assume outro peso. Eleições presidenciais em meio à guerra podem fragilizar Zelensky, cuja popularidade foi construída na resistência à invasão e não na conciliação com o Kremlin. Um pleito sob pressão externa e disputa armada pode abrir espaço a candidatos mais abertos a concessões territoriais, o que Moscou lê como oportunidade estratégica.

Um eventual governo mais alinhado à Rússia redesenharia o xadrez de segurança na Europa Oriental, reduziria o papel da Otan no front ucraniano e testaria a confiança de países do Leste Europeu que hoje dependem do compromisso americano. A percepção de que Washington empurra Kiev para uma concessão apressada pode alimentar desconfianças entre aliados.

Zelensky, por ora, procura mostrar resultados parciais. Após a troca de prisioneiros, o presidente ucraniano afirma que uma próxima reunião trilateral pode ocorrer em solo americano. O gesto seria simbólico: levar o dossiê da guerra ao coração político dos Estados Unidos e vincular de vez o destino da Ucrânia ao humor do eleitorado americano.

Calendário em disputa e um fim de guerra ainda distante

Se março se mostra ambicioso demais, negociadores dos Estados Unidos e da Ucrânia começam a tratar maio como uma alternativa para concentrar as duas consultas: eleição presidencial e referendo territorial. O prazo, porém, continua colidindo com as exigências logísticas, legais e de segurança descritas por Kiev.

Até aqui, o processo avança em passos curtos: uma troca de 314 prisioneiros, um compromisso de novo encontro, um esboço de roteiro para eleições e um referendo em áreas destruídas. A distância entre esse esboço e um acordo de paz assinável permanece grande, especialmente enquanto a Rússia ganha tempo e terreno.

As próximas semanas em Abu Dhabi, e possivelmente em Washington, vão mostrar se o prazo de março é apenas um gesto retórico da Casa Branca ou se haverá pressão real por decisões rápidas. Entre a pressa eleitoral americana, o cansaço de guerra na Ucrânia e a paciência estratégica do Kremlin, o desfecho ainda parece aberto.

Resta saber se o relógio da política doméstica nos Estados Unidos será mais forte que a geografia do Donbass e a resistência de uma população que paga, há mais de um ano, o custo diário da guerra.

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