Lula chama eleição de 2026 de ‘guerra’ e aposenta ‘Lulinha paz e amor’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classifica a eleição de 2026 como uma “guerra” e afirma que acabou o período do “Lulinha paz e amor”. Em discurso nesta 7ª feira (7.fev.2026), ele volta a dizer que a democracia brasileira está ameaçada pela disputa eleitoral e cobra articulação política mais agressiva entre aliados.
Lula endurece o tom e coloca democracia no centro da disputa
Lula fala para a própria base, mas mira um público mais amplo ao descrever o próximo pleito como decisivo para o futuro institucional do país. Ao repetir que “a democracia está em jogo”, ele tenta transformar a escolha de 2026 em um divisor de águas, e não em uma eleição rotineira. A declaração marca um contraste com o personagem conciliador que ajudou a pavimentar suas vitórias em 2002 e 2006.
O presidente explicita essa virada ao dizer que o tempo do “Lulinha paz e amor” termina diante do que considera uma escalada de radicalização política. A mensagem aponta para uma campanha mais confrontativa, estruturada em torno da defesa do sistema eleitoral e da ideia de que o resultado de 2026 pode redefinir os limites da própria República. O discurso ecoa avaliações de assessores que veem sinais de tensão semelhantes aos do período entre 2018 e 2022.
A fala também responde à pressão de setores do PT e de partidos aliados, que cobram um comando político mais firme às vésperas do novo ciclo eleitoral. Lula sinaliza que não pretende repetir erros que, segundo auxiliares, quase custam a eleição anterior, vencida com margem apertada de pouco mais de 1 ponto percentual. A ênfase na palavra “guerra” reforça a disposição de disputar voto a voto em cada Estado.
Cobrança por alianças expõe movimentação nos bastidores
Ao convocar o deputado Edinho para “fazer as alianças necessárias”, Lula explicita uma ordem que circula há meses nos bastidores: montar uma frente ampla capaz de sustentar a reeleição. O presidente cobra resultados concretos na costura com partidos de centro, que somam dezenas de deputados e podem definir maiorias no Congresso e palanques regionais. A mensagem é direta: sem acordos, o risco de derrota e de instabilidade institucional aumenta.
Nos bastidores do Planalto, auxiliares calculam que a base fiel ao governo na Câmara ainda está aquém do desejado, flutuando em torno de 250 votos em votações chave, longe dos 308 necessários para aprovar mudanças constitucionais. A ordem para intensificar negociações mira justamente esse déficit. Cada novo apoio fechado agora pode render minutos extras de propaganda eleitoral, presença em palanques estaduais e capilaridade em cidades médias e pequenas.
A cobrança pública de Lula também funciona como recado interno. Ao expor a missão de Edinho, o presidente pressiona lideranças regionais a entrar no jogo com mais rapidez. Governadores, prefeitos e dirigentes partidários são chamados a escolher de que lado estarão em 2026, diante de um ambiente que o próprio Planalto descreve como “polarizado ao limite”. Nos cálculos governistas, alianças firmadas até o meio do ano ajudam a reduzir incertezas econômicas e políticas no segundo semestre.
O discurso de que a democracia está ameaçada amplia o custo político da neutralidade. Ao enquadrar a eleição como um confronto entre quem defende as instituições e quem as coloca em risco, Lula força partidos hesitantes a se posicionar. A narrativa remete ao trauma de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas atacam as sedes dos Três Poderes, e reaparece agora como argumento central para justificar acordos amplos, inclusive com antigos adversários.
Impacto na campanha, na base aliada e na opinião pública
A mudança de tom redefine o tabuleiro eleitoral com antecedência. Ao trocar o apelo à conciliação por um discurso de enfrentamento, Lula busca unificar a militância e reduzir espaço para dissidências internas. Dirigentes petistas avaliam que o novo roteiro facilita a mobilização em atos de rua, arrecadação para campanha e defesa ativa do Tribunal Superior Eleitoral e das urnas eletrônicas.
Setores do governo apostam que a retórica de “guerra” eleva o engajamento de eleitores que, em 2022, votam mais por rejeição ao adversário do que por entusiasmo com o projeto petista. A narrativa de risco à democracia funciona como cola para uma frente que pode reunir partidos de esquerda, centro e parte da centro-direita. O cálculo é que uma união dessa escala possa alcançar algo próximo a 60% do tempo total de propaganda em rádio e TV, criando desvantagem expressiva para o concorrente principal.
O endurecimento do discurso, porém, não é isento de riscos. Analistas políticos alertam que a insistência na metáfora da “guerra” tende a esgarçar ainda mais o ambiente de diálogo entre governo, oposição e setores empresariais. Em um país que soma mais de 150 milhões de eleitores, uma narrativa de tudo ou nada pode aprofundar a desconfiança em relação às instituições e aumentar o potencial de contestação do resultado, qualquer que seja o vencedor.
O presidente tenta equilibrar esse quadro ao combinar a ideia de confronto político duro com a defesa explícita das regras do jogo. Ao repetir que a disputa precisa ocorrer “dentro da democracia”, Lula sinaliza que não pretende relativizar o papel da Justiça Eleitoral nem abrir espaço para aventuras golpistas. A aposta é que o eleitor diferencie um combate político intenso de uma ameaça direta à ordem constitucional.
Próximos passos na articulação e na narrativa da democracia em risco
A cobrança sobre Edinho indica que as próximas semanas serão dedicadas a mapear, uma a uma, as siglas dispostas a integrar o arco de alianças governista. Dirigentes falam em calendário apertado: a meta é consolidar até o fim do 1º semestre de 2026 a maioria dos acordos estaduais, para chegar à convenção nacional com palanques definidos em ao menos 20 Estados. O desafio é encaixar interesses locais sem desfigurar o discurso nacional de defesa da democracia.
A narrativa de “democracia em risco” deve atravessar toda a campanha, com foco em episódios recentes de ataques às instituições e na polarização permanente nas redes sociais. A estratégia de Lula depende da capacidade de transformar essa preocupação difusa em voto organizado, sobretudo entre indecisos e eleitores que se afastam da política após anos de conflito. A resposta da oposição, o comportamento do Congresso e o humor da economia vão determinar se a “guerra” descrita pelo presidente fortalece a confiança nas urnas ou abre nova frente de incerteza para 2026.
