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215 formandos de Medicina em MS saem de cursos reprovados no Enamed

Em 2026, 215 estudantes de Medicina se formam em Mato Grosso do Sul em cursos avaliados com nota abaixo do mínimo aceitável pelo Ministério da Educação no Enamed. As turmas são da Uniderp, em Campo Grande, e da Unicesumar, em Corumbá, que recebem conceito 2 no exame nacional de avaliação da formação médica.

Formandos entre mensalidades altas e ensino sob suspeita

Os números colocam em xeque a qualidade da formação de parte dos futuros médicos do Estado. Na Uniderp, 158 alunos fazem o exame em 2026; na Unicesumar, são 57. Em ambas, a mensalidade média gira em torno de R$ 15 mil, valor que contrasta com a avaliação considerada insuficiente pelo MEC.

O Enamed, Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, mede o conhecimento teórico dos estudantes ao final do curso e atribui um conceito às instituições. A nota 2, como a registrada por Uniderp e Unicesumar, fica abaixo do patamar que o próprio ministério considera aceitável para a formação de médicos. O resultado acende um alerta imediato para quem está prestes a receber o CRM e atender pacientes em prontos-socorros e unidades básicas.

O cenário em Mato Grosso do Sul expõe um contraste interno. Enquanto as duas instituições privadas amargam nota baixa, os cursos públicos do Estado aparecem entre os melhores do país. A UFMS de Três Lagoas obtém nota 5, com 49 formandos avaliados. A UFMS de Campo Grande também tira 5, com 82 alunos na prova. A UFGD, em Dourados, recebe conceito 5, com 72 estudantes. A UEMS, estadual, alcança nota 4, com 35 avaliados.

Os resultados locais refletem uma fotografia nacional. Em todo o Brasil, 13.871 estudantes concluem Medicina em cursos com conceitos 1 ou 2, os piores da escala oficial. O país forma hoje cerca de 45 mil médicos por ano, de acordo com o Conselho Federal de Medicina, e já soma 650 mil profissionais inscritos nos conselhos regionais.

CFM fala em risco à população e defende exame de barreira

Para o conselheiro federal Estevam Rivello, segundo secretário do CFM, o Enamed confirma um problema que as entidades da categoria apontam há anos: a expansão acelerada e desordenada de faculdades privadas. “O que o Governo Federal expôs é tudo aquilo que as entidades médicas vêm apontando há cerca de duas décadas”, afirma. “Até meados da década de 90 nós tínhamos uma educação genuinamente pública e de qualidade. Hoje, nós temos 70% das faculdades brasileiras médicas privadas e de péssima qualidade.”

Rivello explica que a nota da instituição não é a mesma de cada estudante, mas o retrato do conjunto. O MEC estabelece um ponto de corte específico para cada curso. Na UFMS, exemplifica, a nota máxima 5 só é concedida quando mais de 90% da turma atinge pelo menos 6 na prova. “A UFMS conseguia nota 5 se mais de 90% da turma tirar acima de 6. No último exame, 92,7% dos alunos tiraram acima de 6. Na Uniderp, 58,2% do grupo tirou acima de 6”, detalha.

Os números reforçam, na avaliação do CFM, a urgência de um filtro mais rígido antes da entrada desses profissionais no mercado. A entidade articula, em Brasília, mudanças que possam impedir o registro automático de quem não atinge um patamar mínimo em exames nacionais. Na prática, a proposta cria uma espécie de exame de ordem para médicos, semelhante ao da OAB para advogados.

O conselho quer usar o próprio Enamed como referência para restringir o acesso ao CRM aos reprovados. Ao mesmo tempo, classifica o formato atual da prova como insuficiente, por se limitar a questões objetivas. “Hoje, para avaliação do ensino médico, não pode fazer só uma avaliação escrita”, critica Rivello. No exame mais recente, foram 100 questões, com 10 anuladas e 3 repetidas. “Quem vai sofrer é a população mesmo. Esses profissionais mal formados irão trabalhar como primeira porta de primeiro socorro. O principal direito é o direito da vida, que sobrepõe a qualquer outro”, diz.

O debate ganha força em um momento de saturação da rede pública e de aumento da dependência do SUS por parte da população. Em muitos municípios, o recém-formado é o único médico de plantão em emergências e prontos-atendimentos. A discussão sobre a qualidade da formação deixa de ser pauta corporativa e se torna tema de segurança do paciente.

Profimed avança no Senado e deve mudar entrada na profissão

No Congresso, o foco agora é o Projeto de Lei nº 2.294/2024, que cria o Profimed, um exame nacional de proficiência em Medicina. Se aprovado pelo Senado e sancionado, o teste passa a ser aplicado pelo próprio CFM, com etapas teóricas e práticas. O objetivo declarado é justamente funcionar como barreira para a inscrição nos conselhos regionais.

Rivello defende que o novo modelo siga o padrão de outros países e das provas de residência médica, que já incluem avaliação prática à beira do leito ou em simulações. “É necessário melhorias no Enamed, como a avaliação prática. É assim em vários países e também na residência médica. Precisa ter uma base legal para existir”, argumenta. O Profimed, na visão do conselho, seria esse instrumento com respaldo em lei.

Enquanto a discussão avança no Senado, as instituições privadas buscam se defender. Em nota enviada em reportagem anterior, a Unicesumar afirma que, desde a criação do curso de Medicina em 2020, recebe nota 5 nas avaliações do MEC. A universidade atribui o desempenho no Enamed não apenas à formação oferecida, mas também ao empenho individual de cada estudante na prova. “A universidade entende que, no Enamed, além do conhecimento oferecido pela instituição, o comprometimento do aluno em se dedicar ao exame interfere no resultado final do curso avaliado”, diz o texto.

Segundo a instituição, um processo interno de análise dos resultados já está em curso, com ajustes em disciplinas e metodologias. A nota diz que melhorias foram implementadas para que a qualidade do ensino “siga com excelência”. A Uniderp não detalha publicamente eventuais mudanças após o conceito 2, mas é pressionada, como todas as escolas com baixo desempenho, a rever currículos, corpo docente e infraestrutura.

O embate entre governo federal, faculdades e entidades médicas promete se intensificar até a votação do Profimed. Para os 215 formandos de Uniderp e Unicesumar, e para os mais de 13 mil que saem hoje de cursos mal avaliados em todo o país, o desfecho dessa disputa pode significar da exigência de um novo exame até o bloqueio temporário de registro profissional. Para pacientes e redes de saúde, a pergunta que permanece é se o sistema será capaz de equilibrar o direito ao diploma com a garantia de que, do outro lado da mesa de consulta, haverá de fato um médico bem preparado.

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